A relação entre indígenas e cientistas no contexto do uso da jurema-preta, uma planta central na cosmologia de povos indígenas do Nordeste brasileiro, tem gerado debates intensos e complexos. Essa discussão voltou a ganhar destaque durante o 2º Seminário Medicinas Ancestrais – Jurema: Ciências, Cuidado, Proteção, realizado entre os dias 23 e 26 de maio de 2026, na terra Tapera do povo truká, em Orocó (PE). O evento reuniu mais de 500 participantes, incluindo representantes de diferentes etnias, pesquisadores e profissionais de saúde, para debater os desafios e as oportunidades de diálogo entre a ciência acadêmica e os saberes tradicionais.

Jurema-preta: mais que uma planta, um símbolo cultural e espiritual

A jurema-preta, ou Mimosa tenuiflora, é uma planta nativa da caatinga brasileira e desempenha um papel central nos rituais espirituais e medicinais de várias comunidades indígenas e afro-brasileiras. É a base para o preparo do anjucá, ou vinho da jurema, uma bebida psicoativa utilizada em cerimônias como os torés e mesas fechadas. Durante esses rituais, é comum a incorporação de entidades espirituais conhecidas como encantados.

A substância ativa da raiz da jurema-preta, a N,N-dimetiltriptamina (DMT), tem demonstrado potencial terapêutico em estudos clínicos, especialmente no tratamento de transtornos como depressão e estresse pós-traumático. Trata-se de um psicodélico que também é encontrado na ayahuasca, outra bebida de origem indígena produzida na Amazônia.

O embate de saberes: ciência acadêmica versus ciência ancestral

No centro do debate entre indígenas e cientistas está o choque entre duas formas distintas de compreender e interagir com o mundo. Para os povos indígenas, a jurema-preta carrega um significado espiritual e cultural profundo, sendo uma ponte para o mundo dos encantados e uma ferramenta de cura integral que vai além do aspecto físico.

Já a ciência acadêmica, herdeira do racionalismo e do empirismo modernos, busca entender e isolar os compostos ativos da planta para criar tratamentos padronizados e replicáveis, muitas vezes desconsiderando os contextos espirituais e culturais onde esses saberes se originaram. Como destacou Zenilda Xukuru, uma anciã presente no seminário, "Estão desencantando a nossa Jurema, e isso dói muito".

As tensões em torno da biopirataria

Um dos maiores pontos de atrito entre os dois grupos é a questão da biopirataria e da apropriação de conhecimentos tradicionais. Indígenas temem que os saberes transmitidos por gerações sejam utilizados sem o devido reconhecimento ou repartição de benefícios. Esse receio foi destacado por Pretinha Truká durante o seminário, ao afirmar que "um dos intuitos da academia é patentear e vender o que tiraram da gente".

Embora alguns pesquisadores defendam o uso de versões sintéticas da DMT, como as desenvolvidas pelo químico Richard Manske em 1931, o custo elevado dessas substâncias – cerca de R$ 12 mil por grama – limita sua acessibilidade. Em contraste, a extração da substância diretamente da raiz da Mimosa tenuiflora custa aproximadamente R$ 50 por grama, o que reforça a disputa sobre o uso da planta.

Uma ciência que reconhece a diversidade

Durante o seminário, algumas vozes emergiram em defesa de um diálogo mais profundo entre os diferentes sistemas de conhecimento. O psicólogo Alexandre Franca Barreto, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), destacou que "existe a ciência truká, e cada povo tem a sua ciência". Por sua vez, Bino Truká, líder indígena, enfatizou que sua formação vem da "universidade da natureza, dos encantados de luz".

Essas declarações apontam para uma perspectiva mais inclusiva, que reconhece a legitimidade do saber ancestral e a possibilidade de coexistência com a ciência acadêmica. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para que essa integração se torne realidade.

Benefícios terapêuticos e o papel da relação comunitária

Os psicodélicos, como a DMT, têm ganhado atenção por sua capacidade de promover experiências transformadoras que podem aliviar sintomas de depressão, ansiedade e outras condições psicológicas. Contudo, como apontou o psicólogo Geovan Cardoso dos Santos, do terreiro Aldeia Pena Branca, "na comunidade, a cura se dá na relação. O cuidado da Jurema é do vínculo, da relação". É essa dimensão comunitária e relacional que muitas vezes falta na abordagem biomédica tradicional.

Embora a biomedicina tenha avançado significativamente no desenvolvimento de tratamentos baseados em evidências, muitos especialistas reconhecem suas limitações. Atualmente, cerca de 30% dos pacientes com depressão grave permanecem sem um tratamento eficaz. Essa lacuna no tratamento tem levado a um interesse renovado por abordagens que integrem elementos das medicinas tradicionais.

A Visão do Especialista

O debate sobre a jurema-preta e seu potencial terapêutico vai muito além da ciência ou da espiritualidade. Ele toca em questões éticas, culturais e sociais que precisam ser abordadas com sensibilidade e respeito mútuo. Para que haja uma verdadeira integração entre a ciência acadêmica e os saberes ancestrais, é fundamental garantir o reconhecimento e a valorização das tradições indígenas, bem como a repartição justa dos benefícios derivados desses conhecimentos.

Alguns avanços já podem ser observados, como a disposição de pesquisadores e líderes indígenas para dialogar e buscar consensos. No entanto, é essencial que as instituições acadêmicas e os órgãos reguladores no Brasil criem políticas claras para proteger os saberes tradicionais e promover a ciência colaborativa.

O potencial terapêutico da jurema-preta é inegável, mas sua exploração deve ser conduzida de forma ética e responsável, respeitando o caráter sagrado que a planta possui para os povos indígenas. Nesse sentido, o Brasil tem a oportunidade de se tornar um modelo global na integração de medicinas ancestrais e ciência contemporânea, promovendo tratamentos que sejam não apenas eficazes, mas também culturalmente sensíveis e inclusivos.

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