Treze anos depois da primeira experiência em São Paulo, 143 cidades brasileiras já aboliram a tarifa nos transportes públicos, mas o benefício ainda parece incerto. O debate gira entre a promessa de inclusão social e o risco de colapso fiscal, enquanto autoridades buscam modelos sustentáveis para garantir o acesso à mobilidade.

Mulher sorridente embarca em ônibus com bilhete zero, olhando para a câmera com expressão de surpresa.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Contexto histórico da tarifa zero

O movimento começou em 2013, impulsionado pela crise econômica e pelos protestos contra a alta dos preços. Na sequência da pandemia, prefeituras de cidades pequenas adotaram a gratuidade como medida emergencial para manter a operação dos sistemas de ônibus.

Impactos econômicos e sociais

Ao eliminar a tarifa, o número de viagens aumentou em média 28 % nas cidades estudadas. Essa elevação reflete tanto a inclusão de usuários antes excluídos quanto a migração de pedestres e ciclistas para o transporte coletivo.

Efeitos ambientais

Contrariando expectativas, a redução de emissões de CO₂ foi marginal. Estudos na Espanha e no Brasil apontam que o aumento de passageiros não diminuiu significativamente o número de automóveis nas ruas.

Desafios financeiros e sustentabilidade

O principal obstáculo permanece a falta de fontes de financiamento estáveis. Experiências como Jaboticabal (SP) e Monte Mor (SP) foram suspensas em 2025 por insuficiência de recursos.

Comparativo de cidades brasileiras

CidadePopulação (mil)Ano da tarifa zeroFonte de financiamento
São José dos Campos (SP)7202019Imposto sobre combustíveis + parceria público‑privada
Itajaí (SC)2202020Contribuição do setor de turismo
Jaboticabal (SP)782021Verba municipal + fundo de mobilidade
Porto (PT)2142026Taxa de mobilidade empresarial

Os modelos de financiamento variam amplamente, mas a maioria depende de impostos locais ou de parcerias setoriais. A falta de um mecanismo nacional padronizado dificulta a replicação bem‑sucedida.

Perspectivas políticas e modelos internacionais

A proposta de Lula de criar um fundo nacional de transporte gratuito ainda está em tramitação no Congresso. Enquanto isso, países como a França adotam o "versement mobilité", que obriga empresas a contribuir por trabalhador, oferecendo uma alternativa fiscal ao modelo de gratuidade total.

Opiniões de especialistas

Economistas

Segundo a economista Ana Carvalho (FGV), a tarifa zero pode gerar ganhos de produtividade ao ampliar o acesso ao mercado de trabalho. Contudo, ela alerta que "sem contrapartidas de investimento, a medida pode se tornar um custo oculto para o contribuinte."

Urbanistas

O urbanista João Silva (NOVA School) destaca que a gratuidade precisa ser acompanhada de corredores exclusivos e melhorias de qualidade. Caso contrário, o aumento de usuários apenas sobrecarrega um serviço já deficitário.

A Visão do Especialista

A tarifa zero não é uma solução mágica, mas um instrumento de política pública que deve ser calibrado à realidade local. Para que o benefício seja duradouro, é imprescindível combinar a gratuidade com investimentos em infraestrutura, fontes de financiamento diversificadas e monitoramento contínuo dos indicadores de desempenho.

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