Um crime brutal ocorrido na noite de domingo (26/4) chocou a cidade de Rio Acima, na Grande Belo Horizonte. Gislene Rocha, 43 anos, foi assassinada a tiros dentro de sua residência pelo companheiro, um homem de 46 anos com registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador). O filho dela, de 21 anos, também foi ferido ao tentar defendê-la. O suspeito, que fugiu após o crime, utilizou as redes sociais para justificar seus atos, provocando indignação e acalorando o debate sobre posse de armas no Brasil.

O que é o registro de CAC e por que ele está no centro do debate?
O registro de CAC é concedido pelo Exército Brasileiro a indivíduos que desejam colecionar armas, praticar tiro esportivo ou realizar caça em condições específicas. Esse tipo de licença permite a aquisição de armas de fogo de maior calibre e munições em quantidades superiores às permitidas para cidadãos comuns. No entanto, o aumento no número de registros de CAC nos últimos anos tem gerado preocupações sobre a fiscalização e o uso inadequado dessas armas em situações de violência doméstica e outros crimes.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o número de registros de CAC cresceu mais de 400% entre 2018 e 2023, passando de cerca de 117 mil para mais de 600 mil registros. Essa expansão coincide com flexibilizações nas regras de posse e porte de armas promovidas por governos federais recentes, o que trouxe questionamentos sobre os impactos dessas medidas na segurança pública.
Detalhes do crime: o que se sabe até agora
A vítima, identificada como Gislene Rocha, foi baleada nas costas, pernas e quadril. Segundo relatos de familiares, o suspeito havia passado o dia ingerindo bebidas alcoólicas, mas não demonstrava comportamento agressivo antes do ocorrido. Em determinado momento, após uma conversa no quarto, Gislene correu pedindo ajuda ao filho, que acabou sendo atingido por um disparo no abdômen ao tentar protegê-la.
Após alvejar a companheira, o homem fugiu e, em mensagens publicadas nas redes sociais, afirmou ter agido motivado por ciúmes e acusações de traição. A Polícia Militar realizou buscas na região, mas até o momento ele não foi localizado. Na residência do suspeito, foram apreendidas armas e munições armazenadas em um cofre.
Violência doméstica e armas de fogo: uma combinação letal
Casos como o de Gislene Rocha evidenciam a relação perigosa entre armas de fogo e violência doméstica. Segundo um estudo do Instituto Sou da Paz, a presença de uma arma em casa aumenta em até cinco vezes o risco de feminicídio. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2025, 38% dos casos de feminicídio no Brasil foram cometidos com armas de fogo.
A discussão sobre como regulamentar e limitar o acesso a armas de fogo ganhou força após o aumento de crimes cometidos por pessoas com registro de CAC. Especialistas em segurança pública alertam que a falta de fiscalização adequada pode transformar essas licenças em um canal para o armamento indiscriminado.
O papel das redes sociais no crime
Um aspecto perturbador deste caso foi o uso das redes sociais pelo suspeito para justificar o crime. Em publicações feitas após o assassinato, ele alegou ter "perdido a razão" devido a uma suposta traição. A exposição pública desse tipo de narrativa não apenas reforça estigmas sobre violência de gênero, como também pode ser interpretada como uma tentativa de manipular a opinião pública.
A psicóloga forense Juliana Almeida ressalta que a exibição de justificativas em redes sociais é uma forma de reafirmar o controle sobre a vítima, mesmo após o ato de violência. "É um comportamento que busca legitimar o agressor e minimizar sua responsabilidade, enquanto reforça a culpabilização da vítima", explica.
Impacto na comunidade e na política local
O crime trouxe comoção à cidade de Rio Acima. Gislene Rocha era irmã do vereador Ivanildo Rocha (PP), que lamentou profundamente a perda em nota oficial. A Câmara Municipal também manifestou solidariedade à família e reforçou a necessidade de políticas públicas para combater a violência contra a mulher.
O caso também reacendeu o debate sobre o impacto das políticas de armamento na segurança pública. Parlamentares e organizações da sociedade civil estão cobrando maior rigor na concessão de registros de CAC e no monitoramento de seu uso.
Histórico de feminicídios e a legislação brasileira
O Brasil ocupa uma posição alarmante no ranking de feminicídios. Segundo a ONU, o país está entre os cinco mais violentos para mulheres no mundo. Desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, houve avanços no reconhecimento desse tipo de crime, mas os números continuam altos.
A legislação brasileira prevê penas mais severas para casos de feminicídio, mas especialistas defendem que o problema não pode ser enfrentado apenas com punições. "É fundamental investir em prevenção, como campanhas educativas e medidas de proteção para mulheres em situação de risco", afirma a advogada e ativista Maria Lúcia Monteiro.
A Visão do Especialista
O caso de Gislene Rocha ilustra de forma trágica a confluência de fatores como posse de armas, violência doméstica e negligência na fiscalização. O aumento expressivo de registros de CAC é um tema que exige atenção urgente do poder público. A ausência de mecanismos eficazes de controle transforma a flexibilização no acesso às armas em um risco real para a segurança da sociedade.
Para especialistas, é imprescindível que o governo federal reavalie a regulamentação vigente e fortaleça as políticas de proteção às mulheres. Além disso, é necessário que a sociedade como um todo se engaje em um debate mais profundo sobre masculinidade tóxica, ciúme e violência de gênero, que continuam a ser motores de tragédias como essa.
Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a levar essa discussão adiante. Somente com informação e conscientização será possível prevenir novos casos de violência.
Discussão