Um filme que nasce da periferia, atravessa uma pandemia e explode em emoção e reflexões sobre racismo e ancestralidade. Assim é "Proteção", longa-metragem que estreou no último dia 9 no tradicional Cine Odeon, no Centro do Rio de Janeiro, durante a 18ª edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Mais do que um filme, a produção é uma aula de resistência e coletividade, com raízes fincadas em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.

Sete anos de desafios: a construção de "Proteção"
O enredo de "Proteção" começou a ganhar vida em 2018, com o roteiro sendo escrito pelo diretor gonçalense Alberto Sena. No entanto, a jornada não foi simples. As gravações começaram em 2019, mas foram interrompidas abruptamente pela pandemia de Covid-19. Só em 2021 a produção pôde ser retomada, sendo finalizada no ano passado. Foram sete anos de trabalho intenso, com adaptações constantes para manter a essência da história viva.
O diretor Alberto Sena descreveu o processo como "trocar o pneu do carro com ele em movimento". Sem financiamento inicial, a equipe precisou apostar na força do coletivo. "Tudo foi feito com base na colaboração, desde transporte até alimentação. Foi desafiador, mas muito recompensador", revelou Marcos Moura, produtor executivo do filme e também filho de São Gonçalo.
Representatividade dentro e fora das telas
Um dos grandes méritos de "Proteção" é seu elenco e equipe predominantemente negros, com cerca de 90% dos profissionais pertencentes a essa representatividade. A atriz Luana Arah, nascida em Niterói e criada no bairro do Cubango, é um dos destaques. Na trama, ela interpreta Zayla, uma personagem profundamente conectada com laços familiares e espiritualidade.
"Foi um desafio e, ao mesmo tempo, um aprendizado. A Zayla me ensinou a ver as coisas por uma nova perspectiva, a entender que nem tudo está sob nosso controle", declarou a atriz. Além disso, Luana aproveitou para destacar um ponto importante: "Representatividade não é apenas sobre estar em cena, mas também sobre qualidade e o protagonismo nas narrativas."
Quando a ficção encontra a realidade
O roteiro de "Proteção" já abordava uma epidemia com recorte social, mas o impacto da pandemia de Covid-19 trouxe uma camada inesperada de realismo à trama. "Foi assustador ver a vida real refletir tão de perto o que havíamos imaginado", comentou Marcos Moura. O filme, que inicialmente parecia uma ficção distópica, acabou se tornando um espelho perturbador dos tempos atuais.
Estética como elemento narrativo
Além do roteiro, a estética de "Proteção" é outro ponto que impressiona. Sob a direção de arte de Laís de Souza e a caracterização de Ana Méndez, a equipe apostou em uma identidade visual que refletisse os valores e a ancestralidade da narrativa. "A imagem comunica tanto quanto as palavras. Cada detalhe foi pensado para reforçar a mensagem do filme", explicou Laís, que utilizou até mesmo sua formação em biomedicina para influenciar as decisões artísticas da obra.
Um exemplo disso foi a escolha de retratar a causa da epidemia do filme como uma bactéria, e não um vírus. "Essa decisão mudou toda a lógica do longa e trouxe mais peso à narrativa", destacou Ana Méndez, que também trabalhou em texturas e efeitos para dar realismo ao projeto, mesmo com orçamentos limitados.
Impacto e emoção: a reação do público
A estreia de "Proteção" no Cine Odeon foi um marco. Com quase 600 pessoas presentes, a sala cheia se emocionou e aplaudiu de pé a obra, mostrando o apelo e o alcance de narrativas que colocam o racismo e a ancestralidade no centro da discussão. "Foi emocionante ver o quanto o público se conectou com a história", disse Marcos Moura.
Nas redes sociais, os elogios não pararam de chegar. Internautas enalteceram a coragem do filme em abordar temas tão sensíveis de maneira tão visceral. "É o tipo de narrativa que a gente precisa ver mais no cinema nacional", escreveu um internauta no Twitter. Outro comentou: "Proteção é um grito de resistência e humanidade. Um filme que te tira da zona de conforto."
O legado de Zózimo Bulbul: o palco perfeito
Não foi à toa que a estreia de "Proteção" aconteceu durante o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. A mostra, que já está em sua 18ª edição, é um dos principais espaços de promoção e valorização do cinema negro no Brasil. Para Alberto Sena, poder apresentar seu filme neste cenário foi um sonho realizado. "É uma honra e uma responsabilidade. Queremos que 'Proteção' inspire outros artistas a contar suas histórias", afirmou.
O que vem a seguir para "Proteção"?
Após a estreia arrebatadora, "Proteção" já começa sua trajetória em festivais e eventos culturais pelo Brasil. A expectativa é que o filme ganhe ainda mais visibilidade e abra portas para novos financiamentos e oportunidades para produções independentes, especialmente aquelas vindas da periferia.
Além disso, a equipe do filme reforça a importância de fomentar políticas públicas e parcerias que atendam à produção de cinema negro no Brasil. "Não podemos mais depender apenas de paixões e sacrifícios. Precisamos de estrutura e investimento", concluiu Luana Arah.
A Visão do Especialista
"Proteção" não é apenas um filme; é um marco. Ele simboliza o poder transformador do cinema enquanto ferramenta de resistência e reflexão. Ao abordar questões tão urgentes como racismo estrutural e ancestralidade, a obra se torna um espelho para a sociedade brasileira, convidando o público a encarar verdades muitas vezes ignoradas.
O fato de ser uma produção gonçalense, com profissionais majoritariamente negros e recursos limitados, reforça sua relevância no cenário cultural. É um lembrete de que a arte é, acima de tudo, um ato político. Se o futuro do cinema brasileiro está em narrativas como essa, estamos no caminho certo para uma indústria mais inclusiva e diversificada.
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