No último mês, a Ucrânia intensificou ataques com drones contra centros de distribuição da Wildberries, a maior varejista online da Rússia, em uma ação que gerou destruição, mortes e um impacto significativo no setor de comércio eletrônico russo. Segundo as autoridades ucranianas, os alvos são "centros logísticos estratégicos" que, supostamente, apoiam o abastecimento militar russo. O episódio destaca uma nova frente de guerra que afeta diretamente pequenos empresários e consumidores comuns na Rússia.

Imagem de uma notícia jornalística com uma mulher ucraniana segurando um cartaz com a palavra
Fonte: www.bbc.com | Reprodução

O que é a Wildberries e por que ela foi alvo?

A Wildberries é frequentemente comparada à Amazon, mas seu modelo de negócios difere em pontos cruciais. Enquanto a gigante americana também vende produtos diretamente, a Wildberries funciona quase exclusivamente como uma plataforma que conecta vendedores independentes a consumidores. Ela armazena, entrega mercadorias e processa pagamentos, sendo essencial para pequenas e médias empresas em regiões remotas da Rússia.

Entre 85% e 90% da população economicamente ativa da Rússia utiliza a Wildberries ou sua principal concorrente, a Ozon. Os ataques ucranianos, que começaram em 17 de julho de 2026, destruíram centros de distribuição em Elektrostal, Kotovsk, Koledino, Krasnodar e Nevinnomyssk. Em Kotovsk, sete funcionários morreram, enquanto o prejuízo total já ultrapassa R$ 5,1 bilhões.

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Os motivos por trás dos ataques

De acordo com o governo ucraniano, os centros de distribuição atacados são usados para "fornecer componentes sujeitos a sanções" destinados à fabricação de drones e equipamentos militares. Ainda que a Rússia negue essas alegações, especialistas apontam para o uso recorrente de plataformas de e-commerce por voluntários russos para adquirir itens militares, como coletes balísticos e componentes de drones.

Os ataques ocorrem em um contexto de escalada no uso de drones como arma estratégica. A Ucrânia tem investido em ataques de longo alcance para interromper rotas de abastecimento e enfraquecer a infraestrutura logística russa, especialmente em regiões próximas à linha de frente e na Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.

Impacto no comércio eletrônico e nos pequenos empresários

A destruição de centros logísticos não afeta apenas as operações da Wildberries, mas também o sustento de milhares de pequenos comerciantes que dependem da plataforma. Muitos perderam estoques inteiros, como uma vendedora de artigos de papelaria que relatou danos de R$ 65 mil e uma comerciante de roupas que registrou prejuízo de R$ 91 mil.

Além disso, a Wildberries recentemente alterou seus contratos para incluir ataques com drones como "casos de força maior", o que a isenta de qualquer responsabilidade por perdas. Apesar de promessas de compensação, muitos vendedores continuam inseguros sobre o futuro de suas operações.

A resposta do governo e as dificuldades econômicas

O governo russo, liderado por Vladimir Putin, tem promovido o apoio a pequenas e médias empresas como forma de resistir às sanções econômicas do Ocidente. No entanto, as políticas recentes têm dificultado esse objetivo. Em 2026, o IVA foi elevado de 20% para 22%, e benefícios fiscais foram eliminados, aumentando a carga tributária sobre os empresários.

Além disso, ataques ucranianos a depósitos de petróleo e refinarias agravaram a crise de combustíveis, enquanto apagões frequentes na internet e a repressão a aplicativos de mensagens dificultaram ainda mais as operações comerciais. Segundo dados da plataforma Kontur.Fokus, 209 mil pequenas e médias empresas encerraram suas atividades no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 9% em relação ao mesmo período de 2025.

Como a guerra chegou ao cotidiano dos russos

Embora a guerra na Ucrânia tenha se concentrado, em grande parte, ao longo da linha de frente, os ataques aos centros de distribuição levaram o conflito diretamente à vida de muitos cidadãos russos. Para muitos, a Wildberries é uma ferramenta essencial para acessar bens de consumo, especialmente em áreas isoladas. A destruição desses centros de distribuição ameaça não apenas o comércio, mas também a rotina de milhões de pessoas.

A crise também expôs a vulnerabilidade de pequenas empresas em tempos de guerra. Muitas delas não têm reservas financeiras suficientes para lidar com perdas repentinas, e a ausência de indenizações adequadas aumenta o risco de falência.

Comparação com a situação na Ucrânia

Desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022, a Ucrânia também sofreu ataques a sua infraestrutura logística e comercial. Centros de triagem da Nova Poshta, a maior empresa privada de entregas da Ucrânia, e depósitos da rede varejista ATB foram alvos frequentes de mísseis russos. Assim, os ataques ucranianos à Wildberries representam uma estratégia semelhante, mas em território inimigo.

Apesar das perdas significativas, tanto na Rússia quanto na Ucrânia, especialistas argumentam que os ataques a centros logísticos visam mais do que prejuízos econômicos: eles buscam desestabilizar cadeias de abastecimento militar e civil, prolongando os efeitos da guerra.

Repercussão internacional

A comunidade internacional observa com preocupação a escalada do conflito. Organizações de direitos humanos alertam para o impacto humanitário dos ataques em infraestruturas civis, enquanto analistas militares discutem a eficácia dessa estratégia para alterar o curso da guerra. A Rússia, por sua vez, acusa a Ucrânia de "terrorismo" e promete intensificar suas represálias.

Os ataques também colocam em evidência o papel das plataformas de e-commerce em contextos de guerra. Elas não apenas facilitam o comércio civil, mas também podem ser exploradas para fins militares, levantando questões sobre regulação e segurança.

A Visão do Especialista

De acordo com Ruben Enikolopov, professor da Universidade Pompeu Fabra, "os ataques aos centros de distribuição da Wildberries representam mais um golpe no já fragilizado setor de pequenas empresas na Rússia". Ele ressalta que, embora as empresas russas tenham demonstrado resiliência em crises anteriores, a combinação de fatores como inflação elevada, aumento de impostos e escassez de combustíveis ameaça a sobrevivência de muitas delas.

No médio prazo, os ataques podem levar a uma maior desorganização logística na Rússia, afetando tanto civis quanto militares. Para os pequenos empresários, a perspectiva de novos ataques é desanimadora, especialmente diante da falta de garantias financeiras. À medida que o conflito se intensifica, a guerra econômica e logística se torna cada vez mais um campo de batalha crucial.

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