Um projeto de lei (PL) em tramitação no Congresso Nacional, que busca redefinir as atribuições da profissão de economista no Brasil, tem gerado intensos debates entre profissionais da área, conselhos regionais e representantes de outras categorias, como contadores e administradores. A proposta, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), visa atualizar a regulamentação da profissão de economista, que está em vigor desde 1951, mas sofre críticas por incluir atividades que poderiam ser vistas como exclusivas desta categoria.

O que prevê o projeto de lei?

O texto do PL busca estabelecer um novo marco regulatório para a profissão de economista, detalhando as atividades que seriam privativas da categoria e outras que seriam facultativas. Segundo a proposta, 12 atividades seriam exclusivas dos economistas, como a realização de perícias econômicas, avaliações de ativos tangíveis e intangíveis, elaboração de pareceres e projetos de viabilidade econômico-financeira, entre outras. Já as atividades consideradas facultativas englobariam funções como a formulação de estratégias empresariais e concorrenciais.

Uma das mudanças mais controversas é a possibilidade de que profissionais de outras áreas possam atuar em certos campos da economia, desde que tenham formação em instituições de ensino que ofereçam disciplinas específicas da área econômica. Para os defensores do projeto, isso amplia a flexibilidade do mercado de trabalho. Porém, críticos temem que tal permissão possa enfraquecer a regulamentação da profissão.

Contexto histórico e necessidade de revisão

A profissão de economista é regulamentada no Brasil desde a Lei nº 1.411, de 1951. À época, o mercado e a economia brasileira possuíam características diferentes das atuais. Segundo o deputado Reginaldo Lopes, a proposta busca alinhar a regulamentação da profissão às transformações ocorridas nas últimas décadas, especialmente no que diz respeito ao papel do economista em um mercado cada vez mais especializado e globalizado.

Na justificativa do PL, argumenta-se que outras profissões, como a de contador, já atualizaram suas regulamentações, enquanto os economistas permanecem regidos por normas antigas. "Sem essa atualização, corremos o risco de restringir o exercício de competências essenciais aos economistas, o que prejudica tanto os profissionais quanto a sociedade", afirmou Lopes em entrevistas recentes.

Impactos no mercado e as críticas ao projeto

Entre as críticas ao PL, destaca-se a preocupação com uma possível judicialização das atribuições profissionais. Representantes de conselhos de contabilidade e administração temem que a proposta possa gerar conflitos de competência entre as categorias, especialmente em atividades ligadas à análise e consultoria econômico-financeira.

O deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), membro da comissão de finanças, tem se posicionado contra o projeto, argumentando que ele intensifica a reserva de mercado para os economistas. Segundo Kataguiri, a proposta cria uma "zona cinzenta" ao definir algumas atividades como exclusivas, mas ainda permitir a participação de profissionais de outras áreas sob determinadas condições.

Visões divergentes dentro da própria categoria

Embora o projeto tenha sido proposto com a intenção de fortalecer a profissão, há economistas que também se opõem à medida. Marcos Lisboa, economista e colunista, criticou a proposta, afirmando que ela pode acabar limitando a atuação de profissionais de outras áreas, como administradores e contadores, em detrimento de uma concorrência saudável. "O bom profissional, independente de qual seja a formação, deve poder trabalhar", declarou Lisboa.

Já Pedro Gomes Afonso, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), defendeu o PL, comparando a necessidade de regulamentação com profissões como engenharia e medicina. Para Afonso, a ausência de critérios claros para a atuação de economistas pode gerar riscos sistêmicos para a sociedade como um todo.

Principais pontos do projeto

  • Atividades exclusivas: Perícia econômica, avaliação de ativos, elaboração de laudos técnico-econômicos, entre outras.
  • Atividades facultativas: Implementação de estratégias empresariais e análise concorrencial.
  • Inclusão de outros profissionais: Permite que não economistas, com formação equivalente, atuem em áreas específicas.
  • Atualização da legislação: Substituição da Lei nº 1.411/1951 para acompanhar as mudanças no mercado.

Possíveis desdobramentos

A aprovação do PL pode abrir precedentes para disputas judiciais entre conselhos profissionais, sobretudo nas áreas de contabilidade e administração. Além disso, há preocupações sobre como a regulamentação será implementada na prática, especialmente no que se refere à supervisão das atividades "exclusivas" e "facultativas".

No entanto, a atualização da lei também pode trazer benefícios, como maior clareza sobre o papel dos economistas e uma proteção mais robusta para os profissionais devidamente qualificados. O debate, no entanto, ainda está longe de um consenso, tanto dentro do Congresso quanto entre os próprios economistas.

A Visão do Especialista

O projeto de lei que busca modernizar a regulamentação da profissão de economista no Brasil reflete uma tensão maior entre a necessidade de proteger determinadas categorias profissionais e a demanda por um mercado de trabalho mais livre e competitivo. Se, por um lado, a regulamentação pode garantir maior qualidade nos serviços prestados, por outro, há o risco de limitar a atuação de profissionais de outras áreas correlatas, como administradores e contadores.

O próximo passo será acompanhar as discussões no Congresso, onde o projeto ainda enfrenta resistência significativa. Também será crucial observar como os conselhos regionais e as categorias impactadas continuarão a se posicionar. Independentemente do desfecho, o debate evidencia a complexidade de equilibrar interesses profissionais e as demandas de um mercado em constante transformação.

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