O mundo pode estar à beira de um ressurgimento da epidemia de HIV, segundo alerta do relatório "Unidas e Unidos para acabar com a AIDS", divulgado pelo UNAIDS em julho de 2026. Apesar de avanços científicos promissores, a combinação de cortes no financiamento, redução de serviços comunitários e barreiras ao acesso à prevenção ameaça décadas de progresso.

Um panorama preocupante: os números mais recentes

De acordo com o relatório, 2025 registrou 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS em todo o mundo. Esses números, embora menores do que há 30 anos, sinalizam uma desaceleração nos avanços contra a doença.

Sete países conseguiram reduzir novas infecções em quase 80% desde 2010, enquanto outros 11 atingiram as metas 95-95-95 (diagnóstico, tratamento e supressão viral). Porém, diversas regiões enfrentaram retrocessos, mostrando que os progressos são desiguais e frágeis.

Impactos dos cortes no financiamento global

O financiamento internacional para combater o HIV sofreu uma queda de 18% entre 2024 e 2025, atingindo o menor nível em duas décadas. Países de baixa renda, especialmente na África, dependem de recursos externos para financiar até 90% de suas ações contra a epidemia.

A assistência ao desenvolvimento, que já vinha em declínio, entrou em colapso em 2025, com uma redução de 23%. Isso afetou programas essenciais, como a distribuição de preservativos e o funcionamento de organizações comunitárias.

As desigualdades no acesso à prevenção

Apesar de avanços científicos, como medicamentos preventivos e novas tecnologias semelhantes a vacinas, o maior desafio segue sendo garantir acesso amplo e equitativo. Estima-se que 20 milhões de pessoas precisem de prevenção baseada em antirretrovirais para reduzir significativamente as novas infecções, mas as iniciativas atuais cobrem apenas uma pequena fração dessa demanda.

O Brasil, citado como exemplo positivo no relatório, aumentou em 41% o uso de medicamentos preventivos contra o HIV. Entretanto, enfrenta dificuldades no acesso ao lenacapavir, um medicamento de aplicação semestral, devido à falta de licença voluntária para produção local ou acesso a versões genéricas.

A crise dos serviços comunitários

Os serviços comunitários, essenciais para a prevenção e combate ao HIV, foram gravemente impactados pelos cortes orçamentários. Na África Subsaariana, por exemplo, 80% dos recursos para prevenção vinham de financiamento internacional, que foi drasticamente reduzido.

Um estudo de 2026, envolvendo 47 países, mostrou quedas expressivas na atuação dessas organizações. Sem novos investimentos, muitos serviços comunitários correm risco de colapso, comprometendo o trabalho de base com populações vulneráveis.

A criminalização como obstáculo

Outro ponto de preocupação é o aumento da criminalização de populações vulneráveis. Pela primeira vez, o número de países que criminalizam comportamentos de grupos expostos ao HIV aumentou, o que desencoraja a busca por diagnóstico e tratamento, agravando a vulnerabilidade dessas pessoas.

Populações-chave, como pessoas LGBTQIA+, usuários de drogas injetáveis e trabalhadores do sexo, sofrem com legislações punitivas que dificultam o acesso aos serviços de saúde, perpetuando ciclos de exclusão e infecção.

O papel do Brasil na resposta ao HIV

O Brasil é frequentemente destacado como referência no combate ao HIV, mas enfrenta desafios significativos. O país participa de iniciativas globais e ampliou o acesso à prevenção, mas a falta de parcerias para reduzir custos de medicamentos, como o lenacapavir, ainda é um entrave.

O governo avalia recorrer ao licenciamento compulsório para garantir o acesso a medicamentos de última geração, medida que pode ser essencial para atender à demanda interna.

Avanços científicos: uma luz no fim do túnel

Apesar das dificuldades, a ciência oferece motivos para otimismo. Tecnologias inovadoras, como medicamentos injetáveis de longa duração, estão se mostrando eficazes na prevenção e no tratamento do HIV. No entanto, a eficácia dessas inovações depende da acessibilidade e da distribuição equitativa, especialmente em regiões de baixa renda.

Na África do Sul, negociações para reduzir os custos desses medicamentos já estão em andamento, enquanto iniciativas como a da UNITAID buscam implementar o lenacapavir em escala global, alcançando 3 milhões de pessoas até 2028.

O futuro da resposta global ao HIV

O relatório do UNAIDS enfatiza a necessidade de uma resposta global coordenada para evitar um novo surto da epidemia de HIV. Isso inclui desde a ampliação do financiamento até o combate às desigualdades e à discriminação que dificultam o acesso aos serviços de saúde.

Governos, organizações internacionais e a sociedade civil precisam trabalhar juntos para garantir que os avanços científicos se traduzam em benefícios concretos para as populações mais vulneráveis.

A Visão do Especialista

Diante do alerta do UNAIDS, é imprescindível que os líderes globais reconheçam a gravidade do momento. Retrocessos no combate ao HIV não são apenas uma questão de saúde pública, mas também de justiça social.

O caminho para evitar uma nova epidemia passa por três pilares: financiamento sustentável, ampliação do acesso a tecnologias inovadoras e combate às desigualdades sociais e legais. Sem uma ação conjunta e coordenada, o objetivo de erradicar o HIV como ameaça à saúde pública até 2030 pode se tornar inalcançável.

É essencial que governos, comunidades e organizações internacionais assumam compromissos concretos e imediatos. O futuro de milhões de vidas depende disso.

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