A fusão nuclear está prestes a se tornar um ponto central da política energética dos Estados Unidos, após a aprovação de um acordo que pode transformar o Trump Media & Technology Group em um dos maiores investidores do setor.

Cientistas trabalham em laboratório com equipamentos de fusão nuclear.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

A fusão nuclear na agenda do governo Trump

O segundo mandato de Donald Trump tem sido marcado por incentivos explícitos à energia de fusão, descrita como "a próxima fronteira da soberania energética". O presidente declarou que a fusão será a base de uma "dominância energética" global.

O acordo entre Trump Media & Technology Group e a TAE Technologies

Em dezembro de 2025, o TM&TG anunciou a fusão com a TAE Technologies, avaliando a entidade combinada em US $ 6 bilhões, com a metade correspondente ao valor da TAE. A conclusão está prevista para o verão de 2026, e a escolha do local da primeira usina ainda está em fase de seleção. O objetivo declarado é iniciar a geração comercial de energia de fusão no início da década de 2030.

Contexto histórico da pesquisa em fusão

Os primeiros experimentos de fusão datam da década de 1950, quando os EUA detonaram a primeira bomba termonuclear nas Ilhas Marshall. Desde então, a comunidade científica tem buscado reações auto‑sustentáveis que produzam mais energia do que consomem. Em 2022, um experimento de laser superou brevemente o limiar de energia líquida, embora ainda não tenha atingido a "ignição" total.

Principais empresas e volumes de financiamento (2020‑2025)

Entre 2020 e 2025, o total de capital privado destinado a projetos de fusão ultrapassou US $ 13 bilhões, um salto de mais de seis vezes em relação ao período anterior. Esse fluxo de recursos permite a construção de protótipos de grande escala, antes impossível por limitações orçamentárias.

Empresa Investimento (US$) Ano de fundação Tecnologia
Commonwealth Fusion Systems (CFS) 3 bilhões 2018 Tokamak de alta‑campo
Helion Energy 1,9 bilhão 2013 Fusão por campo reverso
TAE Technologies 3,5 bilhão 1998 Fusão por plasma de campo avançado
Proxima Fusion 0,8 bilhão (promessa) 2020 Stellarator compacto

Avanços tecnológicos que viabilizam a demonstração

Dois pilares impulsionaram a viabilidade prática: a supercomputação avançada, que modela o comportamento do plasma a temperaturas solares, e os ímãs supercondutores de alta temperatura, capazes de gerar campos magnéticos de mais de 20 tesla. Essas inovações reduziram o custo de construção e aumentaram a estabilidade das reações.

Desafios regulatórios e de licenciamento nos EUA

A Nuclear Regulatory Commission (NRC) ainda não possui um regime específico para usinas de fusão, exigindo adaptações de normas originalmente criadas para fissão. As empresas precisam obter licenças ambientais, de segurança e de conexão à rede elétrica. Até o momento, apenas a CFS recebeu aprovação preliminar para testes de alto desempenho em Massachusetts.

Repercussão no mercado de energia e nas bolsas

Desde o anúncio da fusão Trump‑TAE, as ações de empresas de energia limpa subiram em média 12 % nas bolsas norte‑americanas, enquanto contratos futuros de gás natural registraram queda de 4 %. Analistas apontam que a expectativa de energia "ininterrupta e sem carbono" está reavaliando modelos de investimento em energia tradicional. O mercado vê a fusão como um catalisador de longo prazo para a descarbonização.

Cronologia dos marcos recentes (2022‑2026)

  • 2022 – Experimento de ignição por laser nos Laboratórios Nacional de Lawrence Livermore.
  • 2023 – CFS levanta US $ 863 milhões em rodada liderada por Google e Nvidia.
  • 2024 – Helion anuncia contrato de fornecimento de energia para a Microsoft, com entrega prevista para 2028.
  • 2025 – Anúncio da fusão entre TM&TG e TAE Technologies.
  • 12/05/2026 – Publicação oficial do acordo e início da seleção do local da primeira usina.

Perspectivas de implantação comercial

As projeções indicam que a primeira usina de demonstração deverá entrar em operação em 2030, com capacidade estimada entre 100 MW e 500 MW, suficiente para abastecer cidades de médio porte. A TAE pretende instalar a planta piloto no sudoeste dos EUA, enquanto a CFS foca em um demonstrador na região da Nova Inglaterra. Essas instalações servirão como prova de conceito para futuros projetos de escala gigawatt.

Implicações geopolíticas e de segurança energética

O avanço da fusão nos Estados Unidos intensifica a competição com a China, que já investe mais de US $ 10 bilhões em projetos de fusão estatal. A União Europeia, por meio do Fusion for Energy, também acelera seus programas, criando um cenário de corrida tecnológica que pode redefinir a geopolítica da energia. O domínio da fusão pode transformar a dependência global de combustíveis fósseis em um modelo de energia quase ilimitada.

A Visão do Especialista

De acordo com Chris Mowry, CEO da Type One Energy, "os investimentos atuais são suficientes para validar a ciência, mas ainda não garantem a viabilidade econômica". Ele alerta que a integração à rede elétrica exigirá novos protocolos de controle de frequência e armazenamento. O próximo quinquênio será decisivo para confirmar se a fusão ultrapassará a fase de demonstração e se tornará uma fonte de energia comercialmente competitiva.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos.