O aumento da cotação do ouro, a Selic em patamar recorde e o endividamento familiar histórico impulsionaram a procura por penhor de joias na Caixa Econômica Federal. Desde a pandemia, casos como o da aposentada Clarice Almeida, 72 anos, ilustram a tendência de usar bens preciosos como garantia de crédito rápido.

Mulheres em fila diante de agência da Caixa, esperando para penhorar joias.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Contexto histórico do ouro e da taxa Selic

O ouro tem sido tradicionalmente considerado reserva de valor em períodos de instabilidade econômica. No Brasil, a taxa Selic, que define o custo do crédito, alcançou 14,75% ao ano em 2026, o nível mais alto em quase duas décadas, pressionando o endividamento das famílias.

Cotação do ouro nos últimos anos

Entre 2022 e 2026, o preço da onça-troy de ouro registrou alta superior a 60%. Essa valorização elevou o preço da joia no mercado interno, tornando o penhor mais atrativo.

AnoPreço (USD/oz)Preço (R$/g)
20221.950350
20232.300415
20242.900520
20255.600900
2026 (abr)4.712760

Penhor de joias na Caixa: como funciona

O penhor consiste em um empréstimo garantido por bens como joias, pratarias, relógios ou canetas de metal precioso. O cliente entrega o item, passa por avaliação técnica e recebe crédito de até 100% do valor estimado, com liberação imediata.

Condições contratuais e taxa de juros

Os contratos de penhor oferecem juros de 2,19% ao mês, prazo máximo de seis meses e possibilidade de renovação. O bem permanece em cofre da Caixa até a quitação; em caso de inadimplência, o item é leiloado.

Volume de penhor de joias na Caixa

O saldo da carteira de penhor de joias da Caixa atingiu R$ 3,2 bilhões em 2025, crescendo 31,24% em relação a 2024. Esse aumento reflete tanto a alta do ouro quanto a necessidade de liquidez das famílias endividadas.

AnoSaldo (R$ bilhões)Crescimento %
20232,44
20242,440,0
20253,2031,24

Especialistas apontam os motivos do crescimento

Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, destaca que "o ouro valorizado permite que o cliente obtenha mais dinheiro com o mesmo bem, melhorando a relação custo‑benefício". A ausência de análise de crédito profunda também atrai consumidores com restrições nos bancos.

Endividamento familiar em recorde

De acordo com a CNC, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2025, o maior índice da série histórica. A inadimplência atingiu 29,6% desse grupo, impulsionada pelas altas taxas de juros.

Influência da Selic nas linhas de crédito

A Selic de 14,75% ao ano eleva os juros de cartões de crédito, empréstimos pessoais e consignados, tornando o penhor uma alternativa mais barata. Enquanto o penhor tem juros de 2,19% ao mês, o consignado público varia entre 1,76% e 2,11% ao mês.

Tipo de créditoJuros médio (a.m.)
Penhor (Caixa)2,19%
Consignado público1,76% – 2,11%
Consignado privado3,57%
Cartão de crédito~10%+

Perfil dos tomadores de penhor

  • Idade média: 45 anos
  • Renda predominante: informal ou aposentada
  • Principal motivo: necessidade de liquidez rápida
  • Presença de restrição de crédito: 38% com nome negativado

Riscos e indicadores de pressão financeira

O aumento do penhor pode sinalizar que famílias recorrem a fontes de crédito fora do radar tradicional. Como o bem já funciona como garantia, o risco sistêmico para o sistema financeiro é menor, porém o indicador de vulnerabilidade das famílias se intensifica.

A Visão do Especialista

Marcos Praça, diretor da ZERO Markets Brasil, conclui que o penhor de joias deve permanecer em alta enquanto a Selic mantiver níveis elevados e o ouro continuar valorizado. Ele alerta que, embora ofereça juros competitivos, a impossibilidade de "rolar" a dívida pode levar a um acúmulo de obrigações em caso de renovação não concedida, exigindo planejamento financeiro cuidadoso por parte dos tomadores.

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