Na última quinta-feira, 14 de maio de 2026, estreou o documentário "A Colisão dos Destinos", dirigido por Doriel Francisco e produzido pelo ex-secretário de Cultura Mario Frias. A obra, que promete apresentar uma "versão humanizada" da trajetória de Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, chegou às salas de cinema com sessões marcadas por baixa adesão do público e críticas quanto à omissão de eventos marcantes de sua carreira política.
Uma estreia com salas vazias
Apesar de ter sido lançado em estados estratégicos como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, a recepção inicial do documentário foi desanimadora. Segundo dados apurados em sessões no interior de São Paulo, em cidades como Embu das Artes, apenas quatro ingressos haviam sido vendidos duas horas antes da exibição. Durante a sessão, a presença foi igualmente tímida, com apenas sete espectadores. Esse cenário evidencia um contraste com a expectativa de público que a produção parecia almejar.
O foco na exaltação e as ausências notáveis
O documentário busca retratar o ex-presidente como uma figura humana e divina, com depoimentos de familiares, aliados políticos e amigos próximos. A produção inclui falas de parlamentares como Nikolas Ferreira e Hélio Lopes, que defendem efusivamente o legado de Bolsonaro. No entanto, a ausência de Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente e figura pública de destaque nos últimos anos, chamou atenção. Suas contribuições e impacto na trajetória política de Bolsonaro foram ignorados, levantando questionamentos sobre o propósito narrativo da obra.
Omissão de eventos históricos e polêmicos
Um dos pontos mais criticados do documentário é a ausência de menções à derrota de Bolsonaro nas urnas em 2022 e sua condenação por tentativa de golpe em 2025. Além disso, acontecimentos marcantes como a CPI da Covid, que pediu o indiciamento do ex-presidente por nove crimes relacionados à pandemia, são completamente omitidos. Essa seletividade na narrativa enfraquece a credibilidade da obra e questiona seu valor histórico.
Contexto histórico e político
Para compreender a recepção do documentário, é crucial analisar o momento político em que foi lançado. Bolsonaro deixou a presidência em meio a uma série de controvérsias, incluindo sua gestão da pandemia, que resultou em investigações e acusações de negligência. Sua derrota nas eleições de 2022 frente a Luiz Inácio Lula da Silva marcou um ponto de inflexão na política brasileira, e os desdobramentos de sua tentativa de golpe em 2025 ainda reverberam.
Repercussão no mercado cinematográfico
Além das questões narrativas, "A Colisão dos Destinos" enfrenta desafios comerciais. A baixa adesão na estreia reflete a polarização em torno da figura de Bolsonaro e a possível falta de interesse do público em consumir conteúdo que não aborda os aspectos mais polêmicos de sua trajetória. O mercado cinematográfico brasileiro, que já enfrenta desafios para atrair público, demonstra resistência a obras com forte viés político.
Financiamento e polêmicas
O financiamento do documentário também é objeto de atenção. Mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil revelaram diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por fraudes financeiras, sobre uma possível captação de R$ 61 milhões para um projeto cinematográfico. Embora essas conversas tenham sido relacionadas a outro filme, "Dark Horse", as controvérsias em torno de financiamento de produções ligadas à família Bolsonaro colocam "A Colisão dos Destinos" sob suspeita.
Estrutura e narrativa do documentário
Com 70 minutos de duração, o documentário segue uma estrutura cronológica, abordando desde a infância e carreira militar de Bolsonaro até seu mandato presidencial. O roteiro, assinado por Doriel Francisco e William Alves, baseia-se em um argumento de Eduardo Bolsonaro e Mario Frias. A obra utiliza materiais de arquivo e depoimentos para construir uma narrativa que celebra o ex-presidente, mas falha em oferecer um panorama completo de sua trajetória.
Impacto na imagem de Bolsonaro
Para aliados, o documentário pode funcionar como uma ferramenta de reafirmação da imagem de Bolsonaro, especialmente em um momento de reconstrução política. No entanto, para críticos e analistas, a obra não contribui para um debate honesto sobre os altos e baixos de sua carreira. A falta de menções a eventos polêmicos pode ser interpretada como uma tentativa de reescrever sua história, ignorando os fatos que marcaram sua gestão.
Comparação com outros documentários políticos
Historicamente, documentários políticos que buscam recontar trajetórias de figuras públicas enfrentam o desafio de equilibrar exaltação e crítica. Exemplos como "O Processo", sobre o impeachment de Dilma Rousseff, e "Democracia em Vertigem", indicado ao Oscar, mostram como é possível articular narrativas que dialogam com o público e o contexto histórico. "A Colisão dos Destinos", no entanto, parece optar por um tom unilateral, distanciando-se da imparcialidade esperada em obras do gênero.
A reação nas redes sociais
Nas redes sociais, "A Colisão dos Destinos" gerou discussões acaloradas. Grupos de apoio a Bolsonaro enalteceram a produção, enquanto críticos apontaram a falta de profundidade e a evidente parcialidade. Memes e postagens satíricas sobre as sessões vazias também ganharam força, gerando um efeito viral que pode impactar negativamente na bilheteria do filme.
Implicações políticas
Embora o documentário tenha sido lançado como uma obra cultural, seu tom político é inegável. Em um cenário de reconstrução do bolsonarismo, a produção surge como uma tentativa de resgatar a imagem do ex-presidente e consolidar sua base de apoio. No entanto, a exclusão de eventos polêmicos pode limitar o alcance da obra, dificultando a conquista de novos adeptos.
A Visão do Especialista
O documentário "A Colisão dos Destinos" emerge como um produto que escancara a tentativa de reabilitação da imagem de Jair Bolsonaro, mas falha em oferecer um retrato completo e honesto de sua trajetória política. Em um mercado cinematográfico cada vez mais exigente, a falta de profundidade e o viés unilateral podem ter comprometido seu apelo, resultando em salas vazias. Para além de ser uma peça de exaltação, a obra deixa um vazio no debate histórico e político, evidenciando a dificuldade de narrativas que ignoram fatos marcantes.
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