Latinos são generosos, mas a filantropia requer uma mudança de mentalidade, afirma a vice‑presidente da Fundação Rockefeller. Em entrevista à Folha, Lyana Latorre, que lidera a unidade latino‑americana da instituição, destaca que a cultura de doação ainda está ancorada na caridade, não na filantropia estratégica.

Homem de negócios latino-americano conversa com o vice-presidente da Rockefeller sobre filantropia.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Contexto histórico da Fundação Rockefeller

Fundada em 1913, a Rockefeller acumula US$ 6 bilhões em patrimônio. Após décadas de atuação na África e Ásia, a entidade retomou presença na América Latina em 2025, coincidindo com a retirada da USAID e criando um ponto de inflexão para o financiamento internacional.

Visita de Lyana Latorre ao Brasil

Homem de negócios latino-americano conversa com o vice-presidente da Rockefeller sobre filantropia.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Durante a semana da Copa do Mundo, a executiva colombiana celebrava a vitória 3 a 1 da Colômbia sobre o Uzbequistão. Em sua sexta visita ao Brasil, Latorre ressaltou a afinidade cultural entre os povos, mas apontou que "torcemos como se torce no Brasil", reforçando o vínculo emocional que pode ser canalizado para iniciativas de impacto.

Distribuição dos recursos em 2025

RegiãoValor (US$ milhões)Representatividade %
América Latina & Caribe5917%
África12034%
Ásia14040%
Outras regiões319%

Os US$ 350 milhões distribuídos em 2025 revelam a prioridade estratégica da fundação para a região. Alimentação escolar, saúde, energia limpa e agricultura regenerativa são os pilares de investimento.

Da caridade à filantropia: a mudança de mentalidade

"Somos generosos, mas isso é caridade, não filantropia", declara Latorre. Ela propõe substituir termos como "doação" e "beneficiário" por "contribuição" e "parceria", alinhando o discurso ao modelo de negócios de impacto.

Estratégia de parceria multissetorial

Rockefeller busca criar alianças entre ONGs, bancos multilaterais, setor privado e governos. O objetivo é mobilizar recursos financeiros, assistência técnica e escalabilidade, superando a simples entrega de cheques.

Desconfiança nas ONGs e o papel da confiança institucional

Estudos de percepção mostram que apenas 28 % da população latino‑americana confia plenamente em organizações não governamentais. A estratégia de cooperação multissetorial visa aumentar a transparência e a credibilidade.

Brasil como polo de inovação socioambiental

Nos últimos cinco anos, o Brasil liderou a região em fundos catalíticos, crédito de carbono e agricultura familiar. Segundo a ABIF (Associação Brasileira de Impacto Financeiro), o volume de investimentos filantrópicos no país cresceu 45 % entre 2020 e 2025.

Projetos emblemáticos no território brasileiro

  • Parceria com a Fiocruz em campanhas sanitárias.
  • Fortalecimento do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) com compra direta de alimentos de pequenos agricultores.
  • Suporte técnico a universidades para desenvolvimento de tecnologias de energia limpa.

Essas iniciativas combinam recursos financeiros com know‑how, gerando efeitos multiplicadores nas comunidades atendidas.

Inovação tecnológica na Colômbia: Dengue.IA

Em Cali, a Rockefeller coordenou 21 parceiros para criar a plataforma Dengue.IA, que prevê surtos com 93 % de precisão. O caso demonstra como a filantropia pode impulsionar soluções baseadas em dados e inteligência artificial.

Metodologia orientada por indicadores

Todos os projetos são avaliados por KPIs claros: taxa de escalabilidade, retorno social (SROI) e redução de emissões de CO₂. Essa abordagem estatística garante que o capital seja alocado onde gera maior impacto sistêmico.

Desafios políticos e a neutralidade da fundação

A Rockefeller mantém uma política de não financiar diretamente causas de democracia ou direitos humanos. A experiência de 113 anos em ambientes políticos voláteis demonstra a capacidade de adaptar projetos sem comprometer a neutralidade institucional.

Perspectivas para o futuro da filantropia na América Latina

Com a retomada do escritório em Bogotá, a fundação pretende ampliar seu portfólio de alianças estratégicas. O foco será em modelos de negócio sustentáveis que permitam a autossuficiência das organizações locais.

A Visão do Especialista

Para consolidar a filantropia como motor de inovação, é imprescindível transformar a generosidade em investimento de longo prazo. A mudança de linguagem, a adoção de métricas rigorosas e o fortalecimento de ecossistemas multissetoriais são os alicerces que permitirão à América Latina transitar de um modelo de caridade pontual para uma filantropia estruturada e escalável.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos.