Em uma estratégia que mescla memória afetiva e articulação política, o ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao governo de Pernambuco, João Campos (PSB), realizou uma série de visitas ao Agreste e à Mata Norte do estado, destacando o legado de sua família na política pernambucana. A agenda, que incluiu passagens por Santa Cruz do Capibaribe, Surubim, Limoeiro e Tracunhaém, foi marcada por homenagens ao bisavô Miguel Arraes e ao pai, Eduardo Campos, ambos ex-governadores do estado.

As raízes da estratégia no Agreste
A presença de João Campos no interior do estado não se resume a uma prática de rotina eleitoral. O Agreste, além de ser estratégico na composição do eleitorado pernambucano, foi historicamente um reduto importante para a família Campos-Arraes. O pré-candidato aposta na força simbólica de seu sobrenome para solidificar sua base no interior, onde o capital político de sua família ainda reverbera.
Em Santa Cruz do Capibaribe, por exemplo, o pré-candidato visitou o Calçadão Miguel Arraes de Alencar, obra executada durante a gestão de Eduardo Campos e inaugurada após sua morte em 2014. O local é uma das principais referências do legado administrativo do ex-governador na região.

A evocação do legado de Miguel Arraes
O nome de Miguel Arraes, ícone político não apenas de Pernambuco, mas do Nordeste, foi amplamente citado por João Campos durante suas visitas. Em Surubim, o pré-candidato mencionou o programa Chapéu de Palha, implementado pelo bisavô e amplamente reconhecido por sua relevância para a agricultura familiar no estado.
"Pude ouvir histórias bonitas e emocionantes da trajetória do nosso conjunto político, histórias que vêm de um tempo de luta, que vêm da eletrificação rural, do Chapéu de Palha", destacou João Campos em um dos momentos mais marcantes de sua passagem pela cidade.
A força da memória de Eduardo Campos
Eduardo Campos, último grande líder político da família, também esteve no centro dos discursos. Em Tracunhaém, durante o Dia das Mães, João homenageou sua mãe, Renata Campos, e reiterou a importância do trabalho conjunto de seus pais na valorização da cultura e do artesanato local, citando iniciativas como a ampliação da Fenearte.
"Minha mãe liderou por oito anos o trabalho de cuidado com os artesãos de Pernambuco, sempre ao lado de Eduardo Campos, em uma gestão que expandiu a dimensão da Fenearte e fortaleceu a economia criativa do estado", declarou João.
O contexto político do Agreste
A estratégia de João Campos não pode ser dissociada do contexto político atual em Pernambuco. O pré-candidato enfrenta desafios significativos para se estabelecer no interior, onde sua atuação como prefeito do Recife tem menor impacto. Além disso, o Agreste é o principal reduto eleitoral de Raquel Lyra, ex-prefeita de Caruaru e uma das líderes da oposição no estado.
É importante lembrar também que Santa Cruz do Capibaribe foi a única cidade de Pernambuco onde Jair Bolsonaro superou Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2022. Isso ressalta o caráter polarizado da região, tornando a construção de alianças e a consolidação de apoios ainda mais cruciais para João Campos.
A força simbólica e os riscos da estratégia
A recorrência das menções a Eduardo Campos e Miguel Arraes nos discursos do pré-candidato não é casual. Ao evocar esses nomes, João busca se conectar emocionalmente com eleitores que ainda guardam a memória das gestões familiares como símbolo de progresso e justiça social.
No entanto, a estratégia carrega riscos. O último mandato de Miguel Arraes foi em 1998, há mais de duas décadas, enquanto Eduardo Campos deixou o governo estadual em 2014. Desde então, a política pernambucana passou por mudanças significativas, com o surgimento de novos nomes e forças políticas que podem não se identificar com o legado histórico da família Campos-Arraes.
Análise: Desafios e possibilidades
A movimentação de João Campos pelo Agreste e pela Mata Norte é um indicativo claro de que o pré-candidato reconhece a necessidade de expandir sua base eleitoral para além da capital. Contudo, depender exclusivamente da memória familiar para consolidar sua candidatura pode não ser suficiente em um cenário político tão dinâmico.
Especialistas apontam que, para competir com adversários como Raquel Lyra, João precisará ir além dos discursos nostálgicos e apresentar propostas que dialoguem diretamente com as demandas atuais do interior. Questões como o fortalecimento da agricultura familiar, a segurança hídrica e a geração de empregos serão cruciais para conquistar o eleitorado do Agreste.
A Visão do Especialista
João Campos está apostando em um dos recursos mais poderosos da política: a memória coletiva. No entanto, para transformar nostalgia em votos, ele precisará equilibrar o uso do capital político familiar com propostas concretas e inovadoras que atendam às necessidades do eleitor atual.
Com um cenário político marcado por uma crescente polarização e renovação de lideranças, o pré-candidato do PSB ainda tem um longo caminho a percorrer. Resta saber se sua estratégia de incursão pelo Agreste será suficiente para consolidá-lo como um nome competitivo em todo o estado.

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