Pesquisadores da UFV identificaram três novas espécies de insetos aquáticos da ordem Ephemeroptera na Mata Atlântica, com descobertas realizadas em 2025 nos parques da Serra do Brigadeiro (MG) e de São Joaquim e Urubici (SC).

Novas espécies de Americabaetis na Mata Atlântica

Os cientistas descrevem Americabaetis puri, Americabaetis anapes e Americabaetis urubici como representantes inéditos de um gênero que habita rios de correnteza moderada. Cada espécie apresenta um padrão morfológico exclusivo, refletindo o isolamento geográfico das bacias onde foram coletadas.

Contexto histórico da entomologia brasileira

Desde a década de 1970, a entomologia de água doce tem sido fundamental para mapear a biodiversidade da Mata Atlântica. Estudos pioneiros de Ferreira (1978) e Moreira (1994) já sinalizavam a alta endemismo de efêmeros, mas a falta de acesso a áreas remotas limitava o conhecimento.

Metodologia das expedições

As equipes da UFV realizaram amostragem sazonal de 12 meses, utilizando redes de entomologia de 500 µm e coleta de larvas em microhabitats de pedra e folha. As amostras foram preservadas em etanol 95 % e analisadas sob microscopia óptica e DNA barcoding (COI).

Características taxonômicas e adaptações

Diferenças na estrutura das garras, número de setas nas antenas e tamanho das brânquias distinguem as três espécies. Em A. puri, a largura da cabeça é 12 % maior que nas congêneres, adaptação associada a correntes mais rápidas da Serra do Brigadeiro.

Detalhes das novas espécies

  • Americabaetis puri – Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (MG); altitude média 1 200 m.
  • Americabaetis anapes – São Joaquim (SC); homenagem à pesquisadora Ana Maria Pes.
  • Americabaetis urubici – Urubici (SC); nome derivado do município.

Importância ecológica e conservação

Efêmeros são bioindicadores sensíveis a alterações de qualidade da água, como níveis de oxigênio e poluentes. A presença dessas novas espécies indica ecossistemas com baixo teor de nutrientes e alta conectividade fluvial.

Repercussão econômica e científica

O reconhecimento de novas espécies abre caminho para projetos de ecoturismo científico e para a bioprospecção de enzimas adaptadas a ambientes de alta corrente. Empresas de monitoramento ambiental já demonstram interesse em protocolos baseados nesses insetos.

EspécieLocalAltitude (m)Comprimento médio larva (mm)Período de voo adulto
Americabaetis puriSerra do Brigadeiro (MG)1 2006,54‑6 h
Americabaetis anapesSão Joaquim (SC)1 3505,83‑5 h
Americabaetis urubiciUrubici (SC)1 4006,24‑7 h

Depoimentos de especialistas

Frederico Salles, coordenador do projeto, destaca que "a divergência morfológica evidencia a ação de microevolução em bacias isoladas". A bióloga Ana Lúcia Ribeiro, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, corrobora a importância para a conservação de corredores fluviais.

Próximos passos da pesquisa

Os próximos anos focarão na modelagem de distribuição das espécies e na avaliação de sua sensibilidade a mudanças climáticas. Estudos de longo prazo deverão integrar dados de temperatura da água e de uso da terra nas bacias.

A Visão do Especialista

Do ponto de vista da biologia da conservação, a descoberta reforça a necessidade de proteger áreas remanescentes da Mata Atlântica, pois cada microbacia pode abrigar linhagens endêmicas ainda desconhecidas. Investimentos em monitoramento ambiental baseado em efêmeros podem melhorar a gestão de recursos hídricos e prevenir a degradação de ecossistemas críticos.

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