Documento dos EUA que propõe tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

O Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) divulgou, em 1º de junho de 2026, um relatório que recomenda a aplicação de uma tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras. O texto, elaborado sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, aponta oito frentes de acusação, das quais seis decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) são citadas como barreiras comerciais que prejudicam empresas norte‑americanas.

Ministro do STF Toffoli e outros 6 ministros discutem decisões que impõem tarifaço nos EUA.
Fonte: www.poder360.com.br | Reprodução

Fundamento jurídico da medida americana

A Seção 301 autoriza a Administração Biden‑Trump a impor sanções comerciais quando um país adota práticas consideradas desleais. O relatório do USTR segue a ordem executiva assinada por Donald Trump em 15 de julho de 2025, que exigiu investigação de "práticas discriminatórias" contra investidores dos EUA. Embora as tarifas ainda não estejam em vigor, elas dependem de audiências públicas previstas na mesma legislação.

As seis decisões do STF apontadas pelo USTR

A primeira decisão citada nominalmente envolve o ministro Dias Toffoli, que, em setembro de 2023, anulou provas de um acordo de leniência da Operação Lava Jato. A medida resultou na extinção de mais de 100 processos contra empreiteiras, gerando alegação de falha no combate à corrupção e, segundo o relatório, desvantagem para empresas americanas sujeitas a rígidos programas de integridade.

A segunda decisão, de 26 de junho de 2025, declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet. O dispositivo original limitava a responsabilidade civil de plataformas digitais sem ordem judicial prévia, e sua alteração cria insegurança jurídica para companhias como X, Meta e Google, que operam no Brasil.

Outras quatro decisões citadas

  • Julho de 2024 – STF manteve a suspensão de incentivos fiscais a fabricantes de veículos elétricos estrangeiros.
  • Novembro de 2024 – Decisão que restringiu a exportação de etanol brasileiro para mercados que exigem certificação de origem.
  • Março de 2025 – Julgamento que ampliou a exigência de licenças de importação para equipamentos de telecomunicações de origem americana.
  • Outubro de 2025 – Voto que reconheceu a constitucionalidade de medidas de proteção ao mercado interno de fertilizantes, limitando a entrada de produtos estrangeiros.

Repercussão no mercado financeiro

Imediatamente após a divulgação, o índice Bovespa recuou 2,3% e o dólar avançou 1,7% contra o real. Analistas atribuem a volatilidade ao risco de aumento de custos de exportação e à possibilidade de retaliações comerciais.

DataBovespaUSD/BRL
30/05/2026 (antes do relatório)112.4505,12
02/06/2026 (após o relatório)109.8505,21

Reação dos governos brasileiro e americano

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a proposta como "interferência injustificada" e prometeu contestar a medida nas vias diplomáticas. O Ministério da Economia já iniciou consultas com representantes do setor exportador para avaliar impactos e elaborar estratégias de mitigação.

Do lado dos EUA, o presidente Donald Trump reiterou que a decisão final sobre a tarifa será tomada em reunião com seu gabinete, destacando que a medida visa "restaurar condições de concorrência equitativas". O subsecretário de Comércio, Katherine Greer, afirmou que as discussões com o governo brasileiro continuam "construtivas", mas que "diferenças substanciais" persistem.

Controvérsias legais e riscos de comércio internacional

Especialistas em direito internacional apontam que a imposição de tarifa pode violar regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), especialmente o princípio de não‑discriminação. A defesa americana pode argumentar que as decisões do STF configuram "barreiras técnicas ao comércio", mas o Brasil tem fundamentos para contestar a medida perante o Órgão de Solução de Disputas da OMC.

Opinião de especialistas em comércio exterior

O professor Carlos Mendes, da Fundação Getúlio Vargas, destaca que "a análise do USTR extrapola o conceito de prática desleal ao incluir decisões judiciais que, embora controversas, são parte do processo democrático". Já a economista Ana Silva, da BNDES, alerta que a tarifa de 25% pode reduzir em até 15% as exportações de bens manufaturados nos próximos dois anos, pressionando a balança comercial.

A Visão do Especialista

Considerando o cenário atual, a imposição da tarifa depende de um processo burocrático que pode se estender por meses, permitindo espaço para negociação. Caso o Brasil consiga demonstrar que as decisões do STF são motivadas por princípios constitucionais e não por protecionismo, há margem para redução ou revogação da medida. Entretanto, a falta de consenso entre os governos pode levar a um impasse que afetará setores estratégicos como tecnologia, energia e agronegócio, exigindo que empresas americanas revisem suas cadeias de suprimentos e que exportadores brasileiros busquem diversificação de mercados.

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