As eleições presidenciais no Peru e na Colômbia, marcadas para junho de 2026, podem definir novos rumos para o cenário político da América Latina. Com a direita liderando as sondagens no primeiro turno em ambos os países, essas disputas têm potencial para consolidar uma guinada conservadora no continente. A mudança de direção política pode ter implicações significativas para o Brasil e para a dinâmica geopolítica regional, especialmente diante do fortalecimento de uma agenda de direita alinhada ao governo dos Estados Unidos sob Donald Trump.

Políticos em debate eleitoral intenso em meio a controvérsias
Fonte: www.bbc.com | Reprodução

Contexto político e histórico: Peru e Colômbia como peças-chave

As eleições no Peru, que ocorrem em 7 de junho, e na Colômbia, agendadas para 21 de junho, acontecem em um cenário de instabilidade política e polarização. No caso peruano, a crise começou em 2021, com a eleição de Pedro Castillo, um presidente de esquerda que foi destituído do cargo e preso após tentar dissolver o Congresso em 2022. Desde então, o país enfrentou uma sequência de mudanças no comando, culminando na presidência interina de José María Balcázar Zelada, também de orientação à esquerda.

Políticos em debate eleitoral intenso em meio a controvérsias
Fonte: www.bbc.com | Reprodução

Na Colômbia, Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda do país, eleito em 2022, apoia o senador Ivan Cepeda como seu sucessor. Entretanto, o candidato da direita radical, Abelardo de la Espriella, lidera as pesquisas após o primeiro turno, surfando na onda de popularidade de líderes conservadores como Javier Milei, da Argentina, e Nayib Bukele, de El Salvador.

A guinada à direita na América Latina

Desde 2023, a América Latina tem vivenciado um movimento político que pode ser descrito como uma "onda conservadora". Países como Argentina, Equador, Bolívia e Chile, que haviam sido governados por líderes de esquerda, elegeram presidentes de direita ou centro-direita nos últimos anos. O caso mais emblemático foi a eleição de Javier Milei na Argentina, que marcou uma virada significativa na política econômica e social do país.

Esse padrão contrasta com a chamada "onda rosa" do início dos anos 2000, quando governos de esquerda dominaram a região. Analistas apontam que o apoio de Donald Trump a líderes conservadores na América Latina tem desempenhado um papel crucial nessa nova configuração. "A direita está se organizando de forma mais coesa e integrada, algo que antes era mais característico da esquerda", explica Carolina Silva Pedroso, pesquisadora da Unesp.

Impactos no Brasil e na região

O Brasil, governado atualmente por Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta um cenário desafiador. "Com o fortalecimento da direita na região, o Brasil se vê cada vez mais pressionado a lidar com governos ideologicamente opostos", avalia Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP. A vitória da direita no Peru e na Colômbia poderia dificultar ainda mais a articulação de políticas regionais alinhadas aos interesses do governo brasileiro.

Por outro lado, uma vitória da esquerda, especialmente na Colômbia, seria vista como um alívio estratégico para o Planalto. "Ainda que não resolva todos os problemas, um aliado ideológico na região pode ajudar a equilibrar as forças", comenta Pedroso. No entanto, mesmo nesse cenário, a governabilidade de Lula enfrenta desafios internos, com uma taxa de rejeição de 53%, segundo pesquisa da Quaest realizada em maio de 2026.

Os desafios da "praga da incumbência"

Um dos fatores que têm influenciado a volatilidade política na América Latina é o que os especialistas chamam de "praga da incumbência". A expressão, utilizada por Feliciano de Sá Guimarães, refere-se à dificuldade que governos na região enfrentam para atender às altas expectativas da população em termos de desempenho econômico e social. "Os eleitores esperam resultados rápidos e tangíveis, mas os governos enfrentam limitações estruturais que dificultam a entrega dessas promessas," afirma o pesquisador.

Essa dinâmica explica, em parte, por que tantos governos têm enfrentado dificuldades para se manter no poder ou eleger sucessores. No caso do Brasil, Lula lidera as pesquisas para um eventual segundo turno, mas com uma margem apertada. Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, ele teria 46% das intenções de voto contra 41% de seu principal oponente, Flávio Bolsonaro.

As especificidades de cada país

Embora a tendência de direita seja evidente, os especialistas alertam que é fundamental observar as particularidades de cada país. No Peru, por exemplo, a candidatura de Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que foi condenado por violações de direitos humanos, traz à tona memórias de um período controverso na história do país. Já na Colômbia, a figura de Abelardo de la Espriella representa uma ruptura com o passado mais recente, oferecendo uma agenda de segurança pública e combate à corrupção inspirada em líderes populistas da região.

Possíveis desdobramentos regionais

Se a direita vencer tanto no Peru quanto na Colômbia, a configuração política da América Latina se inclinará ainda mais para o conservadorismo. Isso pode gerar impactos em blocos regionais como Mercosul e Unasul, bem como em negociações comerciais e diplomáticas com potências como os Estados Unidos e a China. "A América Latina pode se tornar um bloco ainda mais homogêneo do ponto de vista ideológico, o que pode ser um desafio para o Brasil, especialmente em questões ambientais e comerciais", alerta Pedroso.

A visão do especialista

As eleições no Peru e na Colômbia são mais do que simples disputas nacionais; elas representam um termômetro para entender as mudanças de humor político na América Latina. A possibilidade de uma nova "onda conservadora" no continente é real e pode alterar significativamente a dinâmica regional. Para o Brasil, o desfecho dessas eleições terá implicações profundas, seja para reforçar um isolamento ideológico ou para oferecer um respiro em um cenário já polarizado.

Especialistas concordam que o futuro político da América Latina continua marcado por ciclos de alternância entre a direita e a esquerda, amplificados por fatores externos como a influência dos Estados Unidos e pela insatisfação popular com governos em exercício. "Os próximos anos serão cruciais para determinar se essa nova onda de direita se consolidará ou se haverá espaço para um novo equilíbrio político na região," conclui Sá Guimarães.

Políticos em debate eleitoral intenso em meio a controvérsias
Fonte: www.bbc.com | Reprodução

Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a ampliar o debate sobre os rumos da política na América Latina.