Em 15 de maio de 2026, a Biblioteca Mário de Andrade abre suas portas para a montagem "Boca a Boca", que traz à cena a "lira maldizente" de Gregório de Matos. O espetáculo, assinado por Ricardo Bittencourt, chega ao coração do pensamento intelectual paulistano, transformando o espaço de leitura em palco de provocação poética.

Um templo de saber recebe a rebeldia barroca

A Biblioteca Mário de Andrade, inaugurada em 1940, simboliza a consolidação cultural de São Paulo. Seu edifício neoclássico, projetado por Ramos de Azevedo, abriga mais de 3,5 milhões de volumes e funciona como referência acadêmica e ponto de encontro de intelectuais.

Gregório de Matos: o "Boca do Inferno" em exílio

Poeta satírico da Bahia colonial, Gregório foi perseguido pelas autoridades jesuíticas e exilado para o Recife, onde morreu em 1694. Sua obra, marcada por crítica social e linguagem escatológica, permaneceu marginalizada até ser resgatada por estudiosos do século XX.

Da Lisboa ao coração da Consolação

"Boca a Boca" estreou no Instituto Camões, em Lisboa, em 2015, percorrendo Berlim, Salvador e, finalmente, São Paulo. Cada parada acrescentou camadas de interpretação, refletindo o momento histórico de cada cidade.

Cronologia da montagem

  • 2015 – Premiere no Instituto Camões, Lisboa.
  • 2016 – Turnê por Berlim e Salvador.
  • 2018 – Reapresentação em São Paulo, Teatro Oficina.
  • 2026 – Transferência para a Biblioteca Mário de Andrade.

Ironia histórica e arquitetura como palco

A escolha da Biblioteca transforma a "antropofagia ritual" do Teatro Oficina em um diálogo com o cânone literário. O contraste entre as estantes de ouro e a voz áspera de Gregório cria uma tensão que revigora a obra como força viva, não como objeto de estudo morto.

Ricardo Bittencourt e a poética do projétil

Bittencourt trata a palavra como arma, alternando entre deboche escatológico e gravidade metafísica. Seu canto camaleônico, aliado à direção musical de Adriano Salhab, evoca de The Doors a Raul Seixas, convertendo o recital em um show de rock barroco.

Conexões interdisciplinares

Convidados como José Miguel Wisnik, Drauzio Varella e Marina Lima ampliam o debate entre ciência, música e literatura. Cada voz funciona como testemunha contemporânea da urgência gregoriana, reforçando a "justiça poética" proposta pelo espetáculo.

Repercussão no mercado cultural paulistano

Críticos elogiam a ousadia de inserir a poesia do século XVII em um espaço de alta cultura. O público tem sido diversificado, atraindo estudantes, acadêmicos e amantes de música, gerando aumento de 27 % nas visitas à biblioteca nos últimos três meses.

Programação e dados da temporada

DataHorárioLocalDuraçãoEntrada
15/05/2026 a 25/05/202619h (segundas‑feiras)Biblioteca Mário de Andrade – Sala de Leitura60 minGratuita

Especialistas analisam o impacto

O professor João Sanches afirma que a encenação "reaviva a perenidade do discurso gregoriano". Já Wisnik destaca a "convergência entre a erudição das estantes e a energia marginal do poeta". Ambos concordam que a montagem cria um espaço de resistência cultural.

Educação e memória coletiva

A parceria com a Editora Giostri resultou em um livro didático que leva a obra de Gregório às escolas. O projeto visa transformar a "lira maldizente" em ferramenta pedagógica, aproximando jovens leitores da crítica social do século XVII.

Retorno simbólico ao exílio

Ao ocupar o coração da Biblioteca, Gregório completa um ciclo de exílio e retorno que ultrapassa três séculos. O poeta, antes silenciado pelas prensas oficiais, agora ecoa entre milhares de volumes, reafirmando seu papel como voz da resistência.

A Visão do Especialista

Para o crítico cultural Ana Lúcia de Almeida, a montagem sinaliza uma nova era de "teatro de biblioteca", onde o espaço de leitura se converte em arena de debate público. Ela prevê que outras instituições culturais seguirão esse modelo, ampliando o alcance de obras marginalizadas e fortalecendo a interseção entre literatura, música e ciência.

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