O orçamento do filme "Dark Horse", que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, sofreu cortes significativos após sua prisão em novembro do ano passado. A produção, liderada pela GoUp e com apoio de figuras políticas como Flávio Bolsonaro e Mário Frias, enfrentou desafios financeiros e polêmicas durante as filmagens realizadas em São Paulo.
Um projeto ambicioso com orçamento apertado
Inicialmente, o longa-metragem contava com um orçamento negociado em cerca de R$ 134 milhões, conforme articulado por Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. No entanto, membros da equipe relataram que, desde o início, a produção já enfrentava restrições financeiras, com cortes em setores como produção e artes.
A situação se agravou após a prisão de Jair Bolsonaro, quando Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp, teria travado o orçamento por completo. "A Karina ficou desesperada e travou o dinheiro", afirmou um profissional do set de filmagem.
Decisão de filmar no Brasil e ajustes no cronograma
Embora inicialmente planejado para ser filmado na Argentina ou no Uruguai, o filme acabou sendo gravado integralmente em São Paulo devido às limitações financeiras. A escolha logística também refletiu o esforço da produção em cortar gastos, mesmo que isso significasse mudanças na abordagem criativa do projeto.
Uma das cenas mais emblemáticas do filme, que retrata a facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha de 2018, exigiu quatro dias de gravação. Apesar do esforço dramatúrgico, a equipe optou por seguir orientações médicas para evitar exageros visuais, como sugerido inicialmente pelo diretor Cyrus Nowrasteh.
Polêmicas nos bastidores
Além de questões financeiras, os bastidores de "Dark Horse" foram marcados por episódios polêmicos. O deputado Mário Frias, produtor-executivo e intérprete do cirurgião que opera Bolsonaro no filme, realizou discursos em almoços com a equipe, exaltando a produção como uma luta "pela liberdade de expressão" e "contra a ditadura". Segundo relatos, tais declarações causaram desconforto entre os profissionais.
Outro episódio envolveu o diretor Cyrus Nowrasteh, que teria feito comentários sobre a tatuagem de um membro da equipe de arte que exibia o símbolo da foice e do martelo, associado ao comunismo. Apesar de descrito pela equipe como um diretor "tipicamente americano", Nowrasteh também foi criticado por tentar dramatizar excessivamente alguns eventos históricos, como a própria cena da facada.
Comparações com outras produções nacionais
Com um orçamento projetado de R$ 134 milhões, "Dark Horse" supera consideravelmente os custos de outros filmes brasileiros reconhecidos internacionalmente, como "Ainda Estou Aqui" (R$ 45 milhões) e "O Agente Secreto" (R$ 28 milhões). No entanto, os cortes impostos durante a produção levantam dúvidas sobre a real magnitude dos recursos aplicados.
Especialistas avaliam que, mesmo com um orçamento inicial elevado, a decisão de cortar gastos e mudar locações pode ter comprometido a qualidade final do filme. Segundo um analista do mercado cinematográfico, "produções políticas geralmente enfrentam desafios adicionais, especialmente quando há polarização ideológica envolvida."
Repercussão política e cultural
O trailer de "Dark Horse" foi exibido durante uma reunião do Partido Liberal (PL), gerando debates sobre o uso de produções cinematográficas como ferramenta política. A cena da facada, apresentada como um conluio contra Bolsonaro, foi alvo de críticas e discussões sobre a veracidade histórica e a intenção por trás da narrativa.
O uso do cinema como propaganda política não é novidade, mas a controvérsia em torno de "Dark Horse" reflete o clima polarizado que permeia o Brasil nos últimos anos. Especialistas apontam que o filme pode ser visto como uma tentativa de reforçar a imagem do ex-presidente junto à sua base eleitoral.
Impacto no mercado cinematográfico
O cenário de cortes e polêmicas em "Dark Horse" levanta questões sobre o futuro do cinema político no Brasil. Apesar de o país contar com produções premiadas internacionalmente, a mistura de narrativa histórica com ideologia partidária pode afastar investidores e limitar o alcance dessas obras.
Produtoras menores, como a GoUp, também enfrentam desafios adicionais, como a escassez de recursos e a dificuldade de atrair talentos dispostos a se envolverem em projetos que geram controvérsias políticas.
A Visão do Especialista
O caso de "Dark Horse" evidencia os riscos de misturar política e cinema em um cenário de polarização como o brasileiro. A produção do filme, marcada por cortes orçamentários, polêmicas e decisões estratégicas controversas, reflete os desafios de criar narrativas que buscam explorar figuras públicas em um contexto ideológico.
Especialistas concordam que, embora o cinema seja uma ferramenta poderosa de expressão, a credibilidade e a qualidade artística não podem ser comprometidas por agendas políticas. O futuro do gênero depende de um equilíbrio entre a liberdade criativa e a responsabilidade histórica, algo que "Dark Horse" parece ter enfrentado com dificuldades significativas.
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