O banqueiro André Esteves, sócio do BTG Pactual, afirmou que o maior desafio enfrentado pelo Brasil não está na economia, mas no avanço do crime organizado sobre instituições públicas e privadas. Durante um painel no fórum do grupo Esfera Brasil, no Guarujá (SP), Esteves destacou preocupações sobre o impacto da criminalidade no ambiente institucional e a necessidade de enfrentamento desses problemas.

Entenda o impacto no mercado

Segundo Esteves, o Brasil vive um momento de estabilidade econômica que facilita a gestão dos principais indicadores fiscais. Ele apontou que o país está em condições favoráveis, com reservas cambiais líquidas de US$ 360 bilhões e inflação projetada em 4% para 2026. Além disso, o mercado de capitais demonstra maturidade e competitividade internacional, o que reforça a confiança dos investidores.

Entretanto, o banqueiro destacou que a criminalidade organizada representa uma ameaça ao ambiente de negócios e à saúde institucional do país. Casos como o do banco Master, que gerou prejuízos bilionários ao sistema financeiro, demonstram falhas graves na supervisão e regulação.

O caso Master e as fragilidades institucionais

Esteves citou o caso do banco Master como exemplo de como operações criminosas podem comprometer a credibilidade do sistema financeiro. O banco acumulou rombos de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), R$ 12 bilhões no Banco de Brasília (BRB) e R$ 4 bilhões em institutos de previdência.

Esses eventos expõem lacunas na supervisão bancária e na fiscalização financeira, fatores que precisam de atenção máxima para evitar que a confiança no sistema seja abalada. Segundo o banqueiro, são problemas que transcendem o âmbito econômico e afetam diretamente a segurança institucional.

O avanço da milícia e suas implicações econômicas

Outro ponto crítico abordado por Esteves foi o crescimento da influência de milícias e do tráfico de drogas em instituições públicas. Ele mencionou que 34 dos 70 deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro estão investigados por envolvimento com essas atividades criminosas.

Essas práticas minam a eficiência administrativa e dificultam a implementação de políticas econômicas eficazes, criando um ambiente de instabilidade que pode afastar investimentos e agravar a percepção de risco do país.

Um país pronto para decolar?

Apesar dos desafios institucionais, Esteves demonstrou otimismo com a economia brasileira. Ele comparou o país a um "avião na pista", apontando que ajustes simples, como a contenção do crescimento dos gastos públicos, poderiam reduzir a taxa Selic de 15% para 7%, acelerando o crescimento econômico.

Com pleno emprego e condições favoráveis em setores como o mercado de capitais e energia, o Brasil apresenta potencial para atrair investimentos e expandir sua economia. No entanto, o avanço do crime organizado pode limitar essas oportunidades.

Histórico econômico: aprendizados e comparações

Esteves relembrou os governos de Fernando Henrique Cardoso (1994) e Luiz Inácio Lula da Silva (2002), que assumiram o Brasil em cenários críticos, mas conseguiram implementar medidas que estabilizaram a economia. Ele destacou que o panorama atual é muito mais favorável, com tarifas ajustadas e instituições financeiras robustas.

Esse histórico demonstra que o Brasil tem capacidade de superar crises econômicas, mas precisa combater problemas estruturais, como o avanço do crime organizado.

O custo da informalidade no mercado

O banqueiro também alertou para o impacto da informalidade em setores como o de combustíveis, onde 20% do mercado opera fora da regulamentação. Isso representa uma perda significativa de receita tributária e prejudica empresas que operam dentro da legalidade.

Esses problemas não só afetam a arrecadação, mas também criam um ambiente competitivo desleal, dificultando o crescimento sustentável do setor.

Impactos no bolso do consumidor

A informalidade e a corrupção institucional têm reflexos diretos no bolso do cidadão. O desvio de recursos públicos e a perda de eficiência administrativa acabam por aumentar os custos dos produtos e serviços, além de limitar investimentos em infraestrutura e qualidade de vida.

Combater esses problemas é essencial para garantir que os benefícios econômicos cheguem à população de forma equitativa.

O papel do Banco Central e das políticas públicas

Esteves reconheceu que a atual gestão do Banco Central tem aprimorado controles e medidas de supervisão. No entanto, ele ressaltou que erros do passado precisam servir como aprendizado para fortalecer a regulação financeira. Políticas públicas eficazes e maior rigor na fiscalização são fundamentais para impedir novos casos de corrupção e má gestão.

A Visão do Especialista

O avanço do crime organizado sobre instituições públicas e privadas representa um desafio que vai além da economia. Embora o Brasil apresente condições favoráveis para crescer, a estabilidade institucional é essencial para atrair investimentos e garantir um ambiente de negócios saudável.

Para o leitor, isso significa que, apesar das boas perspectivas econômicas, é necessário acompanhar de perto a evolução do cenário político e institucional. Investidores devem considerar não apenas indicadores econômicos, mas também o impacto de fatores externos, como corrupção e criminalidade organizada, ao tomar decisões financeiras.

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