Se há um nome que se confunde com o imaginário das grandes vilãs brasileiras, esse nome é Beatriz Segall. Completaria seu centenário neste sábado, 25 de julho, mas sua história vai muito além da icônica Odete Roitman, de Vale Tudo. A atriz, que faleceu em 2018 aos 92 anos, deixou um legado que mistura elegância, talento e uma visão crítica sobre a vida e a arte.

De São Cristóvão para os palcos: os primeiros passos de Beatriz Segall

Beatriz nasceu no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em uma família de professores. Desde criança, ela demonstrava inclinação para as artes, inicialmente sonhando em ser bailarina. Sua estreia nos palcos aconteceu na peça As Preciosas Ridículas, de Molière, apresentada na Aliança Francesa como parte de um curso de línguas. Esse foi o ponto de partida para sua carreira teatral.

Porém, como relatou ao Memória Globo, sua entrada no teatro profissional não foi simples. Após a primeira oportunidade, enfrentou dilemas familiares e adiou seus planos. "Pode ir, mas você me dá um grande desgosto", disse seu pai na época. Mesmo assim, Beatriz retomou sua trajetória, conciliando estudos no Brasil e na França.

Uma pausa estratégica: os anos como dona de casa

Nos anos 1950, Beatriz decidiu reduzir o ritmo para focar na vida familiar. "Queria muito me casar, ter filhos, ser mãe de família", disse ela em uma entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura, em 2014. Durante 14 anos, dedicou-se a ser dona de casa, algo que ela afirmava fazer com prazer, apesar das críticas de feministas da época.

O retorno aos palcos aconteceu em 1964, quando foi convidada por José Celso Martinez Corrêa para substituir Henriette Morineau na peça Andorra. "Fui e não saí mais", relembrou, marcando a retomada de sua carreira artística.

Uma carreira marcada por personagens sofisticadas

Beatriz Segall construiu um currículo impressionante, passando por todas as grandes emissoras de TV do Brasil e acumulando papéis memoráveis. Na Globo, se destacou em produções como Dancin' Days, Pai Herói, Água Viva, Vale Tudo, Barriga de Aluguel e O Clone.

No teatro, sua versatilidade também brilhava. Foi diretora do Teatro São Pedro ao lado de seu marido, Maurício Segall, filho do pintor Lasar Segall. Além disso, sua relação com o sogro sempre foi marcada por admiração mútua. "Tenho quadros e desenhos que ele fez para mim, de mim", comentava.

Odete Roitman: a vilã que parou o Brasil

O ápice popular de sua carreira veio em 1988, quando interpretou Odete Roitman em Vale Tudo. Odete era mais do que uma vilã; era um símbolo de arrogância e elitismo, características que despertaram amor e ódio entre os telespectadores. Sua morte, exibida em dezembro daquele ano, virou um caso publicitário quando foi adiada por um anúncio de seguros com a atriz.

"Minha vida está mudada por causa dela", refletia Beatriz sobre o impacto da personagem. O público, por sua vez, não poupava comentários bem-humorados, chamando-a de "ruinzinha, hein, Odete?" nos encontros casuais.

Os últimos trabalhos e despedidas

Beatriz Segall despediu-se da televisão em 2015, na minissérie Os Experientes, da Globo. Interpretando Yolanda, uma idosa aparentemente vulnerável, sua personagem revelou um passado revolucionário e surpreendente, encerrando sua trajetória com uma atuação memorável.

Nos palcos, seu último trabalho foi no musical Nine, dirigido por Charles Möeller e Claudio Botelho. A peça, uma adaptação da Broadway, trouxe Beatriz no papel da mãe do protagonista e contou com um elenco estrelado. Infelizmente, uma queda no palco interrompeu sua performance, marcando o fim de sua carreira teatral.

Frases que refletem uma vida de arte e crítica

Beatriz Segall era conhecida por seu posicionamento firme e reflexões sobre a vida e a carreira. Algumas de suas frases mais marcantes incluem:

  • "Não sou do tipo de atriz que pega coisas do personagem e traz para casa."
  • "Queria ser dona de casa e fazer tudo que as feministas diziam que não podia fazer."
  • "As pessoas se acham originais com essas brincadeiras de Odete, mas, para mim, é cansativo."

A generosidade nos últimos dias

Beatriz Segall faleceu em 5 de setembro de 2018, vítima de problemas respiratórios e Alzheimer. Sua generosidade marcou seus últimos atos: deixou bens significativos, como um carro e uma quantia em dinheiro, para seu motorista de confiança, Adilson Ricardo Leite, que trabalhou com ela por 15 anos.

A Visão do Especialista

Beatriz Segall não foi apenas uma atriz; foi um símbolo de dedicação às artes e de autenticidade em suas escolhas de vida. Sua carreira, marcada por papéis icônicos como Odete Roitman, também revelou uma artista que sabia equilibrar elegância e profundidade.

Seu centenário nos convida a revisitar sua obra e a refletir sobre o impacto que ela teve na TV, no teatro e na sociedade brasileira. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e mantenha viva a memória desta grande atriz!