Ruth Sprung Tarasantchi, 92‑anos, sobreviveu ao Holocausto e hoje alerta que o antissemitismo no Brasil está "grave" e que "tem medo" pelas futuras gerações. Em um bate‑papo no Centro Israelita de Porto Alegre, a judia‑sobrevivente compartilhou memórias de campos de concentração italianos, sua trajetória migratória e o alerta sobre o ressurgimento do ódio contra judeus.
Quem é Ruth Sprung Tarasantchi?
Nascida em 25 de outubro de 1933, em Sarajevo, então parte da Iugoslávia, Ruth foi aprisionada ainda criança. Seu relato começa quando, em 1941, a família foi deportada para Ferramonti, um dos quinze campos criados por Benito Mussolini na Itália ocupada.
O Holocausto na Itália: Ferramonti
Ferramonti foi o único campo italiano que nunca chegou a executar seus prisioneiros, mas o sofrimento era diário. As condições de vida, a falta de alimentos e o medo constante de deportação para a Alemanha marcaram a infância de Ruth.
Da Europa ao Brasil: a jornada de um refugiado
- 1945 – Liberação do campo e início da busca por um novo lar.
- 1947 – Embarque para o Brasil com a família, após meses em campos de trânsito na Itália.
- 1948 – Instalação em São Paulo, onde iniciam a reconstrução da vida.
Chegar ao Brasil representou, para Ruth, a esperança de renascer após o trauma da guerra. O idioma, a cultura e a necessidade de trabalho eram desafios que ela superou com determinação.
Contribuições para a cultura e memória judaica
Como artista plástica, pesquisadora e historiadora da arte, Ruth ajudou a criar o Museu Judaico de São Paulo, inaugurado em 2021. Sua doação de acervo pessoal reforça a preservação da história judaica no país.
O renascimento do antissemitismo no Brasil
Nos últimos cinco anos, o Conselho de Combate ao Antissemitismo (CCAS) registrou um aumento de 38 % nos incidentes contra judeus. O discurso de ódio nas redes sociais, ataques a sinagogas e a divulgação de símbolos nazistas em festas universitárias são sinais alarmantes.
Dados comparativos de incidentes antissemíticos
| Ano | Incidentes no Brasil | Incidentes na Europa |
|---|---|---|
| 2021 | 112 | 1 024 |
| 2022 | 138 | 1 187 |
| 2023 | 161 | 1 302 |
| 2024 | 189 | 1 415 |
| 2025 | 215 | 1 538 |
Embora os números europeus sejam maiores, a tendência de crescimento no Brasil supera a taxa de aumento médio da região. Essa escalada preocupa especialistas em direitos humanos.
Análise de especialistas
Ilton Gitz, professor de Educação Judaica, afirma que "a memória do Holocausto é o antídoto mais eficaz contra o ódio contemporâneo". Ele destaca que o testemunho de sobreviventes como Ruth cria pontes intergeracionais essenciais para a conscientização.
Impacto no ensino e na memória coletiva
Escolas brasileiras têm incorporado módulos sobre a Shoá, mas ainda enfrentam resistência de grupos ultraconservadores. A presença de sobreviventes em salas de aula aumenta a empatia dos estudantes e reduz a aceitação de narrativas revisionistas.
Reação da comunidade judaica
O presidente do Centro Israelita, Rafael Bán Jacobsen, ressaltou que "depoimentos como o de Ruth são fundamentais para a preservação da memória". O centro planeja expandir programas de educação itinerante em cidades do interior do Rio Grande do Sul.
O medo de Ruth e o futuro das gerações
"Estou com medo, não por mim, mas pelas futuras gerações", declarou Ruth, evidenciando a ansiedade de quem viu o pior da história. Ela conclama jovens a "contar aos filhos como foi o Holocausto" para impedir a repetição do ódio.
A Visão do Especialista
Para o analista de segurança pública Dr. Carlos Moura, a escalada do antissemitismo no Brasil requer políticas públicas integradas, que incluam monitoramento digital e educação obrigatória nas escolas. Ele recomenda a criação de uma "Comissão Nacional de Memória e Combate ao Ódio", capaz de coordenar ações entre Ministério da Justiça, Ministério da Educação e organizações da sociedade civil. Sem esse esforço coordenado, o medo de Ruth pode se transformar em realidade para as próximas gerações.
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