O Rio Grande do Sul (RS) está no centro de uma discussão estratégica que vai muito além da mineração: o papel das terras raras na economia global. Esses 17 elementos químicos, utilizados em motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, equipamentos médicos e sistemas de defesa, são fundamentais para tecnologias de ponta e para a transição energética. Apesar de não serem tão raros na natureza, o desafio está no processamento e na fabricação de produtos avançados. Nesse contexto, o RS precisa definir sua posição em um cenário global dominado pela China e que começa a despertar maior atenção de potências como os Estados Unidos e o Brasil.

O que são terras raras e por que elas são estratégicas?

As terras raras compreendem 17 elementos químicos da tabela periódica, incluindo o lantânio, o neodímio e o itérbio. Eles possuem propriedades eletrônicas, magnéticas e ópticas únicas, essenciais para a fabricação de dispositivos de alta tecnologia. Embora não sejam escassos na crosta terrestre, a dificuldade está na separação e no refino industrial desses elementos. São processos custosos e que requerem tecnologias avançadas.

Atualmente, a China domina o setor, concentrando cerca de 90% do processamento global de terras raras. Esse monopólio garante ao país um papel central na cadeia de produção de tecnologias estratégicas, desde smartphones até baterias de veículos elétricos. O Brasil, por sua vez, possui a segunda maior reserva mundial, mas sua participação na produção global de terras raras é insignificante, respondendo por apenas 0,5%.

O papel do Brasil e as iniciativas em andamento

A dependência global da China tem levado diversos países a buscar alternativas para não ficarem vulneráveis ao seu domínio. Nesse contexto, o Brasil começa a reagir. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) têm investido em 56 projetos ligados a minerais estratégicos, com um investimento previsto de R$ 45,8 bilhões, incluindo iniciativas voltadas para terras raras.

Além disso, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos avança no Congresso Nacional, buscando uma estratégia que permita ao Brasil ocupar um espaço mais significativo na cadeia global de valor. O objetivo é evitar que o país continue sendo apenas um exportador de matéria-prima bruta, sem agregar valor localmente.

A posição do Rio Grande do Sul na nova economia global

Embora o RS não tenha grandes jazidas confirmadas de terras raras, isso não significa que o Estado esteja fora dessa disputa. A verdadeira oportunidade está em participar da cadeia de valor industrial, especialmente porque o RS já apresenta uma demanda crescente por tecnologias que dependem desses elementos químicos, como motores elétricos e turbinas eólicas.

O Estado reúne ativos estratégicos que podem alavancar sua participação nesse mercado. Instituições de ensino como a UFSM, UFRGS, Unipampa, PUCRS e Unisinos possuem expertise em ciência de materiais, química e engenharia. Além disso, o polo petroquímico de Triunfo e a indústria metalmecânica da Serra Gaúcha oferecem a base industrial necessária para atrair investimentos em tecnologia de processamento e fabricação de produtos que utilizem terras raras.

Pesquisas preliminares em Caçapava do Sul

Estudos apontam para possíveis ocorrências de terras raras em regiões como Caçapava do Sul, no RS, mas essas investigações ainda estão em estágios iniciais. A pergunta crucial, no entanto, não é se o Estado terá minas de terras raras, mas sim se conseguirá desenvolver uma estratégia para integrar-se à cadeia de valor global das tecnologias que dependem desses elementos.

A disputa global pelas terras raras

A crescente demanda por tecnologias sustentáveis, como veículos elétricos e energia eólica, intensificou a competição por terras raras. Os Estados Unidos, por exemplo, têm buscado reduzir sua dependência da China, investindo em mineração e processamento doméstico, além de parcerias estratégicas com países como Austrália e Canadá.

No entanto, é importante lembrar que a mineração é apenas o ponto de partida. O verdadeiro valor econômico está no processamento e na produção de bens de alta tecnologia. É nesse ponto que a China consolidou seu domínio, tornando-se indispensável para a cadeia global de fornecimento.

Oportunidades para o RS

O RS possui uma oportunidade única de se destacar como um polo industrial para tecnologias baseadas em terras raras. A crescente demanda por energia renovável, como a energia eólica, e o avanço do hidrogênio verde no Estado podem exigir maior produção local de componentes como ímãs permanentes e motores elétricos.

Além disso, a proximidade com o Mercosul e a infraestrutura industrial existente são fatores que podem atrair empresas interessadas em estabelecer operações no Estado. Com uma estratégia bem definida, o RS pode se tornar um hub tecnológico de terras raras, mesmo sem depender exclusivamente da mineração local.

Desafios para o Brasil e para o mundo

A transição energética global está diretamente ligada à disponibilidade de terras raras. A competição por esses recursos pode gerar tensões geopolíticas, como já ocorre entre os Estados Unidos e a China. Para o Brasil, o desafio é não repetir o histórico de exportar minérios brutos sem investir em agregação de valor.

O RS, por sua vez, enfrenta o desafio de transformar seu potencial industrial em realidade. Isso requer investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, além de políticas públicas robustas que atraiam investidores e incentivem a inovação.

A Visão do Especialista

O futuro do Rio Grande do Sul no contexto das terras raras não depende apenas de encontrar jazidas, mas de traçar uma estratégia que permita ao Estado ocupar um papel relevante na cadeia de valor dessas tecnologias. Como destaca o especialista Eric Fernando Boeck Daza, o foco deve estar na industrialização e no desenvolvimento de tecnologias de ponta, e não apenas na exploração de recursos naturais.

Com sua base acadêmica, industrial e geográfica, o RS tem todas as condições para se tornar um importante player na nova economia global. No entanto, isso exige ação coordenada entre governo, academia e setor privado. O momento é agora: o que o Rio Grande do Sul fizer hoje determinará seu papel no mercado global de terras raras nas próximas décadas.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a disseminar o conhecimento sobre um tema essencial para o futuro da economia e da tecnologia no Brasil.