O debate sobre a aplicação do VAR (árbitro assistente de vídeo) voltou a ganhar destaque no Brasil após a anulação de um pênalti marcado para o Athletico-PR em partida contra o Palmeiras, válida pela 12ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2026. O lance, ocorrido aos 40 minutos do segundo tempo, gerou grande controvérsia entre ex-árbitros, que divergiram sobre a decisão de Felipe Fernandes de Lima em reverter sua marcação original após revisão no monitor.

A polêmica do lance: o que aconteceu?
O momento decisivo aconteceu quando Benedetti, defensor do Palmeiras, e Viveros, atacante do Athletico-PR, se enroscaram dentro da área durante um cruzamento. Inicialmente, o árbitro assinalou pênalti, alegando que Benedetti havia segurado o adversário. No entanto, após ser chamado pelo VAR — comandado por Marco Aurélio Ferreira —, ele revisou a jogada e decidiu anular a penalidade.
Na visão do árbitro de vídeo, foi Viveros quem segurou o braço do defensor antes de "forçar" a queda, configurando uma simulação. A decisão dividiu opiniões entre ex-árbitros e especialistas, que questionaram não apenas o lance em si, mas também os critérios de intervenção do VAR.
Os argumentos dos ex-árbitros
As opiniões dos ex-árbitros ouvidos pelo UOL evidenciaram a complexidade da decisão. Alfredo Loebeling criticou a utilização do VAR nesse caso, afirmando que "não é um erro grosseiro fora da visão do árbitro, é um lance de interpretação". Segundo ele, o VAR não deveria interferir em situações como essa.
Por outro lado, Manoel Serapião destacou que o pênalti deveria ter sido mantido, pois "Viveros foi segurado pelo Benedetti". Para ele, a intervenção do VAR foi equivocada, já que o lance se enquadra como interpretativo e não como um erro claro e óbvio.
Em um posicionamento oposto, Ana Paula Oliveira e Carlos Eugênio Simon defenderam a decisão do árbitro em campo após a revisão. Para Simon, "o atacante do Athletico prende o braço do adversário junto ao corpo e força a queda", justificando a anulação.
O papel do VAR: quando deve intervir?
O caso reacendeu o debate sobre os limites da intervenção do VAR no futebol brasileiro. O protocolo da tecnologia prevê que o árbitro de vídeo só deve interferir em erros claros e óbvios, ou em situações que fujam do campo de visão do árbitro principal. No entanto, há uma crescente percepção de que no Brasil o VAR tem extrapolado esse princípio, entrando em lances de interpretação, como destacou Loebeling.
Segundo o comentarista e ex-árbitro Emídio Marques, "a intromissão do árbitro de vídeo desvirtua a finalidade do VAR, que é corrigir erros claros e não reavaliar decisões interpretativas do árbitro de campo". Essa crítica reflete uma insatisfação crescente com o uso do recurso no país, que muitas vezes gera mais polêmica do que soluções.
Histórico de polêmicas com o VAR no Brasil
Desde sua implementação no futebol brasileiro em 2019, o VAR tem sido alvo de críticas recorrentes. Ao longo das temporadas, clubes, jogadores e torcedores frequentemente apontaram inconsistências nos critérios adotados para revisão de lances. Em 2023, por exemplo, o uso excessivo do VAR foi tema de discussão no Congresso Técnico da CBF, onde se propôs limitar a quantidade de revisões para evitar interrupções excessivas.
Em competições europeias, como a Premier League, o protocolo de uso do VAR é aplicado de forma mais restrita, com foco em erros claros e evitando revisões constantes. Esse contraste tem alimentado o debate no Brasil sobre a necessidade de ajustes no modelo atual.
As estatísticas do VAR: eficácia ou excesso?
Dados recentes do Campeonato Brasileiro de 2026 indicam que o VAR já interveio em 38% dos jogos nas 12 primeiras rodadas, com uma média de 1,8 intervenções por partida. Embora tenha corrigido erros evidentes em 72% dos casos, em 28% das vezes a decisão gerou questionamentos ou não alterou o resultado final da jogada.
| Temporada | Intervenções do VAR | Erros corrigidos | Jogos revisados |
|---|---|---|---|
| 2023 | 324 | 75% | 45% |
| 2024 | 298 | 78% | 42% |
| 2025 | 310 | 74% | 40% |
| 2026 (até R12) | 144 | 72% | 38% |
Repercussão no mercado esportivo e na CBF
A recorrência de polêmicas envolvendo o VAR tem gerado uma pressão significativa sobre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Clubes têm solicitado maior clareza nos protocolos e mais treinamento para árbitros de vídeo e de campo. Além disso, há quem defenda a implementação de um limite para revisões por partida, a fim de preservar o ritmo do jogo.
No mercado esportivo, os constantes questionamentos sobre a arbitragem têm impacto direto na imagem do futebol brasileiro, influenciando até mesmo negociações de direitos de transmissão. Investidores e patrocinadores têm expressado preocupação com a credibilidade do campeonato.
A Visão do Especialista
O debate sobre o uso do VAR no Brasil evidencia uma questão maior: a necessidade de uniformidade nos critérios de arbitragem. Enquanto ex-árbitros apontam para interpretações divergentes sobre o mesmo lance, é claro que a falta de padronização alimenta a desconfiança de torcedores e clubes. A CBF, por sua vez, precisa revisar urgentemente os protocolos do VAR e investir em capacitação técnica para que as decisões sejam mais claras e menos sujeitas a controvérsias.
No caso específico da partida entre Athletico-PR e Palmeiras, a divergência entre os especialistas reflete a complexidade do lance. No entanto, a intervenção do VAR, embora acertada na visão de alguns, reforçou a percepção de que, no Brasil, a tecnologia é utilizada de maneira excessiva e, muitas vezes, fora de seu propósito original.
Para o futuro do futebol brasileiro, é fundamental que o VAR seja visto como um aliado da arbitragem e não como um elemento de discórdia. Isso só será possível com uma aplicação mais criteriosa e transparente, resgatando a confiança de todos os envolvidos no esporte.
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