"A menina que queria ser pedra", o mais novo curta-metragem do cineasta, artista visual e músico mineiro Jackson Abacatu, estreia nesta quinta-feira (7/5), às 19h, no Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte. A produção de nove minutos, feita inteiramente por métodos artesanais, propõe uma experiência poética e sensorial que contrasta com os avanços da tecnologia na produção audiovisual contemporânea. O evento tem entrada gratuita.

Estreia de curta-metragem artesanal em Belo Horizonte, com diretores e atores presentes.
Fonte: www.otempo.com.br | Reprodução

Um mergulho no artesanal: a técnica por trás da obra

Em um mundo onde a inteligência artificial e as ferramentas digitais dominam a criação artística, Abacatu decidiu adotar um caminho oposto: a manualidade. Cada quadro do curta foi pintado à mão com nanquim sobre páginas de livros antigos, uma escolha que não apenas resgata práticas artísticas tradicionais, mas também carrega um simbolismo sobre o tempo e a memória impressa.

O processo foi meticulosamente planejado. Primeiro, as animações foram criadas em 2D e, em seguida, projetadas em papel. As páginas dos livros antigos serviram como suporte para a pintura, adicionando texturas únicas e um ar de nostalgia à obra. O resultado final é uma fusão de texto, imagem e materialidade que transcende as barreiras convencionais da animação digital.

Estreia de curta-metragem artesanal em Belo Horizonte, com diretores e atores presentes.
Fonte: www.otempo.com.br | Reprodução

A narrativa: poesia e transformação

O curta apresenta uma conversa entre duas crianças: um menino inquieto e uma menina serena, à beira de um lago. O diálogo aborda temas como percepção, tempo e transformação, ecoando reflexões filosóficas que remetem à obra do escritor português Walter Hugo Mãe, uma das inspirações de Abacatu.

O título, "A menina que queria ser pedra", sugere uma busca por permanência e resistência em um mundo de constante mudança. É, ao mesmo tempo, uma metáfora para o próprio processo criativo do artista, que escolheu a lentidão e a profundidade do artesanal em oposição à velocidade e superficialidade das tecnologias modernas.

Uma trilha sonora única como extensão da narrativa

Outro aspecto que chama a atenção no curta é sua trilha sonora, que utiliza um litofone, instrumento construído pelo próprio Abacatu a partir de pedras. A trilha, que também inclui piano e handpan, contribui para a atmosfera contemplativa do filme, criando uma ponte sensorial entre o espectador e a história.

O litofone não é apenas um elemento musical, mas também um símbolo central da narrativa: ele reflete a conexão com a natureza, a intemporalidade e a busca por autenticidade. A escolha reforça a ideia de que cada elemento da obra foi pensado para dialogar com sua proposta artística.

O papel do Cine Santa Tereza na cena cultural de BH

O Cine Santa Tereza, localizado na região leste de Belo Horizonte, é um dos espaços mais importantes para a difusão do cinema independente na capital mineira. Desde sua reabertura em 2015, o local tem se consolidado como um polo de resistência cultural, promovendo exibições gratuitas e debates que valorizam a produção local e autoral.

A estreia de "A menina que queria ser pedra" no Cine Santa Tereza não é uma escolha aleatória. A conexão entre o curta e o espaço evidencia a importância de preservar e valorizar formas de fazer arte que desafiem as lógicas industriais e capitalistas.

Contexto histórico: a animação artesanal no Brasil

A produção de animação no Brasil tem uma história rica, mas muitas vezes ofuscada por gigantes da indústria internacional. Nos últimos anos, houve um movimento de retomada e valorização de técnicas artesanais, como a stop motion e a pintura quadro a quadro, que ganham destaque em festivais de cinema e exposições.

Trabalhos como o de Abacatu dialogam com uma tradição que inclui nomes como Alê Abreu, diretor de "O Menino e o Mundo", e Otto Guerra, conhecido por suas animações autorais. Essas produções, muitas vezes, misturam técnicas manuais e digitais, mas sempre com um forte apelo artístico e experimental.

O contraponto à era da inteligência artificial

Enquanto a indústria caminha para a automação e o uso de inteligência artificial em processos criativos, obras como "A menina que queria ser pedra" ressaltam o valor do toque humano. A escolha de Abacatu por métodos manuais é um posicionamento ético e estético, que questiona a rapidez e a eficiência como valores absolutos da sociedade contemporânea.

Além disso, a obra levanta questões sobre o papel do tempo na criação artística. Em um mundo onde tudo acontece em alta velocidade, o curta convida o espectador a desacelerar e mergulhar em uma experiência sensorial e reflexiva.

Repercussão e expectativas

A estreia do curta já está gerando burburinho na cena cultural de Belo Horizonte. Especialistas destacam a importância de iniciativas como essa para a manutenção de uma identidade cultural brasileira no cinema de animação, especialmente em um momento em que a globalização ameaça homogeneizar as expressões artísticas.

Abacatu, que já é conhecido por suas experimentações em música e audiovisual, reforça seu lugar como um dos artistas mais inovadores da cena mineira. Sua obra não se limita à tela, mas se estende para o campo do sensorial, do filosófico e do material.

A Visão do Especialista

A estreia de "A menina que queria ser pedra" marca mais do que o lançamento de um curta-metragem; ela representa um manifesto silencioso em defesa da arte como um ato de resistência. Para um público cada vez mais acostumado à superficialidade e à velocidade, a obra de Jackson Abacatu oferece uma pausa necessária: um convite à contemplação, à introspecção e à redescoberta do valor do trabalho manual.

O impacto dessa produção vai além do cinema. Ela nos faz refletir sobre como consumimos e produzimos arte, e sobre o que estamos dispostos a preservar em um mundo de mudanças tecnológicas rápidas. Será que estamos prontos para desacelerar e ouvir a marimba de pedra de Abacatu?

O futuro da animação no Brasil pode não estar apenas em seguir tendências globais, mas em encontrar caminhos próprios, enraizados em nossa cultura e história. "A menina que queria ser pedra" é um exemplo brilhante de como isso é possível.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a promover a arte brasileira e suas histórias únicas.