O colapso de cinco bairros em Maceió (AL), que resultou no deslocamento forçado de mais de 40 mil pessoas, é o foco do livro-reportagem "Cidade Rachada", de Cristina Serra. A obra investiga as raízes de quase quatro décadas de exploração de sal-gema pela Braskem, responsável pelo maior desastre ambiental em área urbana no Brasil. Por meio de entrevistas com mais de cem pessoas e uma análise detalhada de documentos históricos, Serra reconstrói a trajetória de negligência que culminou no afundamento de parte da capital alagoana.
O início da exploração: a chegada da Salgema
A exploração de sal-gema em Maceió remonta à década de 1940, quando jazidas foram descobertas em áreas urbanas e próximas à Lagoa Mundaú. Foi a partir de 1976, com a criação da empresa Salgema, que a extração começou a ser realizada em larga escala. Posteriormente, a companhia se transformou na Trikem em 1997 e, em 2002, deu lugar à Braskem, que se tornaria uma gigante da indústria petroquímica brasileira.
Desde o início, especialistas apontavam os riscos associados à exploração em áreas urbanas, incluindo a possibilidade de subsidência do solo — fenômeno que, eventualmente, causaria os afundamentos e rachaduras que devastaram os bairros de Pinheiro, Bebedouro, Mutange, Bom Parto e parte do Farol. Contudo, alertas técnicos foram ignorados, em boa parte devido aos interesses econômicos da empresa e à conivência de governos estaduais, incluindo o período da ditadura militar.
Impactos ambientais e sociais do desastre
O livro de Serra detalha como a exploração desenfreada resultou em um colapso socioambiental sem precedentes. Desde 2018, quando um tremor de terra desencadeou rachaduras e crateras no bairro do Pinheiro, a situação evoluiu para o esvaziamento de mais de 14,5 mil imóveis, a maioria já demolida. A tragédia impactou profundamente a vida de milhares de pessoas que perderam suas casas, memórias e, em alguns casos, a própria identidade cultural. Muitos dos afetados passaram décadas vivendo nos bairros afetados, que abrigavam histórias familiares e sonhos de uma vida estável.
A Lagoa Mundaú, um importante ecossistema de manguezal, também foi severamente impactada pelas atividades de mineração. A proximidade das perfurações com áreas sensíveis e habitadas levantou questões sobre a falta de regulamentação ambiental eficaz e a ausência de fiscalização, fatores que contribuíram para a magnitude do desastre.
A escalada da crise e a resposta tardia
Os primeiros sinais de instabilidade no solo foram percebidos anos antes do colapso em 2018. Moradores relataram rachaduras em suas residências, mas, por medo de desvalorização imobiliária, preferiram realizar reparos por conta própria e evitar a divulgação do problema. Foi apenas após o tremor de 3 de março de 2018 que a gravidade da situação se tornou inegável, forçando intervenções emergenciais.
Em 2019, a Braskem foi obrigada a interromper a exploração nas minas e iniciou um processo de fechamento das cavidades subterrâneas, com o objetivo de minimizar os riscos de novos desastres. No entanto, a resposta tardia foi insuficiente para evitar a destruição de bairros inteiros.
Conflitos legais e questões de posse
Paralelamente ao processo de realocação dos moradores, surgiram disputas legais. No início de 2026, a Defensoria Pública de Alagoas entrou com uma ação para impedir que a Braskem se considerasse proprietária das áreas afetadas. A empresa vinha firmando acordos de compra e venda com os moradores, obrigando-os a transferir a posse de seus imóveis como condição para receberem indenizações. A situação gerou controvérsia, levantando questões éticas e jurídicas sobre a responsabilidade da companhia no desastre.
O impacto na saúde mental das vítimas
Além das perdas materiais, o livro aborda os impactos psicológicos profundos causados pela tragédia. A desestruturação das comunidades e a incerteza sobre o futuro levaram a um aumento significativo nos casos de depressão, ansiedade e até suicídio. No primeiro capítulo, Serra relata o caso de um policial civil que tirou a própria vida em frente à casa onde havia investido toda a sua vida, em um ato de protesto contra a destruição de seu lar.
O papel do poder público e a omissão histórica
A obra de Cristina Serra também lança luz sobre a responsabilidade do poder público no agravamento da crise. Desde a década de 1980, quando uma comissão foi formada para avaliar os riscos da mineração em Maceió, havia evidências claras de que a proximidade das perfurações com áreas urbanas representava uma ameaça. Ainda assim, medidas efetivas para prevenir o desastre nunca foram implementadas, seja por negligência ou por conivência com interesses econômicos.
O maior desastre ambiental em área urbana no Brasil
O colapso dos bairros de Maceió é considerado o maior desastre ambiental em área urbana no Brasil. Para além dos danos locais, o caso levanta questões sobre a governança ambiental no país e a necessidade de revisão nas políticas de licenciamento e fiscalização de atividades mineradoras. A falta de transparência e a priorização de interesses econômicos sobre a segurança da população são apontadas como fatores determinantes na tragédia.
A Visão do Especialista
"Cidade Rachada" é mais do que um relato de um desastre; é um alerta para os limites da exploração de recursos naturais em áreas habitadas. A obra de Cristina Serra revela um padrão preocupante de negligência e omissão que, infelizmente, não é exclusivo de Maceió. O caso reforça a importância de um controle rigoroso sobre atividades mineradoras, especialmente em regiões densamente povoadas.
Para o futuro, é essencial que lições sejam tiradas dessa tragédia. A regulamentação deve ser fortalecida, e mecanismos de fiscalização precisam ser aprimorados para evitar que desastres semelhantes se repitam. Além disso, é imperativo garantir que as comunidades afetadas tenham acesso a justiça, reparação adequada e apoio para reconstruir suas vidas.
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