O futuro da produção de leite no Rio Grande do Sul está cada vez mais incerto, diante da queda de produtores, aumento dos custos e falta de sucessores. Dados do Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite (Emater/RS‑Ascar, 2025) apontam uma retração de 10,7 % na produção total entre 2015 e 2025, enquanto a produtividade por animal subiu 42,6 %.
Contexto histórico da pecuária leiteira gaúcha
O Estado já lidera a produção nacional, respondendo por cerca de 4,1 bilhões de litros anuais. Desde a década de 1990, a expansão de pastagens e a adoção de cruzamentos melhorados impulsionaram o volume, mas a consolidação de grandes cooperativas e a pressão por eficiência têm reduzido o número de pequenas propriedades.
Queda de produtores e rebanho: números recentes
Entre 2023 e 2025, o total de criadores de gado leiteiro diminuiu 12,3 %, chegando a 28,9 mil unidades. O rebanho destinado à produção de leite também recuou de 769,8 mil para 742,5 mil vacas, sinalizando perda de capacidade produtiva.
| Ano | Produção (bilhões L) | Produtores (mil) | Rebanho (mil vacas) | Preço ao produtor (R$ /L) |
|---|---|---|---|---|
| 2015 | 4,58 | 32,8 | 769,8 | 2,76 |
| 2025 | 4,09 | 28,9 | 742,5 | 2,48 |
Custos de insumos em alta e preço do leite em baixa
O Índice de Insumos para Produção de Leite Cru registrou inflação de 2,69 % em abril de 2026, com fertilizantes +12,8 % e energia elétrica +30,6 %. Enquanto isso, o valor pago ao produtor caiu cerca de 10 % nos últimos dois anos, criando um descompasso que compromete a margem de lucro.
Principais desafios apontados pelos produtores
- Remuneração insuficiente (49,52 % das unidades)
- Escassez de mão de obra qualificada (49,33 %)
- Elevado custo de produção (45,73 %)
- Falta de sucessores ou desinteresse familiar (40,75 %)
Impacto na sucessão e na continuidade da atividade
Mais de 40 % dos estabelecimentos relatam que a ausência de descendentes compromete a sustentabilidade da cadeia. Jovens como Fernando Thomas Piper abandonam a lida por falta de perspectiva econômica, enquanto famílias tradicionais vendem rebanhos para quitar dívidas.
Depoimentos que ilustram a crise
Carlos Rebelato, de Palmeira das Missões, descreve a produção como "trabalho só para trabalhar", com preço do leite em R$ 2,48 /L. Marlei Gutowski, após 29 anos, vendeu todas as vacas; Eliziane Moreira, de 27 anos, luta para manter 30 fêmeas em lactação, recorrendo à venda de animais como reserva de emergência.
Iniciativas de mitigação: programas da Emater e cooperativas
O programa Terra Forte, da Emater/RS‑Ascar, oferece linhas de crédito para recuperação de solo e silagem, reduzindo custos de alimentação. Cooperativas têm intensificado assistência técnica, promovendo inseminação artificial e manejo de pastagens para melhorar a eficiência produtiva.
Perspectivas de mercado: importação e concorrência externa
A importação de leite em pó da Argentina e Uruguai, com preço abaixo do nacional, pressiona ainda mais os produtores locais. A desvalorização do produto nacional reduz a competitividade das indústrias gaúchas, que dependem de volume estável para processar queijos e derivados.
Riscos e oportunidades tecnológicas
Automação da ordenha, monitoramento de saúde por sensores e uso de IA para manejo de pastagens podem conter a erosão de margens. Contudo, a adoção desses recursos exige investimento inicial elevado, que poucos pequenos produtores conseguem arcar sem apoio financeiro estruturado.
A Visão do Especialista
Sem políticas públicas robustas que alinhem preço mínimo ao produtor, controle de inflação de insumos e incentivos à sucessão, o setor leiteiro gaúcho tende a se concentrar em grandes conglomerados, abandonando a pecuária familiar. A curto prazo, a tendência é a continuidade da retração; a médio e longo prazo, somente inovações sustentáveis e apoio governamental poderão reverter o quadro e garantir a segurança alimentar regional.
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