Em 2025, pelo menos 900 mulheres foram atendidas diariamente em unidades de saúde brasileiras por consequência de violência, totalizando 330 mil registros no ano. Os dados provêm do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e foram confirmados pela Folha em parceria com o Ministério da Saúde.
Violência contra a mulher como problema de saúde pública
Há 25 anos, o Ministério da Saúde reconhece a violência como questão de saúde pública. Essa definição ampliou a responsabilidade das unidades de saúde, que passam a registrar e monitorar casos além de tratar lesões físicas.
Os números do SINAN em 2025
Os 330 mil registros correspondem a uma média diária de 900 atendimentos femininos por violência. Mulheres representam 71% das notificações de violência interpessoal entre 2015 e 2025, totalizando 2,3 milhões de casos no período.
Tendências de notificação entre 2015 e 2025
O aumento das notificações reflete, sobretudo, a melhoria na capacitação dos profissionais de saúde. Não indica necessariamente crescimento real da violência, mas maior sensibilidade na captura de dados.
| Ano | Notificações (mil) | Vítimas femininas (%) |
|---|---|---|
| 2015 | 1,200 | 68 |
| 2020 | 1,850 | 70 |
| 2025 | 2,300 | 71 |
Perfil das vítimas
Predominam mulheres negras, entre 20 e 49 anos, com escolaridade inferior ao ensino médio. A maioria relata agressão pelo parceiro ou ex‑parceiro dentro do ambiente doméstico.
Diferenças entre dados de saúde e segurança pública
Os registros de saúde superam os boletins de ocorrência policial. Muitas mulheres não denunciam à polícia, mas buscam auxílio médico, revelando um subnotificado cenário de violência.
Repetição de casos e risco de feminicídio
53% das mulheres atendidas já haviam sido notificadas anteriormente por violência. Estudos apontam que a reincidência eleva a probabilidade de evolução para feminicídio.
Cadeia de proteção nas unidades de saúde
Ao identificar violência, o profissional aciona uma rede de apoio que inclui assistência social e orientação sobre medidas protetivas. A notificação não é enviada automaticamente à polícia, preservando a autonomia da vítima.
Desafios estruturais no atendimento
Somente cerca de 40 hospitais públicos contam com protocolos completos para violência sexual. Essa escassez dificulta o acesso a serviços integrados, como profilaxia e, quando necessário, interrupção da gestação.
Consequências para a saúde das mulheres
Violência por parceiro íntimo é o terceiro fator de risco de morte prematura entre brasileiras de 15 a 49 anos. Lesões psicológicas e físicas crônicas afetam a qualidade de vida e aumentam a carga sobre o SUS.
Caminhos para a prevenção intersetorial
Especialistas defendem políticas que reduzam desigualdades, ampliem a escolaridade e invistam na infância. A abordagem deve integrar saúde, assistência social, educação e segurança pública.
A Visão do Especialista
De acordo com a pesquisadora Camila Alves (Fiocruz), o avanço nas notificações indica sucesso na capacitação, mas revela lacunas críticas no atendimento efetivo. Para reduzir os índices, é imprescindível ampliar protocolos hospitalares, fortalecer a rede de proteção e garantir que as vítimas tenham autonomia para denunciar.
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