O crime organizado domina a oferta de internet em 37 cidades do Rio de Janeiro, cobrando taxas de extorsão e incendiando equipamentos de operadoras. A prática, que começou em áreas controladas por milícias, já se espalhou para territórios dominados por traficantes, como o Comando Vermelho, e afeta toda a cadeia de telecomunicações.

Origens da exploração ilegal
Nos primeiros anos da década, milícias da Baixada Fluminense monopolizaram postes e cabos para extorquir provedores. Essa estratégia de "sinal pago" foi rapidamente copiada pelo tráfico, que viu na internet uma fonte de renda estável e de fácil cobrança nas comunidades.
Escala e abrangência

Um levantamento do Extra aponta que 37 dos 92 municípios do estado já registram a prática. As denúncias cresceram de 1.772 em 2024 para 2.047 em 2025, e até 8 de maio de 2026 somam 593 novos relatos, com a capital liderando (279 denúncias).
| Ano | Denúncias registradas | Crescimento % |
|---|---|---|
| 2024 | 1.772 | - |
| 2025 | 2.047 | 15,5% |
| Jan‑Mai/2026 | 593 | 28,9% (proj.) |
Modus operandi das facções
Os grupos criminosos utilizam duas frentes: empresas de fachada com exclusividade territorial e cobrança de "taxa de permissão" às operadoras. Em bairros como Campos Elíseos e Saracuruna, em Duque de Caxias, a taxa pode chegar a 50 % do valor cobrado ao consumidor final.
Impacto econômico
Estima‑se que o crime gere arrecadação mensal de R$ 3 milhões para as facções. Para o setor privado, o efeito é devastador: um provedor perdeu 10 mil clientes em São Gonçalo, reduzindo em 10 % a expansão prevista e impedindo a geração de cerca de 150 empregos formais.
Incidentes violentos registrados
Desde janeiro de 2026, ao menos quatro ataques incendiários foram confirmados. Em 6 jan, o carro de uma empresa foi queimado em Cachoeiras de Macacu; em 22‑23 mar, escritórios e veículos foram incendiados em Japeri e Paracambi; e em 28 abr, um técnico teve seu veículo destruído em Maricá.
Reação das autoridades
O delegado Pedro Brasil, da DDSD, aponta a falta de controle territorial como principal obstáculo ao combate. No âmbito da ADPF 635, o governo estadual prepara um Plano de Reocupação Territorial que inclui a substituição de cabos por transmissão via rádio nas áreas reconquistadas.
Operações de inteligência
Pablo Sartori, subsecretário de Inteligência da SSP, identificou 18 empresas ilegais operando em zonas como Muzema e Rio das Pedras. As ações visam desarticular a estrutura financeira das facções e impedir a expansão do modelo de extorsão.
Repercussão no mercado de telecomunicações
Operadoras e o sindicato Conexis Digital denunciam bloqueios que impedem manutenção e instalação de equipamentos. A restrição afeta a qualidade do serviço e coloca em risco a integridade das equipes técnicas, exigindo ação coordenada entre Poder Executivo, Legislativo e Judiciário.
Consequências sociais e de emprego
Empresas que abandonam áreas dominadas por criminosos deixam de atender 27 bairros em São Gonçalo, reduzindo seu faturamento em 10 %. O efeito cascata inclui diminuição de investimentos, queda na geração de empregos e aumento da vulnerabilidade digital das populações afetadas.
A Visão do Especialista
O controle da infraestrutura de internet tornou‑se a espinha dorsal da economia paralela do crime organizado. A tendência aponta para a consolidação de redes de rádio como alternativa viável, mas somente se acompanhada de segurança efetiva e reintegração territorial. O sucesso do plano de reocupação dependerá da capacidade do Estado de garantir proteção às equipes de manutenção e de oferecer incentivos financeiros às operadoras que investirem em áreas antes dominadas por facções.
Compartilhe essa reportagem com seus amigos.
Discussão