A partir de junho de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) dará um passo significativo na proteção da população contra doenças pneumocócicas. A atual vacina pneumocócica conjugada 10-valente (VPC10) será substituída pela versão 20-valente (VPC20), dobrando o número de sorotipos prevenidos. Essa atualização, amplamente aguardada, busca conter o aumento recente de casos de doenças graves causadas pelo Streptococcus pneumoniae, especialmente entre crianças e grupos de risco.
O que é a doença pneumocócica?
A doença pneumocócica é causada pela bactéria Streptococcus pneumoniae, também conhecida como pneumococo. Ela pode provocar desde quadros leves, como sinusite e otite, até complicações graves, como pneumonia bacteriana, meningite e sepse. Estima-se que o pneumococo seja responsável por até 50% dos casos de meningite bacteriana em crianças, com uma taxa de mortalidade que pode chegar a 30%.
O histórico das vacinas pneumocócicas no Brasil
Em 2010, a VPC10 foi incorporada ao calendário básico de vacinação infantil no Brasil. Desde então, os números indicam uma redução de 60% nos casos de doença meningocócica causados pelos 10 sorotipos combatidos por essa vacina, além de uma queda de 65% nos casos de meningite pneumocócica em crianças de até dois anos.
No entanto, dados recentes mostram uma tendência de aumento nos casos graves de doenças pneumocócicas. Entre 2013 e 2019, o Brasil registrou uma média de 164 casos anuais de meningite pneumocócica em crianças de até cinco anos. Esse número subiu para 211,3 casos anuais no período de 2022 a 2024.
O que muda com a introdução da VPC20?
A VPC20 oferece proteção contra 20 sorotipos de Streptococcus pneumoniae, em comparação aos 10 sorotipos cobertos pela VPC10. De acordo com o Ministério da Saúde, quase 40% dos casos graves de doença pneumocócica registrados entre 2018 e 2023 foram causados por dois sorotipos não cobertos pela VPC10, mas que integram a nova vacina.
Além disso, a VPC20 promete reforçar a proteção em crianças menores de um ano, faixa etária onde aproximadamente 11% dos casos de meningite pneumocócica são causados por sorotipos adicionais incluídos na nova vacina.
Como será a transição da VPC10 para a VPC20?
Durante o processo de substituição, o esquema vacinal será ajustado da seguinte forma:
- Crianças que iniciarem o esquema vacinal com a VPC20 receberão as doses subsequentes com a mesma vacina.
- Crianças que receberam a primeira dose da VPC10 passarão a receber a VPC20 nas doses seguintes.
- Crianças menores de cinco anos que já completaram o esquema básico de duas doses com a VPC10 receberão uma dose de reforço com a VPC20.
Quem deve tomar a vacina pneumocócica?
A vacina pneumocócica é essencial para crianças menores de cinco anos, especialmente aquelas com condições médicas ou imunológicas que as tornem mais suscetíveis a doenças graves. Além disso, há grupos de alto risco que também devem ser imunizados, como:
- Pessoas vivendo com HIV/aids;
- Pacientes oncológicos;
- Transplantados de órgãos sólidos ou medula;
- Imunodeficientes;
- Pessoas com doenças crônicas, como diabetes, asma grave e doenças cardíacas;
- Pessoas com síndrome de Down;
- Prematuros.
Por que a mudança é importante?
De acordo com a Dra. Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, a introdução da VPC20 reflete uma resposta às mudanças epidemiológicas do pneumococo no Brasil. "A vacinação com a VPC10 foi muito eficaz em reduzir os casos de doenças graves causadas pelos sorotipos que ela cobre. No entanto, o fenômeno de 'replacement', onde outros sorotipos começam a predominar, demandava uma atualização na estratégia vacinal", explica.
Além disso, a VPC20 não apenas protege contra a doença, mas também reduz a colonização do pneumococo na nasofaringe, diminuindo a transmissão comunitária. Esse efeito de "proteção indireta" beneficia até mesmo aqueles que não estão vacinados.
Como será a aplicação no calendário vacinal?
No calendário básico de vacinação, os bebês devem receber duas doses da vacina pneumocócica conjugada, aos 2 e 4 meses de idade, com uma dose de reforço aos 12 meses. Crianças que não receberam a imunização na idade prevista devem atualizar suas carteiras vacinais o quanto antes.
Além disso, a VPC20 substituirá outras vacinas pneumocócicas mais abrangentes, como a VPC13 e a VPP23, atualmente destinadas a públicos específicos com condições de saúde que aumentam a vulnerabilidade.
Contraindicações e precauções
A VPC20 é considerada segura, mas há contraindicações. A vacina não deve ser aplicada em pessoas com alergia grave a qualquer componente da fórmula ou que tenham apresentado reação alérgica severa em doses anteriores. Além disso, é recomendado que pessoas com febre adiem a vacinação até a recuperação completa.
A Visão do Especialista
A substituição da VPC10 pela VPC20 no sistema público de saúde representa um avanço significativo no combate às doenças pneumocócicas no Brasil. Especialistas como a Dra. Flávia Bravo acreditam que a nova vacina permitirá uma redução expressiva nas taxas de doenças graves, especialmente entre crianças e populações de risco.
Porém, o pleno sucesso da medida depende da adesão ao calendário vacinal e da conscientização da população sobre a importância da imunização. É fundamental que pais, responsáveis e profissionais de saúde redobrem os esforços para garantir que as crianças recebam todas as doses necessárias no tempo adequado.
Com a implementação da VPC20, o SUS reforça seu compromisso com a saúde pública e a prevenção de doenças. A expectativa é que essa medida contribua para um futuro mais seguro e saudável, reduzindo o impacto das doenças pneumocócicas na sociedade brasileira.
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