"A Fúria", dirigido por Ruy Guerra em parceria com Luciana Mazzotti, emerge como um manifesto cinematográfico que revisita o passado para dialogar com as turbulências políticas do Brasil contemporâneo. O filme, que encerra a trilogia iniciada com "Os Fuzis" (1964) e seguida por "A Queda" (1978), utiliza a linguagem do Cinema Novo para confrontar diretamente as mazelas do presente, incluindo o impacto do bolsonarismo na sociedade brasileira.
O Cinema Novo como base para o confronto
O Cinema Novo nasceu nos anos 1950 e 1960 como um movimento estético e político que buscava retratar as desigualdades sociais do Brasil. Cineastas como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra foram pioneiros em usar o cinema como ferramenta de crítica e reflexão. O lema "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" sintetiza a proposta de um cinema autoral, com orçamentos reduzidos, mas carregado de conteúdo político e estético.
Dentro dessa tradição, "A Fúria" retoma a estética alegórica e simbólica que marcou o movimento. Ruy Guerra, um dos últimos representantes vivos dessa corrente, utiliza a figura do personagem Mário, interpretado postumamente por Ricardo Blat, para conectar as lutas passadas contra a ditadura militar às batalhas sociais e políticas da atualidade.
A trilogia de Ruy Guerra: um retrato do Brasil
A jornada de Mário começa em "Os Fuzis", onde ele é um soldado enviado ao sertão nordestino para reprimir os camponeses famintos. O filme, lançado em 1964, tornou-se um marco do Cinema Novo ao expor a brutalidade do Estado contra os mais pobres. Em "A Queda" (1978), Mário se transforma em um operário, simbolizando a classe trabalhadora explorada durante o "milagre econômico" da ditadura militar.
Em "A Fúria", Mário retorna como um espírito invocado por entidades indígenas. Este recurso sobrenatural serve como uma metáfora potente para ressaltar a continuidade de problemas estruturais do Brasil, como a exploração de terras indígenas e a corrupção sistêmica no poder público. O personagem Salatiel, vivido novamente por Lima Duarte, personifica o político inescrupuloso que se mantém relevante, não importa a era.
O bolsonarismo como manifestação da "farsa grotesca"
O filme insere o bolsonarismo no contexto histórico de golpes e negociatas que marcaram a política brasileira. A obra retrata um presidente fictício que remete diretamente à figura de Jair Bolsonaro, com suas motociatas e discurso populista. Entretanto, em vez da tragédia clássica que marcou os anos de chumbo, "A Fúria" apresenta uma "farsa grotesca", refletindo a degradação política e social atual.
Personagens como o deputado Feijó, um ex-comunista que agora bloqueia investigações sobre a exploração de terras indígenas, destacam a hipocrisia e os interesses escusos que permeiam o poder. Esse retrato é uma crítica contundente à destruição acelerada das instituições democráticas no Brasil nos últimos anos.
Elementos teatrais e a força das alegorias
"A Fúria" utiliza uma estética teatral, com cenários simbólicos e personagens que representam categorias sociais e políticas inteiras. Por exemplo, o general retratado no filme é ao mesmo tempo estrategista e torturador, evocando figuras da ditadura como Golbery do Couto e Silva.
Essa abordagem alegórica é uma marca registrada do Cinema Novo e funciona como um convite ao espectador para ir além da superfície. Aos olhos de Guerra, o teatro do cinema é um espelho distorcido da realidade, onde o grotesco e o sublime coexistem.
Paralelos entre o passado e o presente
Ao revisitar as narrativas de seus filmes anteriores, Ruy Guerra propõe uma reflexão sobre como os problemas estruturais do Brasil persistem e se reinventam. Enquanto os anos de ditadura foram marcados por uma "política suja, mas com certa dignidade", como Guerra aponta, o bolsonarismo é apresentado como uma exacerbação grotesca dessa tradição.
O filme sugere que o Brasil de hoje não superou as feridas do passado, mas, ao contrário, aprofundou as desigualdades e violências. A presença de personagens indígenas, como aqueles que invocam o espírito de Mário, reforça a urgência de discutir o impacto das políticas atuais sobre populações marginalizadas.
Visão de especialistas: arte como resistência
Para críticos e estudiosos, "A Fúria" representa mais do que um resgate do Cinema Novo; é uma declaração de resistência cultural e política. Em um momento em que a indústria cinematográfica brasileira enfrenta desafios financeiros e censura, a obra de Guerra reafirma o papel do cinema como ferramenta de denúncia e transformação social.
O crítico e pesquisador de cinema Paulo Roberto de Oliveira destaca que "A Fúria" é um lembrete poderoso de que a arte pode, e deve, confrontar os poderes estabelecidos. "Ruy Guerra utiliza a linguagem do passado para mostrar que os fantasmas da ditadura ainda assombram o presente", afirma.
A visão do especialista
Embora "A Fúria" seja uma obra que dialoga mais diretamente com gerações que viveram o Cinema Novo e a ditadura, ela possui relevância universal e atemporal. O filme é uma aula de história, mas também um alerta sobre os perigos de ignorar os erros do passado.
Para os espectadores contemporâneos, "A Fúria" oferece uma oportunidade de reconhecer as raízes dos problemas políticos e sociais que enfrentamos hoje. Em um cenário onde o bolsonarismo ainda ecoa, a obra de Ruy Guerra é um chamado à reflexão coletiva e à ação.
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