O Ministério da Saúde suspendeu a vacinação contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, e o infectologista Carlos Starling responde às nove dúvidas mais urgentes da população.

Um médico examina um paciente enquanto explica sobre a vacina contra a dengue.
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

Contexto histórico da dengue no Brasil

A dengue vem causando epidemias cíclicas no país desde a década de 1980, com mais de 2 milhões de casos registrados entre 2019 e 2022. O aumento da urbanização e a adaptação do Aedes aegypti favorecem a transmissão, tornando a vacinação um objetivo de saúde pública há duas décadas.

Desenvolvimento e aprovação da vacina Qdenga

Um médico examina um paciente enquanto explica sobre a vacina contra a dengue.
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

Qdenga, a vacina tetravalente do Butantan, foi aprovada em 2023 após ensaios clínicos com cerca de 11 mil participantes. Estudos mostraram eficácia de 85 % contra formas graves da doença, atendendo aos critérios da OMS para licenciamento.

Pergunta 1 – Por que a vacina foi suspensa?

A suspensão decorre da detecção de 42 eventos adversos graves, incluindo duas mortes suspeitas, em um programa de vacinação de 500 mil pessoas. Não há comprovação de causalidade; a medida visa garantir a segurança antes da retomada.

Pergunta 2 – Qual a probabilidade real de efeitos adversos graves?

Os eventos reportados correspondem a 0,008 % dos vacinados, ou seja, 8 casos por 100 mil. Essa taxa está dentro da margem esperada para reações raras que só se revelam em grande escala.

Pergunta 3 – A vacina realmente protege contra a dengue?

Em ensaios, Qdenga reduziu em 85 % a incidência de dengue grave e em 70 % a hospitalização. Esses números são comparáveis a outras vacinas tetravalentes disponíveis internacionalmente.

Pergunta 4 – Como funciona a vigilância pós‑vacinal no Brasil?

O Sistema de Farmacovigilância (SIVIGILA) monitora todos os eventos adversos em tempo real, cruzando dados de hospitais, clínicas e laboratórios. Quando um sinal de risco aparece, o comitê de especialistas aciona a Anvisa para avaliação emergencial.

Pergunta 5 – O risco da vacina é maior que o da dengue natural?

EventoIncidência
Efeito adverso grave (vacina)0,008 % (8/100 000)
Dengue grave (não vacinada)0,1 % (100/100 000)
Mortalidade por dengue0,1 % (1/1 000)

Portanto, o risco de desenvolver dengue grave ou fatal é cerca de 12 vezes maior que o risco de um evento adverso grave associado à vacina.

Pergunta 6 – O que se sabe sobre as duas mortes suspeitas?

As autópsias ainda estão em andamento, e as investigações preliminares não estabeleceram vínculo causal com a vacina. A coincidência temporal exige cautela, mas não implica automaticamente responsabilidade da imunização.

Pergunta 7 – Há precedentes de suspensões de vacinas?

Sim. Em 1999, a vacina RotaShield contra rotavírus foi retirada dos EUA após 15 casos de intussuscepção. O episódio impulsionou a criação de vacinas de segunda geração, hoje consideradas seguras.

Pergunta 8 – Qual o impacto econômico da pausa?

O mercado de vacinas no Brasil movimenta cerca de R$ 2,5 bilhões anuais; a suspensão temporária gera perda de receita, mas protege o investimento a longo prazo ao evitar crises de confiança. Empresas farmacêuticas têm reforçado protocolos de segurança para manter a credibilidade.

Pergunta 9 – O futuro da vacinação contra dengue no Brasil?

Starling acredita que, após a conclusão das investigações, a vacinação será retomada com critérios de triagem mais rigorosos. A integração de marcadores de risco genético pode otimizar a aplicação e reduzir eventos raros.

A Visão do Especialista

Carlos Starling enfatiza que a pausa é um sinal de que o sistema de saúde está funcionando, não de falha. Ele recomenda que a população vacinada continue atenta a sintomas graves, mas não ceda ao pânico, pois os benefícios da imunização superam, em muito, os riscos potenciais. A transparência dos dados será decisiva para restaurar a confiança e avançar rumo a uma estratégia de controle da dengue baseada em ciência robusta.

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