O aluguel de dois quartos por R$ 21 mil no Méier, bairro tradicional da Zona Norte do Rio de Janeiro, provocou debates acalorados sobre o impacto das plataformas de hospedagem por temporada no mercado imobiliário da cidade. A expansão dessas plataformas, como Airbnb e Booking.com, tem sido responsabilizada por especialistas e moradores pela alta expressiva nos preços dos aluguéis residenciais. Mas será que a situação é tão simples assim? Neste artigo, analisamos o cenário com base em dados econômicos, estudos recentes e opiniões de especialistas para entender como o fenômeno da "turistificação" está moldando o mercado.

O impacto das plataformas de aluguel por temporada no mercado imobiliário

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Nos últimos anos, o mercado de aluguel por temporada no Brasil experimentou um crescimento acelerado. Em 2025, apenas o Airbnb movimentou quase R$ 21 bilhões no estado do Rio de Janeiro, um aumento de 16% em comparação a 2024, segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Desse total, R$ 12 bilhões foram gerados apenas na capital fluminense, com destaque para bairros como Copacabana, Ipanema e Leblon.

Imagem de um cartaz de aluguel com preço de R$ 21 mil por dois quartos em uma região do Méier no Rio de Janeiro.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Especialistas apontam que o aumento da rentabilidade dos aluguéis de curta duração tem incentivado proprietários a migrarem suas unidades do mercado residencial tradicional para as plataformas de temporada. Essa redução na oferta de imóveis para aluguel de longo prazo resulta em um aumento dos preços, especialmente em áreas mais procuradas.

Gentrificação e desigualdade: um efeito colateral preocupante

A professora Geisa Bordenave, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que a "turistificação" das áreas urbanas não afeta apenas a oferta de imóveis residenciais, mas também contribui para a gentrificação. Moradores de renda média e baixa são forçados a se deslocar para regiões mais afastadas, enquanto os bairros centrais se tornam inacessíveis para a população local.

Esse processo, segundo a acadêmica, está se expandindo da Zona Sul para outras áreas, como o Centro do Rio, onde novos empreendimentos já estão sendo planejados com foco exclusivo no aluguel por temporada.

A alta dos aluguéis no Rio: fatores além do turismo

Embora o impacto das plataformas de curta temporada seja significativo, outros fatores também estão contribuindo para o aumento dos aluguéis. A taxa Selic elevada, atualmente em 14%, tem desestimulado a compra de imóveis, forçando mais famílias a optarem pelo aluguel. Além disso, mudanças demográficas e restrições ao crédito imobiliário também pressionam o mercado.

De acordo com o Secovi Rio, a falta de oferta está entre os principais motivos da alta nos preços. Dados do QuintoAndar revelam que o aluguel médio na cidade do Rio subiu 14,6% nos últimos 12 meses, com destaque para o Centro, que registrou valorização de 48,8% no período.

Comparativo do preço do metro quadrado no Rio de Janeiro

Bairro Valor do metro quadrado (R$)
Leblon 116,3
Ipanema 106,7
Jardim Oceânico 83,2
Méier 52,5

Propostas de regulamentação: uma solução viável?

Em resposta à pressão popular, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro está analisando projetos de lei que visam regulamentar a locação por temporada. Um dos projetos, o PL 2265/2026, propõe medidas como a criação de uma base de dados sobre a atividade, regras claras para condomínios e tributação específica para plataformas de aluguel de curta duração.

Já em âmbito nacional, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou recentemente que a liberação de locações desse tipo em condomínios deve ser aprovada por dois terços dos condôminos. A medida busca equilibrar os interesses dos moradores com os da indústria de turismo.

A pressão por igualdade tributária

Outro ponto de debate é a discrepância tributária entre plataformas de aluguel por temporada e hotéis. O presidente do HotéisRIO, Alfredo Lopes, defende que é necessário criar condições igualitárias para que ambos os setores possam competir de maneira justa. Essa desregulamentação, segundo ele, prejudica tanto o mercado imobiliário quanto a arrecadação pública.

A Visão do Especialista

O aumento expressivo dos aluguéis no Rio de Janeiro é resultado de uma combinação complexa de fatores, incluindo a "turistificação", a alta da Selic e a escassez de oferta no mercado de locação tradicional. As plataformas de aluguel por temporada, como o Airbnb, sem dúvida desempenham um papel importante nesse movimento, ao retirar imóveis do mercado residencial e redirecioná-los para o uso turístico.

Para o consumidor, o impacto é claro: os altos valores tornam cada vez mais difícil encontrar uma moradia acessível em regiões centrais, empurrando a população para localidades mais afastadas e menos assistidas por infraestrutura urbana de qualidade. No entanto, culpar exclusivamente as plataformas pode ser uma visão simplista. A ausência de regulação e a falta de políticas públicas robustas para equilibrar o mercado agravam o problema.

Enquanto o debate sobre a regulamentação das locações de curta temporada avança, é essencial que as autoridades considerem dados concretos e exemplos de boas práticas internacionais, como a aplicação de taxas para turistas e limites na conversão de imóveis residenciais em unidades de aluguel por temporada. Apenas assim será possível criar um mercado equilibrado, que atenda tanto às necessidades dos moradores quanto do turismo.

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