O livro "A Globo", uma obra monumental em três volumes e com cerca de 2.400 páginas, foi produzido pelo jornalista Ernesto Rodrigues ao longo de sete anos. O último volume da série, intitulado "Metamorfose", analisa o período de 1999 a 2025 e oferece uma visão crítica sobre a guinada na cobertura política da emissora, especialmente a partir dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). A publicação, lançada em 2025 para coincidir com o aniversário de 60 anos da Rede Globo, utiliza como fontes cerca de 400 depoimentos de funcionários do projeto Memória Globo e mais de 100 entrevistas com protagonistas da história, incluindo os herdeiros de Roberto Marinho.

Jornalista analisando livro sobre cobertura política da Globo durante governos do PT.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

O papel da Globo na política brasileira

A análise de Rodrigues aborda a transformação do posicionamento editorial da Globo, que passou de um viés considerado "governista" para uma postura mais crítica, especialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Segundo o autor, a mudança foi evidente na cobertura de escândalos como o Mensalão, em 2005, e a operação Lava Jato, que culminou na prisão de Lula e no impeachment de Dilma em 2016. Esse período marcou uma ruptura com a linha editorial anterior, que, até 2001, era vista como mais profissional, plural e autônoma, segundo o autor.

Transformações internas e conflitos na emissora

O livro destaca momentos de transição na estrutura da Globo, como a promoção de Marluce Dias da Silva à direção-geral. Sua liderança foi marcada por esforços para desmontar o modelo de gestão anterior, desenvolvido por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. No entanto, a resistência interna foi intensa, com relatos de conflitos e episódios de machismo, que, segundo Silva, impactaram até mesmo sua saúde.

Outro ponto central da obra é a sucessão de Evandro Carlos de Andrade na direção de jornalismo, e os conflitos entre nomes como Carlos Henrique Schroder, Ali Kamel e Amauri Soares, que já se evidenciavam durante a cobertura dos ataques de 11 de setembro de 2001.

A mudança na cobertura jornalística

Rodrigues aponta que, no contexto das eleições de 2002, houve uma reaproximação estratégica entre o PT e a Globo, mediada por Antônio Palocci. Entretanto, a partir do escândalo do Mensalão, a emissora teria adotado uma postura mais agressiva na cobertura do governo federal. Pela primeira vez desde 1965, a redação foi incentivada a utilizar sua ampla estrutura para uma cobertura "ampla, geral e irrestrita" do governo.

O autor também aborda como a Lava Jato foi tratada pela Globo e outros veículos da grande mídia. Ele argumenta que, embora a operação tenha revelado casos de corrupção bilionária, houve pouca ênfase nos excessos cometidos por figuras-chave do processo, como o então juiz Sergio Moro e os procuradores da 13ª Vara Federal de Curitiba.

Repercussões no mercado e na sociedade

A guinada editorial da Globo teve impactos significativos tanto no mercado de comunicação quanto na sociedade brasileira. A emissora foi amplamente criticada por sua suposta parcialidade na cobertura de eventos políticos, o que gerou debates sobre o papel da imprensa na democracia. A postura da Globo também foi vista por alguns analistas como um reflexo de mudanças mais amplas no cenário midiático brasileiro, com a ascensão de novas plataformas digitais e a fragmentação da audiência.

Visão de especialistas e depoimentos

O livro reúne depoimentos de importantes figuras do jornalismo e da política, que oferecem diferentes perspectivas sobre o papel da Globo. Roberto Irineu Marinho, por exemplo, admitiu que a cobertura da Lava Jato foi conduzida de forma "empolgada" pela imprensa, enquanto seu irmão, João Roberto, afirmou não fazer "nenhum reparo" ao trabalho da emissora. Já Ali Kamel, diretor de jornalismo, defendeu as escolhas editoriais, afirmando que tudo foi feito com cautela e precisão.

Críticas à falta de autocrítica

Rodrigues ressalta a ausência de uma autocrítica oficial por parte da Globo sobre sua cobertura dos governos petistas e os escândalos políticos. Ele menciona que, mesmo diante das anulações de processos da Lava Jato pelo Supremo Tribunal Federal, a emissora pouco discutiu os erros cometidos por agentes públicos, concentrando-se apenas nos casos de corrupção revelados.

Impacto na percepção pública

A abordagem da Globo durante os governos do PT gerou um impacto significativo na percepção pública sobre a emissora. Para muitos, a mudança na linha editorial representou um afastamento de sua postura tradicional, enquanto outros a interpretaram como um alinhamento a interesses políticos específicos. Essa dualidade é um dos aspectos mais debatidos na obra de Rodrigues.

Dados relevantes sobre a Rede Globo

Ano Evento Marcante
1965 Fundação da Rede Globo
1995 Evandro Carlos de Andrade assume a direção de jornalismo
2002 Reaproximação entre PT e Globo
2005 Escândalo do Mensalão
2016 Impeachment de Dilma Rousseff

A Visão do Especialista

O trabalho de Ernesto Rodrigues oferece uma análise abrangente de um dos períodos mais controversos da história recente da Rede Globo. A guinada no posicionamento editorial da emissora durante os governos do PT reflete não apenas mudanças internas, mas também o impacto de fatores externos, como a crise política e a transformação do cenário midiático. Especialistas apontam que o livro "Metamorfose" é uma leitura essencial para compreender como a mídia pode influenciar a percepção pública e o debate político em um país.

À medida que o Brasil avança em um cenário midiático cada vez mais fragmentado e polarizado, o estudo do papel histórico de veículos como a Globo é fundamental para entender os desafios enfrentados pela imprensa e pelas instituições democráticas. A obra de Rodrigues lança luz sobre questões que permanecem relevantes e convida a uma reflexão sobre o futuro do jornalismo no país.

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