Luiz Carlos Barreto, um dos pilares do cinema brasileiro, faleceu nesta quarta‑feira (22/7) aos 98 anos, no Hospital Copa Star, em Copacabana. O produtor, conhecido como "Barretão", deixa um legado de seis décadas que marcou a história audiovisual do país.

Do jornalismo ao Cinema Novo
Antes de se tornar produtor, Barreto foi jornalista e fotógrafo na revista "O Cruzeiro", onde cobriu a França e se casou com Lucy Barreto. A experiência internacional e o contato com o Partido Comunista moldaram sua visão crítica, preparando o terreno para a entrada no movimento que revolucionaria o cinema nacional.
Encontro decisivo com Glauber Rocha
O contato com Glauber Rocha em 1962 foi o ponto de inflexão que trouxe Barretão para o Cinema Novo. Ao apoiar "Barravento", ele passou de repórter a produtor, adotando a estética do realismo social e a linguagem de protesto que caracterizaria a década de 1960.
LC Barreto: Uma fábrica de clássicos
Em 1963, Luiz Carlos e Lucy fundaram a produtora LC Barreto, que viria a gerar quase cem títulos, entre longas, curtas, séries e documentários. A casa de Botafogo tornou‑se o ponto de encontro informal dos cineastas do novo, fomentando a produção independente.
Chronologia de marcos
- 1962 – Primeiro contato com Glauber Rocha (produção de "Barravento").
- 1963 – Fundação da LC Barreto.
- 1976 – Lançamento de "Dona Flor e seus dois maridos".
- 1995 – Indicação ao Oscar com "O Quatrilho".
Marcos de bilheteria e reconhecimento internacional
"Dona Flor e seus dois maridos" (1976) alcançou mais de 10 milhões de espectadores, mantendo-se como recorde de bilheteria por três décadas. Outros títulos como "Bye Bye Brasil" (1980) e "Ele, o Boto" (1987) consolidaram a reputação da produtora no mercado interno e nas festivais.
| Filme | Ano | Bilheteria (milhões) |
|---|---|---|
| Dona Flor e seus dois maridos | 1976 | 10,2 |
| Bye Bye Brasil | 1980 | 2,8 |
| O Quatrilho | 1995 | 1,5 |
| O que é isto, companheiro? | 1997 | 1,3 |
Indicações ao Oscar e projeção global
A LC Barreto foi a primeira produtora brasileira a alcançar duas indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. "O Quatrilho" (1995) e "O que é isto, companheiro?" (1997) abriram portas para co‑produções e atraíram investimento estrangeiro ao cinema nacional.
Os últimos anos e o adeus
Há mais de dois anos, um acidente deixou Barretão paraplégico, e em julho de 2026 ele foi internado por pneumonia. O velório ocorreu no Palácio da Cidade, em Botafogo, seguido de cremação no Memorial do Caju, reunindo familiares e figuras do meio audiovisual.
Impacto no mercado contemporâneo
O acervo de Barretão tem sido revitalizado por plataformas de streaming, que relançam obras como "Vidas Secas" e "Memórias do Cárcere". Essa circulação renovada gera novas receitas, incentiva a pesquisa acadêmica e mantém viva a estética do Cinema Novo nas novas gerações.
A Visão do Especialista
Para o crítico de cinema Carlos Alberto de Souza, a partida de Barretão representa "o fim de uma era de produção independente que ainda ecoa nas políticas de financiamento atuais". Ele alerta que, sem a liderança de figuras como Barreto, o Brasil corre o risco de perder a capacidade de produzir conteúdo de relevância social com viabilidade comercial. O futuro do cinema nacional dependerá de novos produtores que saibam equilibrar a tradição do realismo crítico com as demandas do mercado digital.
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