Voepass reafirma aderência a padrões internacionais e rejeita as falhas apontadas pelo Cenipa. Em nota oficial, a companhia contestou o relatório que identificou acúmulo de gelo e erros operacionais como causas da tragédia do voo 2283, que vitimou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em 9 de agosto de 2024.

Contexto histórico da Voepass

Fundada em 1995 como Passaredo, a empresa evoluiu para Voepass em 2020, mantendo 30 anos de operação sem acidentes graves. A transportadora conquistou a certificação IOSA da IATA em 2012, um selo que exige auditorias rigorosas em segurança operacional, treinamento de tripulação e gestão de qualidade.

O acidente do voo 2283

O avião, um ATR‑72‑600, caiu durante a travessia de uma zona de gelo intenso, deixando 62 mortos. Era um voo regional entre Ribeirão Preto e São Paulo, com 5 000 horas de voo acumuladas pela tripulação.

O que o Cenipa revelou

O relatório final apontou acúmulo severo de gelo nas asas como causa direta da perda de sustentação. Contudo, destacou uma cadeia de falhas: sistema de degelo defeituoso, omissão de registros de manutenção e desconsideração de alertas pelos pilotos.

Falhas no sistema de degelo e manutenção

Investigações mostraram que o mecanismo de anti‑gelo apresentava mau funcionamento em voos anteriores, sem registro no diário de bordo. A prática recorrente de não documentar panes viola normas da ICAO e da ANAC, dificultando a rastreabilidade de defeitos.

Cultura de omissão e "normalização de desvios"

A auditoria do Cenipa identificou um padrão de ocultação de avarias, caracterizando uma cultura de "normalização de desvios". Incidentes semelhantes, como um stall não reportado meses antes, reforçam a tese de falhas sistêmicas.

Comportamento da tripulação

O gravador de voz revelou oito alertas de gelo, enquanto os pilotos conversavam sobre assuntos alheios à operação. O comandante admitiu ter esquecido de ativar o degelo, configurando o que o Cenipa descreveu como "surdez e cegueira por desatenção".

Deficiências da fiscalização

A ANAC já havia suspendido 8 das 15 aeronaves da frota em janeiro de 2023 por irregularidades. O relatório do Cenipa critica a insuficiência das inspeções, que não impediram a continuidade das operações com a aeronave defeituosa.

Repercussão no mercado

Após a divulgação do relatório, as ações da Voepass caíram 12 % em duas sessões, refletindo perda de confiança dos investidores. Seguradoras renegociaram cláusulas de cobertura, e consumidores migraram para concorrentes como Azul e LATAM.

Opinião de especialistas

Especialistas em segurança de aviação apontam que a combinação de falhas técnicas e humanas é típica de acidentes evitáveis. O ex‑diretor da ANAC, Carlos Alberto Silva, afirma que "a ausência de registro de anomalias elimina a base para ações corretivas preventivas".

Comparativo de indicadores

IndicadorVoepassMédia da indústria (Brasil)
Certificação IOSASim (desde 2012)71 % das companhias
Acidentes fatais (últimos 30 anos)1 (2024)3
Suspensões de frota (2023‑2024)8/15 aviões2/30 aviões
Alertas de gelo não atendidos8 (voo 2283)1‑2 por ano

Resposta da Voepass

A empresa enfatiza que a tripulação era experiente, com mais de 5 000 horas de voo, e que segue protocolos de segurança alinhados à IOSA. Na nota, a Voepass assegura total transparência e disponibilidade para colaborar com as autoridades.

Consequências jurídicas e operacionais

O Cenipa recomenda sanções que podem incluir multas milionárias e a revogação da certificação IOSA. Além disso, a ANAC tem 120 dias para analisar o relatório e definir medidas corretivas, que podem envolver a retirada de licenças operacionais.

A Visão do Especialista

Para o analista de risco de aviação Dr. Marina Lemos, o caso evidencia a necessidade de reforçar a cultura de reporte de anomalias. "Sem um sistema de gestão de segurança que valorize a transparência, as certificações se tornam meras formalidades", conclui, alertando que a Voepass enfrentará um período de reestruturação profunda para restabelecer credibilidade.

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