Uma pesquisa recente do PoderData, realizada entre os dias 18 e 20 de julho de 2026, revelou uma mudança significativa na percepção dos brasileiros sobre as relações comerciais do país. Pela primeira vez, 52% dos entrevistados afirmaram preferir que o Brasil estreite laços comerciais com a China em vez dos Estados Unidos, que recebeu a preferência de apenas 35%. Esse cenário representa uma inversão em relação a 2025, quando 59% dos brasileiros apontavam os EUA como o parceiro comercial ideal, contra 32% que preferiam a China.

O contexto histórico: da parceria com os EUA ao avanço chinês

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos tem uma longa história marcada por altos e baixos. Durante décadas, os EUA foram o principal parceiro comercial do Brasil, com forte influência política e econômica. Porém, no segundo mandato de Donald Trump, a relação sofreu abalos significativos, especialmente após a imposição de tarifas punitivas sobre produtos brasileiros, como aço e alumínio, em resposta a alegações de práticas comerciais desleais.

Em contrapartida, a China vem consolidando sua posição como o principal destino das exportações brasileiras. Desde 2009, o país asiático ultrapassou os EUA e se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, com destaque para a importação de commodities como soja, minério de ferro e carne.

A guinada diplomática no governo Lula

Desde que assumiu o cargo em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou os esforços para fortalecer os laços diplomáticos e comerciais com a China. Ele visitou o país asiático duas vezes e recebeu o presidente chinês no Palácio do Alvorada. Essa aproximação contrasta com as relações conturbadas com os EUA, agravadas pelas medidas protecionistas de Trump, incluindo um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros em 2025.

Além disso, no início de junho de 2026, o governo dos EUA anunciou uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, sob o argumento de práticas comerciais desleais. A medida foi intensificada em 15 de julho, com uma sobretaxa adicional de 12,5%, desta vez justificada por alegações de trabalho escravo na produção nacional. Essas ações enfraqueceram ainda mais a percepção positiva dos brasileiros em relação aos EUA.

Impacto no mercado: números que explicam a mudança

A imposição de tarifas pelos Estados Unidos teve um impacto direto nas exportações brasileiras. Segundo dados de 2025, as exportações para os EUA caíram 25,1% entre agosto e novembro, enquanto as vendas para a China cresceram 28,6% no mesmo período. Esse movimento reflete a relação de dependência comercial do Brasil com o mercado chinês, que se mostrou mais receptivo às commodities brasileiras.

Período Exportações para China Exportações para EUA
Agosto-Novembro 2024 +28,6% -25,1%
2025 (acumulado) $90 bi $30 bi

A percepção do eleitor brasileiro

A pesquisa do PoderData detalhou as preferências em relação ao comércio exterior com base em recortes demográficos, como sexo, idade, região e escolaridade. Destaca-se que a preferência pela China ganhou força entre jovens e eleitores da região Nordeste, enquanto os EUA mantêm maior apoio em regiões tradicionalmente alinhadas aos valores ocidentais, como o Sul.

  • Jovens (18-25 anos): 60% preferem a China.
  • Região Nordeste: 58% favorecem a China.
  • Regiões Sul e Sudeste: 40% ainda apoiam relações mais próximas com os EUA.

O papel estratégico da China no comércio global

A China tem assumido um papel de destaque no comércio global, especialmente em países em desenvolvimento. O país não apenas importa grandes volumes de commodities, mas também investe em infraestrutura e tecnologia nos mercados parceiros. No Brasil, os chineses têm participação relevante em setores como energia, mineração e agronegócio.

Paralelamente, a estratégia de Trump em impor tarifas protecionistas reforçou a percepção de que os EUA são um parceiro comercial menos confiável, especialmente em momentos de divergências políticas. Esse novo cenário destaca a complexidade do cenário geopolítico atual e a necessidade de diversificação nas parcerias comerciais brasileiras.

A influência do cenário político

Outro fator que não pode ser ignorado é o impacto das escolhas políticas. O apoio explícito de Trump a membros da família Bolsonaro durante as eleições de 2026 foi visto como um movimento polarizador, com 42% dos entrevistados considerando que tal apoio seria prejudicial para qualquer candidato brasileiro.

Por outro lado, a postura de Lula, que reforçou a soberania nacional e manteve um discurso mais alinhado com a China, parece ter ressoado positivamente com parte significativa do eleitorado, contribuindo para a ascensão do gigante asiático na preferência popular.

A Visão do Especialista

Essa mudança de percepção no relacionamento comercial do Brasil é um reflexo direto das tensões geopolíticas e das consequências econômicas das decisões de política externa. A China, com sua crescente influência comercial e diplomática, se apresenta como um parceiro mais consistente para o Brasil, especialmente em setores estratégicos como o agronegócio e a infraestrutura.

No entanto, é importante que o Brasil mantenha uma política externa equilibrada e diversificada, evitando a dependência excessiva de um único parceiro. A instabilidade nas relações com os EUA destaca a necessidade de buscar novos mercados e fortalecer parcerias regionais e globais.

Os próximos anos serão cruciais para definir a posição do Brasil no cenário internacional. Seja qual for o rumo escolhido, ele deve priorizar os interesses nacionais, com foco na sustentabilidade econômica e na soberania política. Compartilhe essa reportagem com seus amigos para ampliar a discussão sobre esse tema estratégico.