O governo de Donald Trump planeja facilitar temporariamente as importações de carne bovina nos Estados Unidos, com o objetivo de combater a alta dos preços locais e garantir maior oferta no mercado interno. Segundo o jornal Wall Street Journal, a medida pode suspender cotas de importação por até 200 dias, abrindo espaço para exportadores brasileiros como Minerva, Marfrig e JBS.

O presidente dos EUA, Trump, analisa políticas de importação de carne para o país, com potencial impacto nas empresas brasileiras.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Entenda o impacto no mercado

Os preços da carne nos Estados Unidos dispararam nos últimos anos. Um relatório do banco Citi aponta que a carne moída acumulou alta de 40% nos últimos cinco anos. O aumento reflete a escassez de oferta interna, resultado da redução do rebanho americano, que atingiu o menor nível em 75 anos, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Com essa escassez, os EUA passaram a depender mais das importações. Em 2021, 10% do consumo doméstico foi suprido por carne importada, e em 2025 esse número chegou a 20%, segundo dados do USDA. Agora, o governo americano busca aliviar a pressão inflacionária, especialmente em um item básico para o consumidor médio.

A posição do Brasil no mercado global

O Brasil é atualmente o maior exportador mundial de carne bovina e, no último ano, também assumiu o posto de maior produtor global, conforme estimativas do USDA. Essa posição foi consolidada em parte pela retração da produção americana e pela crescente demanda internacional.

Em 2025, o Brasil exportou 126 mil toneladas de carne bovina para os EUA, ultrapassando a cota anual de 65 mil toneladas destinada ao país. Apenas nos primeiros quatro meses de 2026, o mesmo montante já foi alcançado, demonstrando o peso das exportações brasileiras no mercado americano.

Como funciona o sistema de cotas nos EUA

Atualmente, os Estados Unidos utilizam um sistema de cotas para limitar as importações de carne bovina. Países como Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai possuem limites específicos, enquanto o Brasil se enquadra na categoria "outros países", com cota anual de 65 mil toneladas.

Acima desse limite, as tarifas de importação são de 26%, o que encarece as exportações. No entanto, com a possível suspensão temporária dessas cotas, o Brasil teria condições de ampliar significativamente suas vendas para o mercado americano, sem os custos adicionais.

Os frigoríficos brasileiros e a oportunidade

Empresas como Minerva, Marfrig e JBS podem ser diretamente beneficiadas pela flexibilização das cotas. Segundo especialistas, a Minerva, que possui um modelo de negócios focado em exportação, seria a maior beneficiada. Já Marfrig e JBS, que possuem operações nos EUA, podem utilizar a medida em estratégias de importação para otimizar suas operações.

Na B3, as ações da Minerva registraram alta de 4,63% após a divulgação da notícia, enquanto os papéis da Marfrig e JBS tiveram quedas menores, mas ainda se beneficiaram da perspectiva positiva no longo prazo.

Repercussão entre os produtores americanos

A flexibilização das importações de carne tende a enfrentar resistência entre os produtores americanos. Historicamente, o setor agropecuário nos EUA é protegido por políticas restritivas para evitar concorrência externa. A oposição já foi observada em ocasiões anteriores, como na abertura para exportações argentinas.

Essa resistência pode gerar debates acalorados entre o governo e representantes do setor agropecuário, especialmente em um ano eleitoral, onde questões econômicas impactam diretamente na popularidade presidencial.

Conexão com o mercado chinês

No cenário global, a China, maior mercado consumidor de carne bovina brasileira, também impôs recentemente restrições por meio de cotas. Com a demanda chinesa limitada, a abertura dos EUA pode oferecer aos produtores brasileiros uma alternativa estratégica para redirecionar suas vendas.

Essa dinâmica global ajuda a evitar que o excedente de carne brasileira, originalmente destinado à China, pressione os preços no mercado interno, como indicam analistas do Citi.

Vantagens e desafios para o Brasil

Embora a abertura do mercado americano seja uma oportunidade para os frigoríficos brasileiros, existe a possibilidade de impacto nos preços domésticos. Com maior demanda externa, os custos da carne no Brasil podem subir, afetando os consumidores locais.

Por outro lado, o setor agropecuário brasileiro, que representa uma parcela significativa do PIB nacional, pode se beneficiar de uma entrada mais ampla no mercado americano, fortalecendo seu papel como líder global.

Comparativo: produção e exportação de carne bovina

País Produção Anual (milhões de toneladas) Exportação Anual (milhões de toneladas)
Brasil 10,5 2,4
EUA 9,7 1,3
China 7,0 0,2

Próximos passos

A decisão final sobre a suspensão das cotas ainda depende de aprovação formal pelo governo americano. Caso implementada, a medida terá duração de 200 dias, com possibilidade de extensão. Especialistas apontam que o Brasil deve se preparar para atender a demanda crescente.

Por outro lado, é essencial monitorar os desdobramentos no mercado interno e buscar equilíbrio entre exportação e consumo doméstico, para evitar impactos negativos aos consumidores brasileiros.

A Visão do Especialista

José Carlos Hausknecht, sócio da MB Agro, destaca que essa flexibilização pode consolidar o Brasil como principal fornecedor de carne bovina para os EUA, especialmente em um momento de escassez. No entanto, ele alerta para os desafios políticos e comerciais que podem surgir, tanto internamente quanto externamente.

"Se o Brasil conseguir aproveitar essa oportunidade sem prejudicar o mercado interno, estará dando um passo estratégico para fortalecer sua liderança global no setor", conclui Hausknecht.

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