O filme "Dark Horse", uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, está no centro de polêmicas por alegações de que seu roteiro foi amplamente baseado em desinformações e narrativas contestadas. Com um orçamento estimado em US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época), a produção foi financiada, em parte, por fundos ligados a Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente.

Produção e financiamento do filme
A produção de "Dark Horse" foi liderada pela Go Up Entertainment, em parceria com o deputado federal Mário Frias. O projeto recebeu aportes significativos, incluindo uma transferência de US$ 10,6 milhões para o fundo Havengate até maio de 2025. Esse fundo é gerido por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Segundo documentos obtidos pela Agência Pública e pelo The Intercept Brasil, houve também movimentações financeiras envolvendo serviços na Hungria e pagamentos ao diretor Cyrus Nowrasteh, que recebeu US$ 57,5 mil. A produção enfrentou questionamentos sobre a origem e a transparência dos recursos utilizados.
Foco do roteiro: uma narrativa heroica
Os irmãos Cyrus e Mark Nowrasteh, responsáveis pelo roteiro, buscaram construir uma narrativa que retratasse Bolsonaro como um herói. Mensagens analisadas pela Agência Pública revelam que os roteiristas solicitaram informações sobre eventos específicos da vida do ex-presidente. Entre os temas abordados, estão sua passagem pelo Exército, a relação com povos indígenas e a Amazônia, e o atentado a faca durante a campanha de 2018.
Em uma das mensagens, os autores descrevem uma cena heroica em que Bolsonaro, após uma longa caminhada entre apoiadores, subiria sozinho ao palco para um "retorno triunfal". A ideia era reforçar uma imagem de perseverança e resiliência, mesmo que confrontada por fatos que contradizem essa narrativa.
Desinformação e inconsistências históricas
A produção do filme enfrentou críticas por basear partes do roteiro em informações desmentidas por investigações e agências de checagem. Por exemplo, os roteiristas mencionam a possibilidade de Bolsonaro ter ajudado as Forças Armadas a localizar o guerrilheiro Carlos Lamarca enquanto ainda era adolescente. Essa narrativa, no entanto, já foi amplamente contestada por historiadores e carece de evidências documentais.
Outro ponto de controvérsia envolve a alegação de que Bolsonaro teria trabalhado diretamente com comunidades indígenas durante sua carreira militar. Segundo registros históricos, o ex-presidente serviu predominantemente em unidades militares no Rio de Janeiro e Mato Grosso, sem evidências de interação significativa com povos indígenas.
O atentado de 2018: versões conspiratórias
O roteiro do filme também abordou o atentado contra Bolsonaro em 2018, incluindo teorias que foram desmentidas por investigações oficiais. De acordo com a Agência Pública, os roteiristas receberam materiais que sugeriam o envolvimento de grupos de esquerda e do narcotráfico, apesar de três inquéritos da Polícia Federal concluírem que Adélio Bispo agiu sozinho e sofria de transtornos psiquiátricos.
Essas teorias conspiratórias, propagadas em vídeos e conteúdos digitais, foram incluídas como referência para a construção do roteiro, questionando a veracidade dos eventos apresentados no filme.
Envolvimento da Brasil Paralelo
A Brasil Paralelo, organização frequentemente associada à disseminação de desinformação política, também desempenhou um papel relevante no desenvolvimento do roteiro. Materiais produzidos pela instituição foram utilizados para embasar cenas e narrativas do filme, suscitando críticas de que a obra estaria promovendo uma visão parcial e ideológica da história brasileira.
Repercussão e críticas ao projeto
A produção de "Dark Horse" gerou reações polarizadas no Brasil e no exterior. Críticos apontam que o filme tenta reescrever a história recente do país com base em informações contestadas, enquanto apoiadores de Bolsonaro defendem a obra como uma tentativa legítima de apresentar sua versão dos fatos.
Além disso, a escolha de roteiristas norte-americanos com pouca familiaridade com a história política brasileira levantou questionamentos sobre a precisão histórica do filme.
Contexto histórico: Bolsonaro e a desinformação
Durante seu mandato como presidente, Bolsonaro foi amplamente criticado por sua postura em relação ao meio ambiente, povos indígenas e direitos humanos. O desmatamento na Amazônia atingiu níveis recordes sob sua administração, e suas declarações frequentemente entraram em conflito com dados oficiais e investigações independentes.
A produção de "Dark Horse", ao adotar narrativas que contrastam com esses fatos, reflete uma estratégia de reinterpretação histórica que não é inédita em cenários políticos polarizados.
Impacto no mercado cinematográfico
Com um orçamento milionário e ambições de alcançar audiências internacionais, "Dark Horse" representa uma das maiores produções cinematográficas já feitas sobre um político brasileiro. No entanto, a controvérsia em torno de sua precisão histórica pode limitar sua recepção crítica e comercial.
Especialistas apontam que filmes biográficos baseados em personagens políticos frequentemente enfrentam desafios em equilibrar narrativa dramática e fidelidade histórica, especialmente em contextos altamente polarizados.
A Visão do Especialista
A polêmica em torno de "Dark Horse" destaca a importância de manter um olhar crítico sobre produções culturais que buscam reinterpretar eventos históricos. Embora seja legítimo explorar diferentes perspectivas em obras de ficção, a utilização de desinformações e narrativas contestadas pode comprometer sua credibilidade e impactar negativamente o debate público.
Para o público, a recomendação é clara: consumir conteúdos com senso crítico, verificando fontes e contrapondo informações. A história recente do Brasil merece ser contada com responsabilidade e respeito aos fatos.
Compartilhe essa reportagem com seus amigos para ampliar o debate sobre o impacto da desinformação na cultura e no cinema!
Discussão