O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou em junho de 2026 o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O projeto prevê um investimento de R$ 210 milhões em obras de saneamento, iluminação, abastecimento de água e regularização fundiária. No entanto, o anúncio reacendeu o debate sobre os problemas estruturais e os projetos inacabados deixados pelo "velho PAC", lançado no segundo mandato de Lula em 2008.

O histórico do PAC no Complexo do Alemão
O primeiro PAC destinou cerca de R$ 493 milhões ao Complexo do Alemão, configurando-se como o maior investimento entre as comunidades cariocas contempladas. À época, Rocinha e Manguinhos também receberam aportes significativos. No entanto, muitas das obras planejadas não alcançaram os resultados esperados, e algumas foram abandonadas antes de serem concluídas.
Entre os principais projetos do antigo PAC estava o teleférico do Alemão, considerado um símbolo de modernização da comunidade. Inaugurado com grande expectativa, o teleférico está fora de operação há mais de dez anos, e os esforços para sua recuperação têm enfrentado atrasos sucessivos. A gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL) assinou um projeto de recuperação do transporte em 2024, mas o funcionamento ainda não foi retomado.
Impactos do "velho PAC": o que deu errado?
Embora algumas infraestruturas do primeiro PAC estejam em operação, como creches, um centro comercial, unidades de saúde, um cinema e um espaço de cursos para crianças e adolescentes, outros elementos enfrentaram problemas significativos. A rede de saneamento, pavimentação de ruas e espaços de lazer ficaram incompletos, e parte das estruturas, como quadras de futebol, foram reformadas pelos próprios moradores devido à ausência de manutenção governamental.
Um exemplo das falhas do projeto é a Avenida Central do Alemão, uma via crucial de 700 metros que conecta o bairro de Ramos ao topo do morro. Durante as obras do teleférico, várias casas foram demolidas para permitir a passagem de equipamentos pesados. No entanto, o espaço ficou apenas com terrenos concretados, sem qualquer reaproveitamento funcional.
Denúncias de corrupção e má gestão
As obras do primeiro PAC foram realizadas por um consórcio formado por Delta, OAS e Odebrecht (atual Novonor). Posteriormente, surgiram denúncias de corrupção envolvendo contratos e o ex-governador Sérgio Cabral, que foi condenado em 2018 por formação de cartel em obras nas comunidades e na reforma do Maracanã. Relatos indicam que empresas participantes teriam formado acordos prévios e realizado pagamentos ilícitos a autoridades públicas.
Além disso, o traçado do teleférico gerou críticas entre os moradores. Segundo Cleandro Krause, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o projeto "forçava a subir" quando os moradores, na verdade, precisavam de transporte que facilitasse o acesso às áreas mais baixas da comunidade.
O que muda com o novo PAC?
O programa atual, batizado de PAC Periferia Viva, busca corrigir as falhas do passado. Dentre as áreas de investimento, destacam-se ações de saneamento básico, iluminação pública, melhorias no abastecimento de água e regularização fundiária. Do montante total de R$ 210 milhões, R$ 200 milhões virão do governo federal e R$ 10 milhões serão contrapartidas da prefeitura.
Diferentemente do programa anterior, o novo PAC prioriza o diálogo com moradores, lideranças comunitárias e instituições locais. Segundo a prefeitura do Rio de Janeiro, as intervenções no Alemão estão sendo definidas com base em um plano de ação colaborativo. Esse novo modelo de governança é visto como essencial para evitar os erros do passado.
Obras em outras comunidades
Além do Complexo do Alemão, o novo PAC também contemplará outras regiões do Rio de Janeiro, como Jardim Maravilha, Rocinha e Maré. Segundo o Ministério das Cidades, as ações estão inseridas no escopo do programa Periferia Viva, que abrange 66 territórios em 21 estados brasileiros.
Apesar disso, um levantamento recente do Tribunal de Contas da União (TCU), atualizado em abril de 2025, revelou que 138 das 196 obras do antigo PAC ainda estavam paralisadas. Isso levanta questões sobre os desafios de execução e continuidade de projetos dessa magnitude.
A relação com o passado: lições aprendidas
Especialistas e líderes comunitários destacam a importância de aprender com os erros do passado. Alan Brum, coordenador do Instituto Raízes em Movimento, enfatiza que a falta de diálogo com os moradores foi um dos principais problemas do antigo PAC. "A relação com o poder neste novo PAC é outra... É a população quem sugere o planejamento", afirma Brum.
O instituto também entregou ao governo federal um caderno com sugestões de planejamento urbano, elaborado com a participação de arquitetos, urbanistas e estudantes da UFRJ. Uma das propostas inclui transformar o terreno inutilizado no topo do morro em um pomar comunitário, resgatando a tradição agrícola da região.
A Visão do Especialista
O lançamento do novo PAC no Complexo do Alemão marca uma tentativa de reverter os erros do passado e promover intervenções urbanas mais eficazes e alinhadas às necessidades da população local. No entanto, os desafios para a execução e manutenção das obras são evidentes, especialmente em um cenário de desconfiança gerado por denúncias de corrupção e má gestão em programas anteriores.
Para especialistas, o sucesso do novo PAC dependerá da capacidade do governo de garantir a transparência nos processos de licitação, a execução eficiente das obras e a continuidade do diálogo com a população. Sem uma mudança estrutural na forma como os projetos são planejados e geridos, os problemas do "velho PAC" podem se repetir.
Com a experiência acumulada e as lições aprendidas, o novo PAC tem a oportunidade de traçar um caminho mais sólido para a urbanização e o desenvolvimento das comunidades. Entretanto, o cumprimento dos prazos e a fiscalização eficaz serão pontos críticos para determinar o impacto e o legado dessa nova fase de investimentos.
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