Uma ONG vinculada a uma produtora de filme sobre Jair Bolsonaro apresentou R$ 16,5 milhões em notas fiscais irregulares em contrato de Wi‑Fi com a Prefeitura de São Paulo. A irregularidade foi identificada na prestação de contas analisada pelo g1 e encaminhada à gestão de Ricardo Nunes (MDB).
Contexto histórico do programa de Wi‑Fi gratuito
O programa, iniciado em 2022, prevê a instalação de 5 mil pontos de acesso gratuito em áreas periféricas. O Instituto Conhecer Brasil, ONG criada por Karina Ferreira da Gama, recebeu contrato de R$ 108 milhões para executar a obra até junho de 2025.
Metas e aditivos contratuais
Até 21/05/2026, apenas 3 200 pontos haviam sido concluídos, exigindo três aditivos que estenderam o prazo. A falta de cumprimento total gerou questionamentos sobre a gestão dos recursos públicos.
Irregularidades nas notas fiscais
O parecer da Secretaria Municipal de Tecnologia apontou notas canceladas, faturas sem valor fiscal e documentos emitidos pela própria ONG. Tais práticas violam a Lei nº 13.019/2014 e o Decreto Municipal nº 57.575/2016.
Empresa Make One Tecnologia Digital Ltda.
Em 2024 a ONG utilizou quatro faturas no valor de R$ 8,5 milhões para justificar despesas de aluguel de equipamentos. As faturas não possuíam base fiscal, impedindo o recolhimento de impostos.
Complexsys Soluções Integradas Ltda.
Nota fiscal de R$ 2 milhões emitida em 06/11/2025 foi cancelada no mesmo dia, mas permaneceu na prestação de contas. O empresário André Feldman, dono da empresa, também atua no gabinete do deputado Mário Frias, produtor do filme "Dark Horse".
JR Feijão Ltda. – Caso das notas canceladas
Três notas, totalizando R$ 406 mil, foram apresentadas apesar de terem sido canceladas entre 10/04/2025 e 16/04/2025. A maior delas, de R$ 199,4 mil, foi incluída na documentação de 2024.
Notas emitidas para a própria ONG
Ao menos três notas, somando R$ 1,4 milhão, foram geradas pelo Instituto Conhecer Brasil em favor de si mesmo. O parecer técnico considerou tais documentos indevidos, pois a entidade não pode prestar serviços a si própria.
Parecer da Secretaria de Tecnologia
O documento de 26/02/2026 identificou R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade e R$ 930 mil em valores glosados. A recomendação foi a devolução integral e a aprovação da prestação de contas com ressalvas.
Reação da gestão municipal
A prefeitura afirmou que a ONG devolveu os R$ 930 mil e que o contrato foi renovado para concluir os 1 800 pontos restantes. Não há decisão administrativa que reconheça ilegalidade estrutural.
Repercussão nas investigações
O Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil abriram inquéritos para apurar possíveis fraudes na licitação e sonegação fiscal. A falta de concorrência e a proximidade entre a ONG e a produtora do filme são pontos críticos das investigações.
Opinião de especialistas em compliance
Especialistas destacam que a emissão de notas para a própria entidade fere princípios de transparência e pode configurar crime de falsidade ideológica. Advogados tributários recomendam a suspensão de pagamentos até a conclusão das auditorias.
Cronologia dos principais fatos
- 2022 – Assinatura do contrato de R$ 108 mi para Wi‑Fi.
- 2024 – Apresentação de faturas da Make One sem valor fiscal.
- 06/11/2025 – Emissão e cancelamento da nota da Complexsys.
- 10/04/2025 – Emissão da maior nota da JR Feijão, cancelada em 16/04/2025.
- 26/02/2026 – Parecer da Secretaria de Tecnologia.
- 21/05/2026 – Divulgação da análise do g1.
Resumo dos valores irregulares
| Empresa | Valor total (R$) | Tipo de irregularidade |
| Make One Tecnologia | 8.500.000 | Faturas sem valor fiscal |
| Complexsys Soluções | 2.000.000 | Nota fiscal cancelada |
| JR Feijão Ltda. | 406.000 | Notas canceladas |
| Instituto Conhecer Brasil | 1.400.000 | Notas emitidas para si mesmo |
| Totais glosados | 925.000 | Pagamentos duplicados |
A Visão do Especialista
O caso evidencia fragilidades nos mecanismos de controle de contratos de grande vulto com a administração pública. Para o futuro, recomenda‑se a adoção de auditorias independentes, a exigência de comprovantes fiscais válidos e a restrição de participação de entidades com vínculos comerciais diretos com projetos políticos. A transparência será decisiva para restaurar a confiança da sociedade e evitar sanções legais.
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