É possível construir um futuro mais justo e colaborativo quando a sociedade se baseia na troca, e não na competição? Essa é a provocação central do quinto episódio da segunda temporada do podcast "Em Obras", produzido no âmbito da 36ª Bienal de São Paulo. O programa destaca iniciativas que desafiam a lógica do individualismo e da meritocracia, apresentando projetos que apostam na força do coletivo como motor para a transformação social.

O papel do coletivo em uma sociedade individualista
O conceito de meritocracia tem sido amplamente debatido nos últimos anos, especialmente em sociedades que exaltam o sucesso individual como resultado exclusivo de esforço pessoal. No entanto, essa narrativa ignora as desigualdades estruturais que criam barreiras para muitos. É nesse contexto que o podcast "Em Obras" propõe uma reflexão sobre modelos de organização social baseados na cooperação, na troca de saberes e na construção conjunta.
No episódio mais recente, são apresentados dois projetos emblemáticos: o Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, em Goiás, e o Instituto Desvelando Oris, em São Paulo. Ambos se destacam por promoverem práticas de compartilhamento, horizontais e inclusivas, como alternativas ao modelo tradicional baseado na competição.

Do Sertão Negro ao Instituto Desvelando Oris
O Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes é um exemplo de como o coletivo pode resgatar e valorizar saberes ancestrais. Localizado em Goiás, o projeto une arte, educação e conexão com a terra, promovendo uma troca intergeracional na qual "o mais velho ensina o mais novo e vice-versa", como explica a curadora Melissa Alves. Esse modelo não apenas fomenta a formação artística, mas também fortalece laços comunitários e valoriza as raízes culturais de seus participantes.
Já o Instituto Desvelando Oris, fundado por Juliana Souza, tem como foco principal a promoção de direitos e o acesso a oportunidades para pessoas em situação de vulnerabilidade. Para Juliana, "o conhecimento e as soluções estão em todas as pessoas". Essa abordagem coloca o protagonismo nas mãos de quem participa, criando um espaço onde as decisões e soluções são construídas de forma colaborativa, ao invés de serem impostas de cima para baixo.
Contexto histórico: de onde vem a crítica à meritocracia?
A crítica à meritocracia não é nova. Ela remonta às teorias sociais do século XX, mas ganhou força nas últimas décadas com o aprofundamento das desigualdades socioeconômicas ao redor do mundo. No Brasil, um dos países mais desiguais do planeta, a ideia de que "cada um é responsável pelo seu sucesso" encontra resistência na realidade de milhões que enfrentam barreiras estruturais para ascender social e economicamente.
Essas barreiras incluem desde a falta de acesso à educação de qualidade até preconceitos raciais e de gênero que limitam oportunidades. Iniciativas como as apresentadas no podcast "Em Obras" surgem como alternativas a esse cenário, mostrando que a colaboração e a solidariedade podem ser ferramentas poderosas para a transformação social.
A Bienal de São Paulo como plataforma de reflexão
O podcast "Em Obras" faz parte da programação da 36ª Bienal de São Paulo, um dos eventos artísticos mais importantes do mundo. Desde sua criação em 1951, a Bienal tem se posicionado como um espaço para debates sobre temas urgentes da sociedade, utilizando a arte como ferramenta de questionamento e transformação.
Nesta edição, o evento reforça sua proposta de promover o diálogo entre diferentes perspectivas, culturas e práticas. O próprio nome do podcast, "Em Obras", reflete a ideia de um mundo em constante construção, onde as soluções para os desafios contemporâneos não são definitivas, mas fruto de processos coletivos e dinâmicos.
O impacto de iniciativas baseadas no coletivo
Mas qual é o impacto real de projetos como o Sertão Negro Ateliê e o Instituto Desvelando Oris? Estudos mostram que práticas colaborativas têm o potencial de criar comunidades mais resilientes e capazes de enfrentar desafios coletivamente. Além disso, essas iniciativas frequentemente promovem inclusão social e econômica, oferecendo ferramentas para que indivíduos em situações de vulnerabilidade possam se desenvolver.
Segundo dados do IBGE, cerca de 33 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Em um cenário como esse, projetos que promovem a partilha e o apoio mútuo desempenham um papel crucial na redução das desigualdades e na construção de uma sociedade mais justa.
O papel da arte na transformação social
A arte sempre desempenhou um papel central na crítica social e na promoção de mudanças. No caso do Sertão Negro Ateliê, por exemplo, a arte é utilizada como uma ferramenta para preservar e transmitir saberes culturais e ancestrais. Já no Instituto Desvelando Oris, o foco está no uso da arte como um meio de empoderamento e transformação.
Esses exemplos reforçam a ideia de que o acesso à cultura e à arte é fundamental para o desenvolvimento humano. Mais do que um luxo, a arte pode ser um meio poderoso de resistência, reflexão e mudança.
A relevância do podcast "Em Obras" no cenário atual
Em um momento em que a sociedade enfrenta desafios globais como a desigualdade econômica, a crise ambiental e a polarização política, o podcast "Em Obras" surge como uma plataforma relevante para a discussão de soluções alternativas. Ao dar voz a iniciativas que apostam no coletivo, o programa contribui para uma mudança de mentalidade, mostrando que é possível construir um futuro mais inclusivo e colaborativo.
A Visão do Especialista
O podcast "Em Obras" não apenas apresenta histórias inspiradoras, mas também convida o público a refletir sobre os valores que norteiam nossa sociedade. Em um mundo cada vez mais fragmentado, iniciativas como essas são um lembrete poderoso de que o futuro não precisa ser construído com base na competição, mas pode ser moldado pela solidariedade e pela troca de saberes.
Para especialistas em sociologia e antropologia, projetos como o Sertão Negro e o Instituto Desvelando Oris são exemplos práticos de como é possível reimaginar nossas formas de organização social. O desafio agora é ampliar essas iniciativas e integrá-las em um contexto mais amplo, influenciando políticas públicas e práticas empresariais.

O convite do "Em Obras" é claro: reavaliar nossos valores e repensar o papel do coletivo na construção de um mundo mais justo. Essa é uma mensagem que merece ser amplificada. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e contribua para esse importante debate.
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