"Não perguntamos nem respondemos, nós criamos". Com esta frase, a bailarina e coreógrafa Marika Gidali resume o papel transformador da arte em um dos períodos mais sombrios da história brasileira: a ditadura militar. Fundadora do Ballet Stagium, uma das companhias de dança mais longevas do Brasil, Marika celebra 89 anos em 29 de abril de 2026 com o lançamento de sua autobiografia, De Corpo e Alma, que revisita décadas de luta, resiliência e expressão artística em tempos de repressão.
O Ballet Stagium e o contexto da ditadura
O Ballet Stagium nasceu em 1971, em meio à ditadura militar brasileira (1964-1985), um período marcado por censura, perseguições políticas e cerceamento das liberdades individuais. A criação do Stagium não foi apenas um ato artístico, mas um gesto de resistência. Marika Gidali e Décio Otero, seu parceiro na vida e na dança, encontraram na arte uma forma de abordar temas sociais e políticos que não podiam ser discutidos abertamente.
Enquanto o teatro e outras manifestações culturais enfrentavam censura direta, a dança contemporânea permitiu que questões como opressão, desigualdade e liberdade fossem traduzidas em movimentos corporais. "O teatro estava calado, não podia falar nada, e nós começamos a dançar tudo isso", relembra Marika.
Arte como resistência: a ousadia do Stagium
A proposta do Ballet Stagium era clara: usar a dança para promover reflexões, mesmo que indiretamente. Espetáculos como Kuarup e Prelúdio da Libertação abordavam temas sensíveis, como a relação dos povos indígenas com a sociedade brasileira e a luta por justiça social. O grupo também inovou ao se apresentar em espaços alternativos, como escolas públicas e favelas, levando a dança para além das tradicionais salas de espetáculos.
Essa abordagem acessível e inclusiva era, por si só, um ato de desobediência civil em um regime que buscava controlar tanto o acesso à cultura quanto o discurso social. O Stagium desafiava a ideia de que a arte era um privilégio das elites, conectando-se diretamente com o povo.
O impacto de Marika Gidali na dança brasileira
Marika Gidali, nascida na Hungria em 1937, chegou ao Brasil em 1947, fugindo das atrocidades da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto. Sua trajetória pessoal é intrinsecamente ligada às lutas que ela trouxe para os palcos. Essa bagagem de superação e resistência moldou sua visão de mundo e sua arte, transformando-a em uma das figuras mais icônicas da dança brasileira.
No Ballet Stagium, Marika não apenas desafiou a ditadura, mas também ajudou a quebrar barreiras no universo da dança, incentivando uma nova geração de bailarinos e coreógrafos a explorar temas sociais e políticos. Sua contribuição vai além da técnica e da estética: é uma lição de como a arte pode ser uma ferramenta de transformação.
A autobiografia e o legado de uma vida dedicada à arte
Em De Corpo e Alma, publicado pela editora Sarabanda, Marika compartilha reflexões baseadas em mais de 50 diários que manteve ao longo de sua vida. A obra não é apenas uma biografia, mas um retrato íntimo de uma mulher que desafiou as adversidades e fez da dança sua forma de expressão mais pura.
O lançamento do livro será acompanhado por um espetáculo do Ballet Stagium, Sair Pro Mar, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. A obra celebra não apenas a vida de Marika, mas também o impacto contínuo de sua companhia na cena cultural brasileira.
O papel do Ballet Stagium hoje
Mesmo após cinco décadas, o Ballet Stagium segue relevante. A companhia continua a levar espetáculos a escolas e comunidades carentes, mantendo viva a essência de sua fundação: a arte como um direito de todos e como um veículo de transformação social.
Com a morte de Décio Otero, em 2025, Marika assumiu sozinha a liderança do grupo. Apesar do luto, ela reiterou seu compromisso com o legado que construíram juntos. "Ele falou: 'Viva cada momento da sua vida, porque é o único. Viva muito'", recorda a bailarina.
O impacto cultural e social do Ballet Stagium
O Ballet Stagium transformou a dança no Brasil ao inseri-la no debate social. Seu trabalho inspirou outras companhias a adotarem a arte como forma de resistência e reflexão. Para além da técnica, o Stagium mostrou que a dança pode ser um ato político, um meio de questionar estruturas opressoras e dar voz aos marginalizados.
Segundo especialistas, o impacto do Stagium não reside apenas em sua longevidade, mas na capacidade de se reinventar e continuar relevante em um cenário cultural em constante transformação. É um exemplo de como a arte pode sobreviver e prosperar mesmo em condições adversas.
A visão do especialista
Marika Gidali é um exemplo vivo de como a arte pode transcender o entretenimento e se transformar em um agente de mudança. Sua trajetória no Ballet Stagium é um testemunho de coragem, criatividade e resiliência. Em um país que ainda enfrenta desafios profundos em relação à cultura, sua história nos lembra da importância de preservar e valorizar a arte como um patrimônio essencial.
Com o lançamento de sua autobiografia, Marika não apenas compartilha suas memórias, mas também oferece um ensinamento valioso: a arte tem o poder de resistir, transformar e inspirar. Cabe às novas gerações absorverem e darem continuidade a esse legado, garantindo que a dança continue a ser um reflexo das lutas e aspirações da sociedade.
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