"O Brasil é assombrado pela escravidão." Com essa afirmação contundente, Carol Rodrigues, diretora do filme "Criadas", resume o impacto histórico e emocional que a obra busca explorar. O longa, que estreia oficialmente em 11 de junho de 2026, já coleciona prêmios importantes, como o de melhor ficção brasileira na Mostra Internacional de São Paulo e o troféu de melhor atriz no Festival do Rio. A pré-estreia, realizada nesta terça-feira (9) em Porto Alegre, foi marcada por debates sobre racismo, colorismo e as cicatrizes deixadas pela escravidão no Brasil.

Diretora do filme "Criadas" fala sobre escravidão no Brasil em cena de notícia jornalística.
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Reprodução

Um olhar sobre o passado: o contexto histórico

Por quase 400 anos, o Brasil foi um dos maiores centros de escravidão no mundo, com milhões de africanos trazidos à força para trabalhar em plantações, minas e casas. A abolição oficial da escravidão ocorreu em 1888, mas os efeitos desse sistema brutal continuam vivos na estrutura social, econômica e cultural do país. O trabalho doméstico, muitas vezes desempenhado por mulheres negras, é uma das heranças mais visíveis dessa desigualdade.

No filme "Criadas", essa história é personificada através de Sandra e Mariana, duas personagens marcadas por suas origens e pela casa onde cresceram. A trama expõe como o racismo estrutural e o colorismo moldam não apenas as instituições, mas também as dinâmicas familiares e afetivas.

Diretora do filme "Criadas" fala sobre escravidão no Brasil em cena de notícia jornalística.
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Trabalho doméstico: um legado da escravidão

O trabalho doméstico, tão central em "Criadas", tem raízes profundas na história escravagista brasileira. Durante o período colonial e imperial, mulheres negras eram frequentemente designadas para cuidar das casas e das famílias de seus senhores. Essa divisão de papéis perpetuou a ideia de subalternidade, algo que ainda ecoa na sociedade atual.

Dados recentes do IBGE mostram que 63% dos trabalhadores domésticos no Brasil são mulheres negras, muitas delas ainda enfrentando condições precárias de trabalho e baixa remuneração. O filme de Carol Rodrigues usa essas realidades como pano de fundo para discutir a ancestralidade, o impacto psicológico e as contradições que permeiam essas relações.

Racismo estrutural e colorismo: um debate urgente

Um dos pontos mais marcantes do filme é a abordagem do colorismo — a discriminação baseada na tonalidade da pele, que afeta principalmente pessoas negras de pele mais escura. Enquanto Sandra, uma mulher negra de pele escura, enfrenta barreiras sociais e profissionais, Mariana, negra de pele clara, vivencia privilégios que a colocam mais próxima do padrão social aceito.

Esse contraste entre as experiências das personagens reflete uma realidade que transcende o cinema. Segundo um estudo de 2023 da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mulheres negras de pele escura têm 35% menos chances de acesso a cargos de liderança em relação a mulheres brancas, enquanto mulheres negras de pele clara enfrentam um grau menor de discriminação.

O papel da memória e da ancestralidade

Em "Criadas", a busca de Sandra por uma foto da mãe simboliza o esforço da população negra brasileira em recuperar sua história e identidade. A escravidão não apenas desumanizou milhões de pessoas, mas também apagou suas histórias e memórias. A ausência de registros concretos e a ruptura das conexões familiares são feridas abertas que ainda precisam de reparação.

Esse desejo de reconexão está alinhado ao conceito africano de Sankofa, que propõe a ideia de retornar ao passado para recuperar o que foi roubado e, assim, construir um futuro mais justo.

Realismo fantástico e horror: um novo caminho para o debate

Carol Rodrigues opta por usar elementos do realismo fantástico e do horror para abordar temas como racismo e ancestralidade. Filmes como "Nós" (2019), de Jordan Peele, e "Casa de Antiguidades" (2020), de João Paulo Miranda Maria, pavimentaram o caminho para o uso do gênero como ferramenta de denúncia. No entanto, Rodrigues se distancia da abordagem ocidental e busca inspiração no cinema africano e asiático.

"Criadas" utiliza o espaço da casa como um microcosmo político. Os fantasmas que assombram sua narrativa simbolizam as feridas abertas pela escravidão que, embora há muito abolida, ainda moldam relações sociais e familiares no Brasil. A diretora destaca que o fantástico no cinema é uma forma de dar visibilidade ao invisível, colocando o passado em diálogo direto com o presente.

Repercussão do filme no Brasil e no mundo

"Criadas" já conquistou prêmios significativos, atraindo atenção da crítica nacional e internacional. O filme também gerou debates sobre a perpetuação de hierarquias raciais e de gênero no Brasil, especialmente no contexto do trabalho doméstico.

O título do filme, tanto em português quanto em inglês ("Sistermaids"), sintetiza sua essência: duas mulheres criadas na mesma casa, mas em condições desiguais. Esse jogo de palavras reflete a dualidade que permeia o enredo e provoca o público a questionar as estruturas sociais que perpetuam desigualdades.

A casa como metáfora do Brasil

No filme, a casa onde Sandra e Mariana cresceram se torna um espaço simbólico que revela a complexidade das relações sociais brasileiras. O pó que insiste em voltar ao balcão, mesmo depois de limpo, é uma metáfora poderosa para as marcas indeléveis da escravidão. Essas marcas estão presentes na maneira como os espaços são divididos, na organização do trabalho doméstico e nas memórias que resistem ao apagamento.

Impacto cultural e político da obra

"Criadas" chega em um momento crucial para o Brasil, onde debates sobre racismo, igualdade de gênero e reparação histórica estão ganhando força. O filme faz parte de uma onda de produções que utilizam o cinema como ferramenta para questionar e desmantelar estruturas de opressão.

Além disso, a obra tem o potencial de iniciar conversas sobre a importância da preservação da memória histórica e da necessidade de reconhecer os legados de violência que ainda ecoam no presente.

A Visão do Especialista

"Criadas" não é apenas um filme; é uma denúncia, uma reflexão e um chamado à ação. Ao explorar os efeitos da escravidão e do racismo estrutural em um contexto familiar, Carol Rodrigues oferece ao público uma oportunidade única de confrontar as desigualdades que permeiam a sociedade brasileira.

O uso do realismo fantástico e do horror não só amplia as possibilidades narrativas, como também desafia o espectador a repensar sua relação com o passado e o presente. Em um país onde as cicatrizes da escravidão ainda moldam o cotidiano, obras como "Criadas" são fundamentais para iluminar as sombras que insistem em permanecer.

Diretora do filme "Criadas" fala sobre escravidão no Brasil em cena de notícia jornalística.
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Reprodução

O Brasil está, de fato, assombrado pela escravidão. E filmes como esse ajudam a revelar essas assombrações, enquanto nos convidam a imaginar um futuro que rompa com as injustiças do passado. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e participe dessa conversa essencial para o futuro do nosso país.