Com mais de 30 anos de trajetória marcando a cena cultural brasileira, o Teatro Negro e Atitude volta aos palcos com uma nova montagem do espetáculo "Àbíkú". A peça, que estreou originalmente em 2011, será apresentada gratuitamente no Teatro Espanca!, em Belo Horizonte, nesta sexta-feira (17/4), às 20h. Inspirada no mito iorubá do Àbíkú e em canções da MPB, a obra aborda, de forma visceral, a violência contra jovens negros no Brasil.

Teatro Negro e Atitude apresenta
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

O que é o mito do Àbíkú?

O termo Àbíkú vem da tradição iorubá e significa "criança que nasceu para morrer". Segundo o mito, essas crianças espirituais nascem com a predestinação de falecerem ainda jovens, retornando ao mesmo ventre materno repetidas vezes. Esse ciclo de morte e renascimento, que ocorre em períodos de 1, 3, 7, 13, 21 e 33 anos, é interpretado como um símbolo de transformação.

No espetáculo, esse conceito é transposto para a realidade brasileira, sendo utilizado como uma metáfora para o genocídio da juventude negra. A peça questiona: os jovens negros que perdem suas vidas precocemente em comunidades periféricas são vítimas de um destino inevitável ou de um sistema social e político que perpetua o racismo estrutural?

Uma tragédia real como ponto de partida

A narrativa de "Àbíkú" foi construída a partir de um fato verídico: o assassinato de André, primo de um dos integrantes do grupo, morto pela polícia no bairro Minascaixa, em Belo Horizonte. Segundo o diretor e dramaturgo Evandro Nunes, o caso de André ilustra a brutalidade de um "tribunal" informal em que jovens negros são condenados à morte sem julgamento.

"Se o André tivesse outras possibilidades, outra cor de pele, ele teria sido morto tão jovem?", questiona Nunes. O espetáculo dá vida a André como um menino sonhador, que busca conquistar o mundo, mas é sistematicamente impedido por uma sociedade racista e desigual.

As influências musicais de Aldir Blanc e Chico Buarque

As canções "Gênesis" e "Tiro de misericórdia" (Aldir Blanc e João Bosco) e "Meu guri" (Chico Buarque) serviram como ponto de partida na construção da dramaturgia da peça. Embora as músicas não sejam representadas diretamente no palco, suas narrativas fornecem um pano de fundo emocional e reflexivo para o enredo.

Por exemplo, em "Tiro de misericórdia", a figura de um jovem que cresce em meio à violência urbana é evocada para reforçar o impacto do mito do Àbíkú. No entanto, em sua nova montagem, o espetáculo abandona a dúvida sobre o envolvimento do protagonista com o crime, enfatizando que ele é uma vítima de uma sociedade estruturalmente desigual.

A evolução do Teatro Negro no Brasil

Fundado em 1994, o Teatro Negro e Atitude é o terceiro grupo de teatro negro mais antigo em atividade no Brasil. Durante os anos 1990, o grupo enfrentou desafios significativos, incluindo a falta de representatividade e apoio institucional. "Éramos o único grupo de teatro negro em Belo Horizonte e trabalhávamos isoladamente", relembra Nunes.

Nas últimas três décadas, o cenário mudou significativamente. Hoje, há uma maior presença de atores, diretores e produções lideradas por artistas negros, bem como discussões mais amplas sobre a arte negra em espaços culturais. O Teatro Negro e Atitude tem desempenhado um papel fundamental nesse progresso, participando de conferências de cultura e movimentos sociais para fortalecer a representatividade negra nas artes.

O impacto social de "Àbíkú"

Ao abordar a violência contra jovens negros, "Àbíkú" se conecta diretamente com o noticiário cotidiano das periferias brasileiras. Dados do Atlas da Violência 2023 apontam que, em 2022, 77% das vítimas de homicídios no Brasil eram pessoas negras. Esse índice reflete a urgência de iniciativas culturais que tragam visibilidade e reflexão sobre o racismo estrutural e seus impactos.

O espetáculo também se destaca por utilizar a arte como forma de resistência. Através de uma narrativa sensível, a peça convida o público a questionar o papel do Estado, das instituições e da sociedade no ciclo de exclusão e violência que define a vida de milhares de jovens negros no país.

Uma nova perspectiva na montagem de 2023

A nova versão de "Àbíkú" introduz mudanças importantes em relação à montagem original. Enquanto a primeira encenação se baseava fortemente na canção "Meu guri" e deixava em aberto a relação do protagonista com o crime, a atual abordagem apresenta um jovem com sonhos e aspirações, sem conexão com a criminalidade.

Essa escolha, segundo Nunes, traz uma camada adicional de denúncia. "Queremos mostrar que a juventude negra é sistematicamente interrompida por uma sociedade que não oferece oportunidades iguais. Esse menino não é um criminoso, mas um sonhador que tem seu futuro roubado", afirma o diretor.

O legado do Teatro Negro e Atitude

Com mais de três décadas de história, o Teatro Negro e Atitude tem sido um pilar na luta por representatividade e equidade nas artes cênicas. Além de suas produções teatrais, o grupo promove discussões fundamentais sobre raça, cultura e exclusão social, ampliando o alcance de sua mensagem tanto no palco quanto fora dele.

"Hoje, vemos mais atores negros, mais produções negras e um desejo coletivo de discutir a arte negra", destaca Nunes. Essa transformação, impulsionada por grupos como o Teatro Negro e Atitude, é um reflexo da força e resiliência da comunidade artística negra no Brasil.

A Visão do Especialista

"Àbíkú" não é apenas um espetáculo teatral; é uma obra que carrega um chamado urgente por justiça social. Ao explorar a interseção entre mito e realidade, o Teatro Negro e Atitude oferece uma poderosa reflexão sobre a violência sistêmica que afeta a juventude negra no Brasil.

Especialistas em sociologia e artes cênicas aplaudem a peça por sua capacidade de traduzir questões complexas em uma linguagem acessível e comovente. A nova montagem de 2023, ao enfatizar o protagonismo de um jovem negro sonhador, reforça a importância de humanizar as histórias frequentemente desumanizadas pela mídia e pelas estatísticas.

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