Marcelo Queiroga, ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro e pré-candidato ao Senado pela Paraíba, anunciou a conclusão das filmagens de seu média-metragem "O Trem do Destino". A obra, inspirada em um livro de sua autoria, foi gravada em julho de 2026 na cidade de Cabaceiras, Paraíba, conhecida como "Roliúde Nordestina". O filme, que conta com financiamento 100% privado, reacendeu debates sobre o uso da Lei Rouanet e os desafios enfrentados por figuras públicas ligadas à oposição em obter apoio por meio deste mecanismo.
O filme e suas origens
O média-metragem "O Trem do Destino" é baseado no livro "Eu Venho Lá do Sertão — Um Sertanejo que Nasceu na Praia", lançado em maio de 2026 por Queiroga. A trama acompanha a história de Fátima, interpretada por Rita Guedes, uma jornalista de renome internacional que retorna ao Cariri paraibano após décadas longe de sua terra natal. Ao lado de Bento, um artesão do couro vivido por Humberto Martins, a narrativa explora temas de identidade, raízes e reencontro com suas origens.
Segundo Queiroga, a escolha da cidade de Cabaceiras, um polo reconhecido do audiovisual nordestino, foi estratégica. Fatores como as condições climáticas, a luminosidade natural e o cenário único do sertão contribuíram para a decisão. A cidade já foi palco de produções renomadas, como "O Auto da Compadecida", baseado na obra de Ariano Suassuna.
O financiamento e a Lei Rouanet
Um dos aspectos mais comentados do projeto foi o modelo de financiamento. Queiroga optou por não utilizar recursos da Lei Rouanet, afirmando que, no atual contexto político, seria "muito difícil" conseguir apoio pelo mecanismo. Ele também destacou os desafios em recrutar atores para a produção, mencionando que a classe artística geralmente não se mostra simpática a figuras ligadas ao segmento político ao qual pertence.
A Lei Rouanet, instituída em 1991, é um instrumento de incentivo fiscal que permite que empresas e pessoas físicas destinem parte do Imposto de Renda devido para financiar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. Em 2025, foram liberados cerca de R$ 3,4 bilhões por meio desse mecanismo, beneficiando instituições renomadas como o Masp e o Instituto Inhotim.
O contexto político-cultural
A declaração de Queiroga sobre a dificuldade de acesso à Rouanet reflete uma polarização crescente em torno do uso de ferramentas de fomento à cultura no Brasil. Durante os governos petistas, a Lei Rouanet foi amplamente utilizada, mas também se tornou alvo de ataques de setores políticos de direita, que a acusavam de beneficiar apenas uma parcela específica do meio cultural.
O tema voltou ao centro das discussões em 2025, quando um áudio vazado revelou que Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência, buscava financiamento privado para um filme sobre a vida de seu pai, intitulado "Dark Horse". Este episódio reforçou os questionamentos sobre o papel do financiamento público e privado em produções culturais no país.
Críticas e defesas da Lei Rouanet
O posicionamento de Queiroga sobre a Rouanet é ambivalente. Apesar de criticar a dificuldade de acesso ao mecanismo por representantes da oposição, ele não se opõe à sua existência. "A destinação deve priorizar artistas menos conhecidos", afirmou. Outros aliados de Jair Bolsonaro, como o empresário Luciano Hang, já demonstraram apoio à lei. Em 2025, a rede de lojas Havan, de propriedade de Hang, financiou cerca de 40 projetos culturais por meio do mecanismo.
O impacto no mercado audiovisual
A decisão de Queiroga de financiar o filme exclusivamente com recursos privados também levanta debates sobre a sustentabilidade de produções fora dos grandes centros urbanos e do eixo Rio-São Paulo. Ele destacou que optou por não buscar apoio de empresas do setor de saúde para evitar conflitos de interesse, dada sua atuação como ex-ministro da Saúde.
A produção de "O Trem do Destino" também demonstra o potencial da chamada "Roliúde Nordestina" como um polo emergente do cinema nacional. Cabaceiras tem atraído cada vez mais produções devido à sua estética única e infraestrutura favorável para o setor.
Controvérsias e desafios
O caso de Queiroga não é isolado. A dificuldade de acesso à Lei Rouanet por figuras associadas à direita política tem sido amplamente debatida, com acusações de que o sistema favorece determinados grupos ideológicos. No entanto, especialistas apontam que o processo de aprovação de projetos pela lei segue critérios técnicos, como relevância cultural e viabilidade econômica.
Por outro lado, há também críticas ao uso de recursos públicos para financiar produções culturais em um momento de crise econômica, quando outras áreas, como saúde e educação, enfrentam cortes orçamentários significativos.
A relevância cultural e as expectativas para o filme
O média-metragem de Queiroga se insere em um contexto onde a cultura tem servido como palco para disputas políticas no Brasil. A obra busca destacar os aspectos culturais do Nordeste, com um enredo que valoriza as tradições regionais e as histórias de vida locais. "Não é uma história em verde e amarelo. É uma história em tons de sépia, que valoriza as raízes", afirmou o ex-ministro.
A Visão do Especialista
A produção do média-metragem "O Trem do Destino" evidencia a complexa relação entre cultura, política e financiamento no Brasil. Por um lado, a decisão de Queiroga de evitar o uso da Lei Rouanet reflete um contexto polarizado, onde o acesso a recursos públicos para a cultura pode ser influenciado por alinhamentos políticos. Por outro, o uso de financiamento privado pode abrir um precedente para novos modelos de produção, especialmente em regiões fora do eixo tradicional de grandes produções audiovisuais.
Especialistas destacam que, para além das disputas políticas, é crucial que o debate sobre fomento à cultura se concentre na democratização do acesso e na valorização de produções que reflitam a diversidade cultural do Brasil. O caso de Cabaceiras reforça o potencial das regiões do interior como polos de produção criativa, mas também expõe os desafios enfrentados por artistas e produtores independentes para financiar e realizar seus projetos.
Com o lançamento previsto para o final de 2026, "O Trem do Destino" tem o potencial de reacender discussões sobre o papel da cultura na construção de narrativas identitárias e sobre os modelos de financiamento para o setor. Enquanto isso, a polarização em torno da Lei Rouanet continua sendo um tema central no debate público e político brasileiro.
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