A aquisição de terras da Radar pela SLC Agrícola (SLCE3) se apresenta como uma das mais estratégicas transações do agronegócio brasileiro em 2026. Em um momento de juros elevados e custos de capital desafiadores, a estratégia descrita por Aurélio Pavinato, CEO da SLC, foca em um conceito claro: comprar ativos de alta qualidade por preços abaixo do mercado e permitir que a própria geração de caixa financie o investimento ao longo do tempo. A operação reflete não apenas uma decisão tática, mas também uma visão de longo prazo sobre o potencial da agricultura no Brasil.

O Contexto da Aquisição

O negócio envolveu a compra de terras da Radar, empresa controlada pela Cosan, por um valor aproximado de R$ 669 milhões. O pagamento foi estruturado em duas parcelas: 40% à vista e os 60% restantes a serem liquidados até outubro de 2026. A área adquirida, inicialmente calculada em 41,2 mil hectares, inclui terras agricultáveis e reservas legais. No entanto, a área efetivamente agricultável soma cerca de 28 mil hectares, dos quais a SLC manteve 11,5 mil hectares após negociações com outros operadores.

Os Detalhes das Negociações

A Radar, enfrentando pressões financeiras, precisou alienar os ativos, criando uma oportunidade para a SLC adquirir terras a preços abaixo do mercado. Conforme Pavinato, a intenção inicial da empresa era adquirir apenas as áreas que já cultivava, mas o modelo de operação apresentado pela Radar exigiu uma negociação mais ampla, envolvendo outros operadores, como a Bom Futuro e Alexandre Bottan.

Para evitar conflitos judiciais, as empresas chegaram a um acordo no qual os ativos foram repartidos de forma estratégica. A SLC preservou as terras mais produtivas que já cultivava, enquanto outras áreas foram transferidas para os demais operadores. Este movimento garantiu que a SLC mantivesse sua estratégia de alocação de capital sem comprometer severamente seu fluxo de caixa.

Impacto na Estrutura Operacional

Apesar da aquisição, o modelo de negócios da SLC permanece praticamente inalterado. Antes da transação, cerca de 35% das terras utilizadas pela empresa eram de propriedade própria, enquanto 65% eram arrendadas. Após a incorporação das novas terras, a participação de áreas próprias subiu para 36,6%, demonstrando que a empresa continua apostando em um equilíbrio entre terras próprias e arrendadas.

Oportunidade em Meio a Desafios Econômicos

O momento da aquisição levanta questões sobre a estratégia da SLC, especialmente em um cenário de juros elevados e aumento dos custos de capital. No entanto, Pavinato enfatiza que o aumento temporário da alavancagem da empresa — que subirá de 0,8x Ebitda para 3,4x, segundo o Bradesco BBI — deve ser analisado sob a ótica de longo prazo. "Daqui a dez, doze anos, vamos ter aproximadamente 9 mil hectares próprios quitados, pagos pela geração de caixa da própria fazenda", afirmou o executivo.

A Estratégia de Alocação de Capital

A aquisição reflete uma mudança pontual na estratégia da SLC. Embora a empresa tradicionalmente prefira o arrendamento de terras, a oportunidade oferecida pela Radar foi considerada "oportunística" e altamente vantajosa. O preço competitivo das áreas, combinado com sua alta qualidade produtiva, tornou o negócio atrativo, mesmo em um contexto econômico desafiador.

Mercado de Terras Agrícolas no Brasil

A transação também ilumina uma questão mais ampla: o mercado de terras agrícolas no Brasil. Com a crescente demanda global por alimentos e a projeção de aumento na exportação de commodities, a aquisição de terras férteis em regiões estratégicas, como o Mato Grosso, se mostra como um investimento de alta rentabilidade. Segundo especialistas, a valorização das terras agrícolas no Brasil tem sido constante nos últimos anos, o que reforça a lógica por trás da decisão da SLC.

Repercussão no Mercado Financeiro

No mercado de capitais, as ações da SLC Agrícola (SLCE3) refletem a confiança dos investidores na estratégia da empresa. Apesar das dúvidas iniciais sobre o impacto da aquisição na alavancagem da companhia, a clareza com que o CEO comunicou os detalhes da operação ajudou a mitigar as incertezas. Analistas apontam que, a longo prazo, a maior participação em terras próprias pode trazer mais previsibilidade e segurança aos resultados financeiros da companhia.

Os Principais Números da Transação

Item Detalhes
Valor Total R$ 669 milhões
Pagamento à vista 40%
Pagamento a prazo 60% até outubro de 2026
Área total (incluindo reservas) 41,2 mil hectares
Área agricultável 28 mil hectares
Área final da SLC 11,5 mil hectares (até 2030)

A Visão do Especialista

A aquisição da Radar pela SLC Agrícola é um exemplo de como empresas do setor do agronegócio podem alinhar decisões táticas e estratégicas para capturar oportunidades de mercado, mesmo em cenários econômicos adversos. A capacidade de negociar condições favoráveis e de projetar retornos de longo prazo reflete a maturidade da SLC como um dos principais players do setor no Brasil.

Contudo, o aumento da alavancagem e o desafio de integrar essas novas áreas à operação existente serão pontos críticos a serem monitorados. Se bem-sucedida, a transação pode servir como um modelo para outras empresas do setor, especialmente em um momento em que a busca por eficiência operacional e sustentabilidade financeira é fundamental.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos para que eles também entendam os bastidores e as implicações dessa importante transação no mercado brasileiro de terras agrícolas.