A renda do trabalho no Brasil voltou a crescer após o período mais crítico da pandemia, mas ainda está abaixo dos níveis pré-Covid-19, o que impacta diretamente o poder de compra dos trabalhadores. Embora o mercado de trabalho esteja aquecido e o desemprego em mínimas históricas, a geração de empregos de baixa remuneração e a desigualdade na distribuição de renda continuam sendo desafios significativos.

Contexto histórico: como chegamos aqui?

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Antes da pandemia, em dezembro de 2019, a massa de renda do trabalho representava 34,75% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo dados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE, esse percentual atingiu 34,48% em março de 2026, ainda abaixo do patamar pré-pandemia.

Apesar do crescimento de 8,6% no rendimento médio dos trabalhadores desde 2019, como apontado por estudos do FGV Ibre, essa alta se deve mais à mudança no perfil demográfico e profissional dos trabalhadores — mais escolarizados e experientes — do que a aumentos generalizados nos salários.

Gráfico mostrando crescimento da renda do trabalho, mas perda de poder de compra em comparação com o patamar pré-pandemia.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Entenda o impacto no mercado

O baixo desemprego é um dado positivo, mas não reflete a realidade financeira de muitos brasileiros. A criação de vagas de trabalho tem se concentrado em posições que pagam até 1,5 salário mínimo (cerca de R$ 2,4 mil). Em março de 2026, mais de 90% das 200 mil novas vagas geradas estavam nessa faixa salarial, segundo o Caged.

Além disso, uma parcela significativa da população encontra-se subutilizada, com 16,3 milhões de pessoas trabalhando menos horas do que gostariam ou desistindo de procurar emprego. Isso se soma aos 6,6 milhões de desempregados no país.

Gráfico mostrando crescimento da renda do trabalho, mas perda de poder de compra em comparação com o patamar pré-pandemia.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

A renda total das famílias e as transferências governamentais

Embora a renda total das famílias, que inclui salários, aposentadorias e benefícios, tenha superado os níveis pré-pandemia, atingindo 55,84% do PIB em 2026, boa parte desse crescimento é atribuída ao aumento das transferências governamentais, como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Essas transferências, que representavam 19% do PIB em 2019, agora correspondem a 21,36%. Essa expansão também facilita o acesso ao crédito bancário, mas contribui para o aumento do endividamento das famílias.

O desafio do poder de compra

Apesar do aumento nominal dos rendimentos, muitos trabalhadores relatam que o dinheiro não é suficiente para cobrir os custos básicos, devido ao aumento dos preços e ao impacto da inflação. Em alguns casos, o padrão de vida piorou, mesmo com um salário maior.

Por exemplo, o pagamento de dívidas já consome, em média, 30% do orçamento doméstico, o maior índice das últimas décadas. Com uma dívida pública próxima de 80% do PIB, o cenário econômico para os próximos anos traz preocupações.

Impactos no dia a dia: relatos dos trabalhadores

João, assistente técnico e motorista de aplicativo, relata que, apesar de trabalhar em dois empregos, ainda precisa recorrer a empréstimos para cobrir os custos da família. "Mesmo trabalhando muito, o dinheiro não é suficiente para viver com tranquilidade", afirma.

Já Maria, vendedora de planos de TV e celular, destaca que, mesmo ganhando mais hoje do que antes da pandemia, o aumento nos preços diminuiu seu poder de compra. "Meu maior gasto é com alimentação, e já precisei usar o cartão de crédito emprestado para pagar contas", relata.

Desigualdade e endividamento no Brasil

O economista João Saboia, da UFRJ, destaca que, apesar da melhora no mercado de trabalho, há um contingente de trabalhadores subutilizados e em condições desfavoráveis. Segundo ele, a alta no endividamento das famílias reflete a dificuldade de sustentar o padrão de vida.

Estudos indicam que, desde 2020, foram criadas 21,6 milhões de novas rendas no país, mas apenas 41% delas são provenientes de ocupações formais. A combinação de empregos de baixa remuneração com acesso ao crédito contribui para o aumento dos problemas financeiros.

O que esperar para os próximos anos?

A professora Cecília Machado, da PUC, alerta que o ritmo mais lento de crescimento do PIB nos próximos anos pode impactar negativamente o mercado de trabalho. "Espera-se, até mesmo, necessidade de algum tipo de ajuste num mercado de trabalho que responde com defasagem à desaceleração da economia", afirma.

Com a estimativa de alta de 1,85% do PIB em 2026, contra 2,3% em 2025, o desafio será manter a expansão das transferências governamentais e garantir a sustentabilidade das finanças públicas.

A Visão do Especialista

Embora o mercado de trabalho brasileiro tenha demonstrado resiliência e recuperação após a pandemia, a qualidade das ocupações geradas e o aumento do endividamento das famílias são fatores que limitam o impacto positivo da queda no desemprego.

Para o leitor, o desafio é buscar alternativas para aumentar a renda, como trabalhos extras ou reorganização financeira, enquanto acompanha de perto as políticas públicas que podem influenciar o bolso. A recuperação econômica será mais eficaz se vier acompanhada de medidas que promovam salários mais altos e maior poder de compra.

Gráfico mostrando crescimento da renda do trabalho, mas perda de poder de compra em comparação com o patamar pré-pandemia.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

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