Com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, a ser sediada nos Estados Unidos, o governo de Donald Trump tem endurecido as políticas de entrada no país, suscitando um debate global sobre o impacto dessas ações no esporte e na política. Segundo o cientista político americano Jules Boykoff, que também é ex-jogador de seleções de base dos EUA, tais medidas estão estrategicamente alinhadas com as eleições de meio de mandato, marcadas para novembro.

Contexto: Esporte e Política nos EUA

A Copa do Mundo de 2026 será realizada pela primeira vez em três países — Estados Unidos, Canadá e México — e marcará a expansão do torneio para 48 seleções. No entanto, o evento esportivo está sendo envolvido em controvérsias devido às políticas de imigração rigorosas implementadas pelo governo Trump.

Desde que assumiu a presidência, Trump promoveu uma agenda focada em segurança nacional e restrições migratórias, incluindo a proibição de entrada a cidadãos de diversos países predominantemente muçulmanos. Essas políticas têm gerado preocupações sobre o impacto no espírito inclusivo do evento esportivo mais popular do planeta.

Sportswashing e Soft Power: Estratégias Políticas

Para Jules Boykoff, o governo Trump utiliza o esporte como ferramenta de sportswashing, uma prática que busca desviar a atenção de questões políticas e sociais internas. Em sua recente obra, "Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine", Boykoff argumenta que esta estratégia não é inédita, mas está sendo amplificada no contexto atual.

O conceito de sportswashing foi amplamente discutido em eventos como a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e em 2022, no Catar. Contudo, Boykoff ressalta que é menos comum associar essa prática a democracias ocidentais, o que, segundo ele, reflete uma tendência etnocêntrica em análises globais.

As Políticas de Trump e o Impacto na Copa

As recentes medidas do governo Trump incluem restrições à entrada de cidadãos de países como Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim — localidades com seleções classificadas ou participações históricas em Copas do Mundo. Essas políticas têm gerado dificuldades para atletas, delegações e torcedores, prejudicando a essência inclusiva do evento.

Além disso, medidas de segurança rigorosas, como revistas detalhadas e prolongadas, têm sido criticadas por especialistas e organizações internacionais, que as consideram desproporcionais e discriminatórias. Segundo Boykoff, essa "cultura de segurança performática" é direcionada principalmente ao público interno, como uma forma de reforçar a imagem de um governo preocupado com a segurança nacional.

A Relação entre FIFA e Donald Trump

O relacionamento entre a FIFA e Trump também tem sido alvo de críticas. Em dezembro de 2025, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, concedeu a Trump o Prêmio da Paz da entidade, um gesto que, para muitos críticos, enfraqueceu a posição da organização em relação às políticas controversas dos Estados Unidos.

Boykoff argumenta que a FIFA, que já foi considerada um ator global influente, tem perdido sua força em lidar com governos nacionais. Ele cita o exemplo da Copa do Mundo de 2022 no Catar, quando a organização não conseguiu intervir em decisões polêmicas, como a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios poucos dias antes do torneio.

Impacto Econômico e Exclusão Social

Outro ponto de crítica em relação à Copa de 2026 é o aumento nos preços dos ingressos devido à implementação de um sistema de preços dinâmicos. Segundo Boykoff, essa prática, que reflete o "hipercapitalismo" dos EUA, cria um ambiente de exclusão, limitando o acesso de fãs comuns ao evento.

Embora a ampliação do número de seleções participantes possa parecer um avanço em termos de inclusão, os altos custos logísticos e a política de imigração restritiva criam barreiras significativas, especialmente para delegações e torcedores de países em desenvolvimento.

Repercussões Internacionais

As medidas adotadas pelo governo Trump têm gerado reações em diversos países, especialmente entre os diretamente afetados pelas restrições de entrada. Organizações de direitos humanos e federações esportivas têm manifestado preocupação com o impacto das políticas nos valores de inclusão e diversidade promovidos pela FIFA.

Além disso, a combinação de políticas migratórias restritivas e preços elevados para os ingressos pode comprometer a imagem global dos Estados Unidos, que historicamente têm utilizado o esporte como uma forma de soft power para reforçar sua influência internacional.

Precedentes Históricos: O Uso Político do Esporte

A utilização do esporte como ferramenta política não é novidade. Grandes eventos esportivos frequentemente servem como plataforma para governos promoverem sua imagem no cenário global. Exemplos incluem as Olimpíadas de 1936 na Alemanha nazista e a Copa do Mundo de 1978 na Argentina durante a ditadura militar.

No entanto, o caso dos EUA em 2026 se destaca por ocorrer em uma democracia consolidada, o que, segundo Boykoff, desafia a narrativa tradicional de que práticas como sportswashing são exclusivas de regimes autoritários.

A Visão do Especialista

Para Jules Boykoff, as ações do governo Trump em relação à Copa do Mundo de 2026 refletem uma estratégia deliberada de fortalecer sua base eleitoral, desviando o foco de problemas internos. O cientista político ressalta que, embora o esporte deva unir nações, ele está sendo usado como ferramenta para dividir sociedades.

O futuro da Copa de 2026 permanece incerto, especialmente diante das críticas internacionais e do descontentamento de torcedores e participantes. Ainda assim, Boykoff acredita que o evento oferecerá uma plataforma para protestos e debates importantes sobre o papel do esporte na política global.

Com as eleições de meio de mandato se aproximando, o impacto das medidas de Trump no contexto político e esportivo continuará a ser monitorado. A questão que persiste é: até que ponto o esporte pode resistir à instrumentalização política e preservar seus valores fundamentais?

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