O resultado do segundo turno da eleição presidencial no Peru segue incerto após a apuração de 80% das urnas. A disputa está acirrada entre Keiko Fujimori, candidata de direita, e Roberto Sánchez, representante da esquerda, com ambos os lados admitindo um empate técnico. A incerteza aumenta as tensões em um país que já enfrentou uma década marcada por instabilidade política e sucessivas mudanças na presidência.

O cenário atual: empate técnico e polarização

Com 82% das urnas apuradas, Keiko Fujimori lidera com uma margem estreita de apenas três pontos percentuais sobre Roberto Sánchez. Contudo, dois institutos de pesquisa indicam que Sánchez lidera por um ponto percentual em levantamentos rápidos de apuração paralela, ampliando as incertezas sobre o desfecho eleitoral. Ambos os candidatos pedem paciência e destacam a legitimidade do processo eleitoral, enquanto seus apoiadores já ocupam as ruas.

A votação do segundo turno ocorreu sem maiores incidentes e contou com a participação de aproximadamente 27 milhões de eleitores. A polarização é evidente: de um lado, a promessa de "ordem" e continuidade econômica de Fujimori; de outro, o discurso de "mudança" e combate à corrupção de Sánchez.

Contexto histórico: uma década de instabilidade

O Peru enfrentou uma crise política sem precedentes nos últimos 10 anos, com a posse de oito presidentes desde 2016. Entre eles, Pedro Castillo, que governou entre 2021 e 2022, foi destituído do cargo após a tentativa fracassada de um autogolpe de Estado. Essa sucessão de crises governamentais criou um clima de desconfiança generalizada na classe política e aumentou os desafios para o próximo presidente.

Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, já disputou a presidência em três ocasiões anteriores, sem sucesso. A candidatura de Sánchez, por outro lado, está profundamente ligada ao legado de Castillo, com quem mantém estreita relação, demonstrada por visitas à prisão e promessas de indulto.

As propostas dos candidatos

Keiko Fujimori

Aos 51 anos, Keiko Fujimori aposta em uma plataforma baseada em políticas neoliberais, defesa da propriedade privada e atração de investimentos estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos. Ela também propôs medidas de linha-dura para combater a criminalidade, como militarizar prisões e áreas de alta violência, além de endurecer as regras de imigração.

Roberto Sánchez

Roberto Sánchez, ex-ministro e congressista de 57 anos, busca apoio nas zonas rurais empobrecidas do Peru. Ele defende o aumento de salários e o combate à corrupção, especialmente nas forças policiais e no sistema judiciário. Embora tenha moderado seu discurso em relação ao primeiro turno, Sánchez ainda propõe mudanças significativas na estrutura política e social, buscando uma relação equilibrada entre reformas e estabilidade econômica.

Impacto no mercado e na economia

O Peru permanece como uma das economias mais estáveis da América Latina, com um crescimento do PIB estimado em 3,4% em 2026. No entanto, a informalidade no mercado de trabalho atinge cerca de 70% da população, um dos maiores desafios para o próximo governo.

Keiko Fujimori compromete-se a manter um modelo econômico liberal, priorizando o fortalecimento da confiança dos investidores. Já Sánchez, embora tenha prometido manter a independência do Banco Central e a abertura econômica, preocupa setores empresariais com sua intenção de aumentar os gastos públicos e implementar políticas redistributivas.

Repercussão internacional

As eleições no Peru atraíram a atenção da comunidade internacional, especialmente devido à polarização ideológica entre os candidatos. Observadores internacionais destacaram a tranquilidade do processo eleitoral até o momento, mas alertaram para a necessidade de transparência na contagem dos votos para evitar uma crise de legitimidade.

Os Estados Unidos, principal parceiro comercial do Peru, têm interesse direto na estabilidade do país. Washington monitora de perto o resultado, especialmente devido às declarações de Sánchez sobre uma relação "respeitosa", mas potencialmente menos alinhada com os interesses americanos.

Desafios do próximo governo

Independentemente de quem vencer, o próximo presidente enfrentará desafios consideráveis. A fragmentação política no Congresso peruano exigirá a formação de coalizões para governar de maneira eficaz. Além disso, a crescente criminalidade, que resultou em um aumento significativo na taxa de homicídios em Lima, será um dos principais pontos de pressão para o novo governo.

Em um país profundamente dividido, o mandatário eleito enfrentará um panorama de instabilidade política e social, além de um eleitorado descrente na classe política. A necessidade de reformas estruturais será confrontada com a urgência de medidas imediatas para combater a criminalidade e a corrupção.

A Visão do Especialista

A disputa eleitoral no Peru reflete não apenas a polarização política, mas também os anseios de um povo que busca estabilidade após uma década conturbada. Para analistas como Paulo Vilca, cientista político, "o eleito terá metade do país contra si e uma legitimidade frágil, razão pela qual, sem maioria legislativa, deverá construir uma coalizão para governar".

O próximo presidente será empossado em 28 de julho de 2026, substituindo o interino José María Balcázar. Até lá, a expectativa é de que o processo de apuração seja concluído de forma transparente e pacífica. O desafio será não apenas cumprir promessas eleitorais, mas também restaurar a confiança nas instituições em um país marcado por divisões profundas.

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