O Brasil alcançou, em 2025, um marco histórico: a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica. Porém, enquanto a violência urbana retrocede, outro tipo de violência segue em ascensão: a doméstica. Pelo quarto ano consecutivo, os feminicídios bateram recordes, revelando que a segurança pública tradicional ainda falha em proteger as mulheres dentro de suas próprias casas.

Um país com duas realidades: ruas mais seguras e lares ameaçadores

Em 2025, o Brasil registrou uma redução expressiva nos índices de homicídios. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a meta de redução de mortes violentas, prevista inicialmente para 2027, foi alcançada dois anos antes. Esse cenário reflete o impacto de políticas de segurança pública mais eficientes e do combate ao crime organizado.

No entanto, os números de feminicídio contam outra história. Em 2025, o país registrou um aumento contínuo desses crimes, com mais de 65% das vítimas sendo mulheres negras. Cerca de 80% dos casos foram perpetrados por parceiros, ex-parceiros ou familiares, e quase dois terços ocorreram dentro de casa. Esses dados reforçam uma dura realidade: enquanto o espaço público se torna mais seguro, o espaço privado continua perigoso para as mulheres.

Contexto histórico e a evolução da violência doméstica

A violência contra a mulher tem raízes históricas profundas, relacionadas a questões como desigualdade de gênero, controle coercitivo e padrões culturais de masculinidade. Embora leis como a Lei Maria da Penha, de 2006, tenham transformado o enfrentamento à violência doméstica no Brasil, a aplicação dessas políticas encontra obstáculos estruturais.

Antes da Lei Maria da Penha, a violência doméstica era tratada como um problema privado. A legislação trouxe à tona a responsabilidade do Estado e da sociedade, criando medidas protetivas de urgência e uma rede de proteção integrada. No entanto, especialistas como a procuradora Nathalie Malveiro destacam que o desafio atual não é a criação de novas leis, mas a implementação eficaz das políticas já existentes.

Feminicídio: o último estágio de um ciclo de violência

Os dados mostram que o feminicídio raramente acontece de forma inesperada. Para cada caso registrado, há uma média de 500 registros de ameaça, 182 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica e quase três tentativas de feminicídio. Isso evidencia que a morte é frequentemente o desfecho trágico de um ciclo de violência que poderia ter sido interrompido com intervenções adequadas.

Por exemplo, o descumprimento de medidas protetivas é um problema recorrente. Essa falha na execução das políticas de proteção expõe as mulheres a riscos contínuos, especialmente em contextos onde o agressor é familiar ou parceiro íntimo.

Por que a violência doméstica persiste?

Enquanto a violência urbana está amplamente associada a fatores como disputas territoriais e tráfico de drogas, a violência doméstica é impulsionada por dinâmicas próprias. A desigualdade de gênero, o machismo estrutural e a tolerância cultural à violência são fatores que perpetuam o problema. Além disso, a dependência financeira, a vergonha e a falta de uma rede de apoio tornam difícil para muitas mulheres romperem com relacionamentos abusivos.

O papel da Lei Maria da Penha e seus desafios

A Lei Maria da Penha é frequentemente considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência de gênero. Contudo, sua efetividade depende de uma implementação robusta e coordenada. De acordo com especialistas, o foco deve ser na prevenção, com investimentos em educação, acolhimento psicológico, apoio financeiro e campanhas de conscientização.

Outro ponto crítico é a necessidade de capacitar melhor os operadores do sistema de justiça e as forças policiais. Casos de negligência e descrença em relação às denúncias feitas por mulheres ainda são comuns, contribuindo para a perpetuação do ciclo de violência.

Impactos sociais e econômicos da violência doméstica

A violência contra a mulher não é apenas um problema social, mas também econômico. Estudos apontam que o custo dessa violência para o Brasil é bilionário, incluindo gastos com saúde, segurança, assistência social e perda de produtividade. Além disso, o impacto psicológico em famílias e comunidades é incalculável, perpetuando ciclos de trauma e exclusão social.

Comparativo: violência urbana x violência doméstica

Indicador Violência Urbana Violência Doméstica
Redução de casos Sim Não
Local de ocorrência Espaço público Residências
Motivações principais Crime organizado, disputas territoriais Controle coercitivo, desigualdade de gênero
Percentual de vítimas mulheres Menos de 10% 100%

O que pode ser feito para reverter esse quadro?

Especialistas apontam que o combate à violência contra a mulher deve ir além do punitivismo. O foco deve ser a criação de um ambiente onde as mulheres se sintam seguras para denunciar abusos e tenham condições de romper com ciclos de violência. Isso inclui estratégias como:

  • Educação de base para desconstruir a cultura machista e promover a igualdade de gênero.
  • Fortalecimento de políticas públicas de acolhimento psicológico e financeiro.
  • Ampliação e monitoramento das redes de apoio às mulheres.
  • Capacitação contínua de policiais e operadores do sistema de justiça.

A Visão do Especialista

Embora o Brasil tenha sido bem-sucedido em reduzir a violência urbana, o mesmo esforço deve ser aplicado ao combate à violência doméstica. Como destaca a procuradora Nathalie Malveiro, "nenhuma condenação devolve uma mulher à vida". O foco precisa ser na prevenção e na construção de uma sociedade que valorize e proteja suas mulheres.

A violência doméstica não é apenas um problema das vítimas, mas de toda a sociedade. Para avançar, é necessário um pacto coletivo que envolva o Estado, a iniciativa privada e a sociedade civil. A mudança só será possível quando a proteção às mulheres for prioridade real e efetiva.

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