A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, que abordaria a trajetória política de Jair Bolsonaro, nunca lançou qualquer obra audiovisual no Brasil ou no exterior. A informação foi confirmada por meio de um levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine), realizado a pedido do blog da jornalista Malu Gaspar, de O Globo. Apesar de registrada na Ancine desde julho de 2025, a produtora não cadastrou o filme na agência, ampliando as dúvidas em torno do projeto.
Entenda o contexto da Go Up Entertainment
A Go Up Entertainment foi formalizada na Receita Federal em maio de 2025, dois meses após a produtora começar a receber recursos financeiros para o projeto do filme. Segundo Karina Ferreira da Gama, proprietária da empresa, os valores destinados ao longa vieram de um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro, com recursos captados pelo empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Até o momento, a produtora não registrou qualquer obra na Ancine, e o próprio Dark Horse ainda não foi oficialmente apresentado à agência.
A polêmica em torno do financiamento de Dark Horse
A produção de Dark Horse chamou atenção principalmente pelo financiamento milionário. Estima-se que cerca de R$ 61 milhões foram captados para o projeto, um valor que supera os custos de produções brasileiras recentes de grande destaque, como O agente secreto (R$ 28 milhões) e Ainda estou aqui (R$ 45 milhões). Segundo Karina, aproximadamente 50% do orçamento do filme foi destinado ao elenco internacional, que conta com nomes como Jim Caviezel e Esai Morales.
No entanto, especialistas do setor questionam a veracidade dos valores divulgados. Um profissional ouvido reservadamente pela imprensa afirmou que o custo informado é elevado para os padrões da indústria brasileira, especialmente considerando que o ator principal, Jim Caviezel, estaria em uma fase menos relevante de sua carreira em Hollywood.
Histórico das entidades ligadas à produtora
Além da Go Up Entertainment, Karina Ferreira da Gama também está associada a outras duas entidades cadastradas na Ancine: a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil. Segundo informações da agência, ambas as organizações não possuem obras lançadas e encontram-se em situação irregular desde janeiro de 2026 por falta de atualização cadastral. Isso impossibilita a apresentação de novos projetos ou a solicitação de financiamento público.
Karina afirmou que a Go7 já havia registrado projetos na Ancine anteriormente, como uma produção infantil e um documentário sobre esportes chamado Atletas de Cristo. Entretanto, nenhuma das iniciativas foi concluída, o que ela atribui à falta de apoio do mercado audiovisual para pequenas produtoras.
Aspectos jurídicos e repercussão política
A controvérsia envolvendo Dark Horse ultrapassou o âmbito cinematográfico e chegou à esfera política e judicial. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi acionado por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para impedir a estreia do filme antes das eleições, com o argumento de que a obra poderia ser usada como peça de propaganda eleitoral disfarçada. Paralelamente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de uma apuração preliminar sobre o uso de emendas parlamentares que poderiam ter financiado entidades ligadas à produtora.
Registro na Ancine e ausência de obras lançadas
De acordo com a Ancine, o registro da Go Up foi confirmado em 9 de julho de 2025, e a empresa está regularizada. No entanto, a produtora ainda não cadastrou Dark Horse ou qualquer outra obra na agência. Essa ausência de registro reforça as suspeitas de que a empresa teria sido criada exclusivamente para viabilizar o filme sobre Bolsonaro, hipótese negada pela proprietária Karina Ferreira da Gama.
Alterações no objeto social da empresa
Documentos da Junta Comercial de São Paulo revelaram que a Go Up alterou seu objeto social e suas atividades econômicas meses antes de protocolar o registro na Ancine. As mudanças ocorreram em junho de 2025, logo após o início dos repasses financeiros para a produção do filme, levantando questionamentos sobre o propósito da empresa.
Comparação com outras produções nacionais
O orçamento atribuído a Dark Horse, de aproximadamente R$ 65,7 milhões, é considerado elevado para os padrões do cinema nacional. Para efeito de comparação, veja na tabela abaixo os custos de produções recentes no Brasil:
| Filme | Orçamento Estimado |
|---|---|
| O agente secreto | R$ 28 milhões |
| Ainda estou aqui | R$ 45 milhões |
| Dark Horse | R$ 65,7 milhões |
O futuro incerto de Dark Horse
Apesar das controvérsias e da ausência de lançamentos anteriores, Karina Ferreira da Gama afirmou que a produção e pós-produção do filme já estão concluídas. No entanto, o projeto continua envolto em incertezas devido às investigações em curso, à falta de registro na Ancine e à possibilidade de sofrer impedimentos judiciais antes de sua eventual estreia.
A Visão do Especialista
A trajetória da Go Up Entertainment e o caso de Dark Horse destacam as complexidades e desafios do setor audiovisual brasileiro, especialmente no que diz respeito ao financiamento e à transparência. Para especialistas, o caso expõe a necessidade de uma maior fiscalização sobre o uso de recursos em produções culturais, além de um debate mais amplo sobre a regulamentação envolvendo obras que possam ser interpretadas como propaganda política.
Com as investigações ainda em andamento e a pressão política crescente, o futuro de Dark Horse permanece incerto, mas o caso já se tornou um marco na discussão sobre ética, financiamento e transparência no cinema nacional. Enquanto isso, o mercado e o público aguardam os desdobramentos que podem moldar o futuro das produções no Brasil.
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